“Reinventando Smetak” reúne músicos brasileiros e estrangeiros em homenagem

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Salvador sediou nesta semana o projeto Reinventando Smetak, que celebra a obra do artista suíço naturalizado brasileiro Walter Smetak (1913-1984), professor da Escola de Música da UFBA (1957-1984), com dois eventos realizados nos dias 4 e 5 de julho. Reconhecido como um artista inovador, criador de novos instrumentos musicais, ele é também considerado um dos precursores da contracultura no país e influenciador da Tropicália.

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Admiradores de sua obra, ex-alunos, parceiros musicais e o filho do homenageado, Uibitu Smetak, participaram da Conversa Aberta promovida no Instituto Goethe, na terça-feira, 4. Na abertura do evento, músicos brasileiros e estrangeiros apresentaram uma releitura da peça “Anestesia”, de Smetak, a partir de partituras que foram traduzidas em sons e gestos, e com a inserção de um novo elemento, trecho de composição do homenageado em parceria com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Também foi exibido O Alquimista do Som (1978), filme do cineasta Walter Lima, seguido de um bate-papo sobre a obra do artista.

A conversa aconteceu na véspera do concerto “Reinventando Smetak”, realizado na noite seguinte, 5 de julho, no Teatro Castro Alves, com apresentação da orquestra de música contemporânea vinda da Alemanha, Ensemble Modern, que executou um repertório de peças inéditas inspiradas na obra de Smetak, criadas por compositores contemporâneos. O público pôde conferir os instrumentos originais inventados pelo artista, a Vina e o Chori Sol e Lua, réplicas de Ronda I, Ronda II e Três Sóis, além de outros instrumentos inspirados na produção smetakiana, a exemplo dos boréis, Piston Cretino e arcos.

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Conversa Aberta sobre Smetak no Instituto Goethe

Durante a Conversa Aberta no Goethe, com mediação da professora Carmen Paternostro, vice-diretora da Escola de Dança da UFBA, o músico e arte-educador Bira Reis falou sobre a grande influência de Smetak em sua produção, o que se deu com a incorporação de processos de improvisação e elementos percussivos. Ele relembrou seu contato com o compositor nos anos 1970, em uma atmosfera de efervescência cultural que propiciou o surgimento do movimento tropicalista em Salvador, destacando as significativas reflexões que a música pode provocar.

Uibitu Smetak, filho do compositor e violonista da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), falou de seu pai como referência de músico inventivo e não tradicional. Mas também lembrou de seu incentivo para que optasse pelo violino, que “considerava um dos instrumentos mais incríveis”. Uibitu teve contato maior com a obra do pai quando tinha 13 anos, já após a morte. Os instrumentos criados, os textos publicados e o compartilhamento de conhecimentos com seus alunos foram apontados como importantes legados. “Ele definia instrumentos musicais como instrutores de mentes, e os via como templos, altares.”

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Paulo Costa Lima: “O desabrochar de Smetak ocorreu aqui”

Um dos palestrantes da Conversa Aberta, Paulo Costa Lima, compositor e professor da Escola de Música da UFBA, vê o Reinventando Smetak como um diálogo com a obra do artista através de movimentos interpretativos contemporâneos. Ele abordou a relação do artista com a Bahia e a construção de identidades a partir de noções de cultura e pertencimento. “O desabrochar de Smetak ocorreu aqui. Foi onde se ele relacionou com artistas como Rogério Duarte, Antônio Risério, além de Gil e Caetano, tendo o coletivismo como uma das características marcantes de sua produção”, disse.

Paulo Lima falou também sobre o movimento de compositores da Bahia, que Smetak integrou, e do investimento da UFBA na criação artística em míusica, em um processo contínuo há mais de seis décadas, desde a fundação da Escola de Música. “É possível formar criadores”, disse ele, revelando que o contato inicial com a obra de Smetak lhe causou certo estranhamento, que logo ganhou outra significação e se transformou em grande admiração, em particular pela generosidade que Smetak tinha ao compartilhar com outros músicos os instrumentos criados por ele. Paulo Costa Lima definiu o artista como um músico inovador e destacou seu criticismo em relação aos eruditos e ao formalismo.

“Smetak foi o pré-tropicalista, quebrou muitas barreiras”, disse o músico e compositor Tuzé de Abreu, que foi seu aluno na Escola de Música da UFBA e tem participação em dois de seus discos. “Impressionava o fato de ele estar constantemente fazendo alguma coisa, criando, nunca parava. Era um vulcão. Aprendi muito com ele”, afirmou.

“A arte sonora era o grande caminho dele. Anestesia é uma coisa inacreditável, escrita para instrumentos cirúrgicos e intérpretes competentes”, afirma Tuzé, que ressalta a formação clássica de Smetak na Europa. “Embora tenha renegado quase toda tradição, ele tinha uma admiração especial por Bach”.

O concerto Reinventando Smetak é um projeto do Programa Artistas-em-Berlim, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), em cooperação com o Instituto Goethe. O projeto, que já passou por Berlim e Frankfurt, realiza neste mês de julho apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo e Campos do Jordão. Em Salvador, o concerto teve o apoio da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) e do Teatro Castro Alves.

Um comentário em ““Reinventando Smetak” reúne músicos brasileiros e estrangeiros em homenagem

  1. Senti falta de nomes que conviveram e participaram de experiências dos microtons de Smetak, a exemplo do grande músico Gereba, chamado por ele de “Poeta do Violon”, e de Tuzé de Abreu.

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