Edufba lança 42 novos títulos selecionados via chamada pública

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A Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) anunciou na quarta feira, 5 de julho, o lançamento de 42 novos títulos nos próximos meses, cujo diferencial mais marcante é o processo de seleção a que foram submetidos: pela primeira vez, a escolha das novas obras a serem publicadas foi feita através de chamada pública, num processo que envolveu mais de 200 pareceristas externos e favoreceu a isonomia da seleção.

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Reitor João Carlos Salles saúda novos autores: “momento de afirmação de nossa capacidade de produção e de pesquisa”

“Num momento em que o governo recomenda à universidade que corte investimentos, a UFBA vai na contramão, e investe o máximo possível. Esse é um momento de afirmação de nossa capacidade de produção e de pesquisa que precisamos celebrar”, afirmou o reitor João Carlos Salles, em reunião com os novos autores.

A procura foi bem superior ao esperado, segundo a diretora da Edufba, Flávia Rosa. Mais de 120 originais foram enviados, sendo 98 para o edital de livro impresso, 15 para o de dramaturgia, e 10 para o de livro eletrônico. Cada um dos títulos foi lido por dois pareceristas externos – em alguns casos, três pareceres foram necessários. No caso dos títulos de dramaturgia, uma comissão ad hoc foi montada para ler todos os originais.

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Flávia Rosa, diretora da Edufba, apresenta o “Manual do autor” aos novos autores da editora

“É a primeira vez que fazemos uma seleção tão grande por meio de chamada pública. É um mecanismo que dá ampla publicidade ao processo e oportunidade aos autores”, avalia Flávia.

Anteriormente, a seleção de originais para livro impresso era feita geralmente por meio de demanda espontânea – chamadas públicas já haviam sido experimentadas somente para livros eletrônicos e de dramaturgia. Não há prazo definido para a publicação dos novos livros, haja vista o processo complexo que envolve a editoração de cada título. As chamadas públicas irão continuar e a próxima deverá ser divulgada no final de agosto.

Não só a quantidade, como a qualidade dos originais enviados levou a Edufba a se esforçar para selecionar uma quantidade de títulos acima do previsto. Além dos 30 livros impressos previstos pelo edital de livros impressos, mais cinco títulos muito bem avaliados, com temática relacionada à memória da UFBA, foram selecionados. Cinco e-books – um a mais do que o previsto – e dois títulos de dramaturgia completam a lista.

Novos autores da Edufba: diversidade de temáticas e áreas do conhecimento

Novos autores da Edufba: diversidade de temáticas e áreas do conhecimento

Chama atenção também a diversidade de temáticas e de áreas do conhecimento contempladas pelo processo seletivo, bem como a mescla entre autores conhecidos – como o professor titular da Faculdade de Medicina da UFBA Ronaldo Ribeiro Jacobina, autor de “Juliano Moreira: da Bahia para o mundo a formação baiana do intelectual de múltiplos talentos (1872-1902)” – e jovens, como a doutoranda em comunicação pela UFBA Valéria Maria Vilas Bôas – que lançará “Outras notícias virão logo mais: a construção da serialidade nos telejornais diários da TV Globo”, originado de sua pesquisa de mestrado.

No conjunto de títulos, há de um tudo. Da percepção do tempo por povos indígenas do noroeste amazônico – tema de “Na transversal do tempo: naureza e cultura à prova da história”, da professora do departamento de História da UFBA Ana Carolina Barbosa Pereira – às referências culinárias na obra de Eça de Queirós – tema do e-livro do professor do Instituto de Letras José Roberto de Andrade; da revisão da vida e obra da antropóloga Ruth Landes na Bahia dos anos 1930 – temática abordada pela antropóloga norte-americana Jamie Lee Anderson – ao estudo do uso de madeiras em construções do período colonial – objeto do livro de Karina Matos de Araújo Fadigas Cerqueira e Mário Mendonça de Oliveira.

A lista completa de obras e autores está disponível no site da Edufba. Enquanto os novos livros não saem, confira alguns resumos enviados pela Edufba.

Título: Cozinha Literária de Eça de queirós
Autor: José Roberto de Andrade

A leitura das obras de Eça de Queirós e de estudos sobre a culinária eciana demonstram que cozinha e refeições não são tema menor e decorativo no conjunto de seus escritos. Críticos como Maria José de Queirós e Andrée Grabé Rocha entendem que Eça trata o assunto com desvelo — muitas vezes próximo da obsessão —, a fim de representar os costumes da época e de exercitar a crítica. Esse cuidado também se manifesta com dois outros aspectos relacionados à comida: sexualidade e poder. Em Eça, a caracterização gastronômica das personagens, os espaços dedicados à comida e à sexualidade (o “comer” no sentido metafórico) e os discursos sobre essas atividades estão, a nosso ver, intimamente relacionados ao conhecimento de leis e regras de conduta social e gastronômica (o “saber”) e ao exercício do poder, de todos os tipos. O prazer à mesa e o prazer sexual são privilégios de personagens que aprendem e se educam para o saber e o poder comer. Neste trabalho, analisamos as cinco obras da fase que Carlos Reis classificou como “autoral”: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, A Relíquia, O Mandarim e Os Maias. De cada uma, escolhemos três cenas ou personagens ou aspectos, para verificar qual o papel que culinária, sexualidade e poder exercem no projeto de representação de Eça de Queirós. Nos capítulos 1, introduzimos o assunto, detalhamos o corpus, explicamos as limitações do trabalho; no 2, procuramos estabelecer uma relação entre o escritor e o cozinheiro. No capítulo 3, dedicamo-nos a´O Crime do Padre Amaro; No 4, a´O Primo Basílio. No 5, confrontamos A Relíquia e O Mandarim; e Os Maias são assunto do capítulo 6.

Título: Juliano Moreira: da Bahia para o mundo a formação baiana do intelectual de múltiplos talentos (1872-1902)
Autor: Ronaldo Ribeiro Jacobina

Este livro apresenta vida e obra do baiano Juliano Moreira, com prioridade ao período vivido em sua terra natal, do nascimento em 1872 até 1902, quando ele se transferiu para o Rio de Janeiro, então capital federal. A maioria dos estudos sobre esse médico dermatologista, sifilógrafo, sanitarista, tropicalista, psiquiatra, neurologista e historiador da medicina e das ciências em geral dá ênfase à sua fase carioca (1903-33), destacando o prestígio nacional e internacional. Este trabalho mostra que o jovem Juliano já tinha apresentado esses múltiplos talentos em estudos e práticas desenvolvidos já na Bahia, como foi o seu protagonismo ainda estudante de medicina, o do médico recém-formado no interior do estado, o de professor da Faculdade de Medicina da Bahia, desde o famoso concurso para Lente Substituto, quando enfrentou e venceu o preconceito, e depois sua atuação nas atividades acadêmicas desenvolvidas e seu protagonismo em eventos nacionais e internacionais, até 1902, que se potencializaram quando passou a exercer um cargo federal na assistência à saúde mental do país em seu período carioca. O livro apresenta também descobertas originais e importantes na vida e obra de um intelectual falecido há mais de oito décadas. Revelar a sua reprovação em matéria acadêmica na formação médica, nunca mencionada por desconhecimento de alguns, que não foram às fontes primárias, ou talvez por uma concepção celebratória de outros de seus biógrafos; o seu lado literário e poético, com poema inspirado numa paixão; a riqueza e complexidade de sua tese inaugural, escrita ainda como acadêmico, de difícil acesso ao original; e o seu papel destacado na Gazeta Médica da Bahia, publicação da chamada Escola Tropicalista Baiana. Foram feitas também a descrição biográfica e a análise das duas principais obras disponíveis na literatura, dando prioridade às fontes mais antigas em relação às mais recentes e confrontando com uma boa parte da própria obra original de Juliano Moreira, que, com frequência, apresentava resultados biográficos relevantes.

Título: Ruth Landes e a “Cidade das Mulheres”: antropologia e o matriarcado nos candomblés da Bahia
Autora: Jamie Lee Andreson

Por meio de fontes primárias, como cartas pessoais, correspondências e a coleção de fotos tiradas no campo de pesquisa, essa obra trata da antropóloga norte-americana Ruth Landes, na Bahia, durante as pesquisas por ela desenvolvidas nos candomblés, entre agosto de 1938 e fevereiro de 1939. Discute a construção das suas teorias do matriarcado e homossexualidade no candomblé, apresentadas em artigos e, principalmente, em seu livro etnográfico, A Cidade das Mulheres, publicado em 1947, em inglês, e, no ano de 1967, em português. Examina, em detalhes, o relacionamento colaborativo e romântico entre Ruth Landes e o etnólogo baiano Edison Carneiro desde que se conhecerem, em 1938, até o falecimento de Carneiro, no ano de 1972. Aponta como colaboraram ao longo das carreiras para impactar o campo de estudos afro-brasileiros e contribuir para as formações acadêmicas, reciprocamente. Oferece uma análise comparativa entre a etnografia escrita e as fotos tiradas durante a pesquisa de campo para aproximar a experiência de Landes como pesquisadora estrangeira nos candomblés e a interação com os informantes principais: mulheres e crianças nos terreiros. Coloca como essas interações no campo de pesquisa informavam as conclusões apresentadas nas publicações subsequentes. No final, aborda as críticas da tese do matriarcado e homossexualidade e coloca os trabalhos de Landes como elementos que compõem a pauta das discussões subsequentes nos âmbitos dos estudos afro-brasileiros, da antropologia feminista e pós-moderna, de modo a considerar seus significados na academia e também a relevância da etnografia para abordar estudos sobre os candomblés atuais na Bahia.

Título: Madeiras de Construção do período colonial na Bahia: uso, exploração, venda, destinação e identificação das espécies
Autores: Karina Matos de Araújo Fadigas Cerqueira e Mário Mendonça de Oliveira

Ao longo dos séculos, a madeira teve grande contribuição como material de construção. Seus usos foram diversos, encontrando-se em edificações, fazendo parte de elementos em alvenarias, fundações, estruturas, pavimentações, esquadrias e mobiliário. Além disso, construíram-se, em madeira, obras viárias, como pontes, artefatos bélicos, como carretas de canhão e pontes levadiças de fortalezas e, intensamente, na construção de embarcações mercantis e de guerra, especialmente, durante a expansão da civilização europeia. A sua intensa extração tornou o material escasso em várias regiões, o que permite entender o motivo pelos quais as madeiras brasileiras foram tão exploradas por europeus durante os séculos XVI ao XIX, período em que o Brasil foi colônia de Portugal. O interesse de Portugal, e de outros países europeus pelas madeiras brasileiras, em especial aquelas da Mata Atlântica, foi bastante abordado por cronistas daquele período. Neste trabalho, realizou-se estudo documental e científico sobre as madeiras da Bahia, extraídas durante o Período Colonial, buscando-se investigar a exploração, a venda, a destinação e a identificação das espécies mais usadas nas construções navais e civis, no Brasil e enviadas para Portugal. Buscou-se, também, suprimir dúvidas quanto à procedência do lenho usado no Patrimônio Cultural baiano, visando verificar se as recomendações dos antigos cronistas conferem com a aplicação em diversas edificações. Para entender como ocorreu o uso e a exploração da madeira durante o Período Colonial, na construção naval e civil, analisou-se a vasta documentação existente nos arquivos brasileiros e portugueses, datadas dos séculos XVII e XVII, e os escritos dos diversos cronistas, através do qual se verificou o destino dado às madeiras extraídas nas florestas baianas e a preocupação do Reino português com a conservação das matas, no fim do século XVIII. Por fim, através da identificação botânica das espécies de madeira utilizadas em exemplares do Patrimônio Cultural baiano, pôde-se averiguar as recomendações dos cronistas da época. Isso foi importante para confirmar a existência das espécies descritas nos documentos de envio em navios portugueses, intensificado após o terremoto de 1755, que arrasou a cidade de Lisboa. As madeiras retiradas na Bahia, contribuíram para a reconstrução das edificações desta cidade, como exemplo o Paço Real, e para o Arsenal da Marinha. Como resultado, obteve-se as espécies mais utilizadas nas construções baianas, bem como o conhecimento de suas características, conforme assinalado nos documentos de remessas de madeiras nos navios portugueses. Este conhecimento é importante para os restauradores/conservadores, do Brasil e de Portugal, para que se proceda, da melhor forma possível, as intervenções, sem que se sacrifique, por completo, as estruturas nos casos onde há a possibilidade de recuperação. Tais informações possibilitam, também, importantes conhecimentos para a história da ciência da construção.

Título: Na transversal do tempo natureza e cultura à prova da história
Autora: Ana Carolina Barbosa Pereira

A expressão “Na transversal do tempo” dá o tom das reflexões deste trabalho. Por um lado, se refere ao continuum temporal newtoniano, que se viu estender da filosofia transcendental de Kant à teoria da história contemporânea, passando pelo historicismo alemão. Por outro, nos remete a uma experiência do tempo incompatível com uma certa “teleologia formalista”: o tempo fractal dos Yaminawa, povo indígena (Pano) do noroeste amazônico, estudado pelo antropólogo Oscar Calavia Sáez. Irredutível à “matriz genérica e elementar de interpretação do tempo” do alemão Jörn Rüsen, esta peculiar forma de compreensão do tempo exigiu repensar os conceitos de “tempo histórico” e “consciência histórica”, além do modelo ideal-típico da narrativa (histórica). Em diálogo constante com a antropologia pós-estruturalista de Eduardo Viveiros de Castro, tais reflexões, contudo, contaram com a particular contribuição de minha pesquisa de campo com os Manchineri do Acre, povo da família etnolinguística aruaque. Soma-se a isso uma breve história do Acre que conheço. Este “Último Oeste” cuja conquista coube aos “californianos do Nordeste”, à custa, é claro, de incontáveis violências contra o gentio que era preciso dominar. E como síntese de tudo isso, uma reflexão a respeito dos limites do multiculturalismo e seu primado do reconhecimento mútuo das diferenças.

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