Navegando pelo Alaska: relato de um navegador experiente

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[Uma semana depois que o Edgardigital publicou uma reportagem sobre aventuras de profissionais ligados à UFBA na longa viagem do veleiro Fraternidade rumo ao Alaska (http://www.edgardigital.ufba.br/?p=3237), seu conhecido comandante, Aleixo Belov, escreveu um texto sobre suas próprias explorações Alaska adentro, digamos assim, que disponibilizou para nosso boletim. E ainda enviou um vídeo. Vale muito à pena acompanhar e curtir a narrativa do velho lobo do mar, ex-professor da Politécnica, navegando por entre canais, descrevendo ilhas paradisíacas, enfrentando águias e o medo de ursos, trazendo à cena nomes de lugares estranhos dos quais sequer suspeitamos.]

Já tinha chegado ao Alaska, mas faltava conhecê-lo. Sabia que seria uma tarefa difícil, pois a região é muito grande. O Alaska tem duas áreas distintas. A parte do continente e a das mil ilhas criando canais navegáveis entre elas, sujeitos, às vezes, a fortes correntezas de marés.

Tínhamos chegado em Seward, um porto situado no fim de um canal de quase 30 milhas de comprimento. Este foi nosso primeiro contato com o Alaska. A cidade não era grande e vive da pesca e do turismo. Os visitantes fazem passeios de barco para ver as geleiras, ir pescar os salmões e os imensos halibuts, às vezes de mais de 100kg, para depois tirar fotos com estes peixes e levar os retratos como lembranças para casa.

A cidade fica nas partes planas ou nas suas imediações, cheias de cafés, restaurantes, hotéis e butiques que atendem aos turistas. As casas de moradores ficam nos arredores ou vão subindo um pouco os morros. Estas áreas, para qualquer lado que se olhe, estão cercadas de montanhas por todos os lados. As montanhas têm sempre três partes distintas: a parte de baixo recoberta por uma floresta densa de pinheiros de boa altura, a parte do meio que é de pedra e quase sem vegetação e a parte de cima, de pura pedra recoberta de gelo. O frio às vezes é feroz, pois finalmente estamos na latitude 60 N.

Aqui tem muito mais homens do que mulheres. Um tempo atrás o governo incentivou, dando vantagens para que as mulheres se mudassem para o Alaska, mas elas vinham e depois iam embora. No verão dá para viver e é até interessante, mas no inverno é como morar numa câmera frigorífica, ninguém faz nada, espera apenas o verão voltar. Moças que não conseguem arrumar marido, podem tentar o Alaska.

Estas montanhas não só são bonitas como estão cheias de trilhas para quem tem bom preparo físico. Tem até uma maratona morro acima, bastante concorrida, com atletas vindos de todo país. Nossa tripulação também subiu os morros para malhar ou fotografar lá de cima e encontrou varias pessoas pelo caminho. Uma vez encontrou três garotas lindas, uma delas com um Magnum 44 atrelado na cintura para se proteger dos ursos. Os ursos mataram duas pessoas naquela semana, coisa que só acontece raramente. A montanha é também o caminho de fuga dos tsunamis. A cidade está cheia de placas indicando para onde se dirigir, caso a terra comece a tremer. Em 1967, de repente, a água do mar no porto retraiu, o porto ficou em seco e depois veio a onda devastadora que destruiu toda a cidade. Não morreu muita gente, pois a turma já estava prevenida, correu e subiu o morro.

Consegui comprar quase tudo que precisava para deixar a manutenção em dia. Tudo que eu procurava, se a loja não tinha, mandava buscar. O supermercado também tinha de tudo, bastava ter dinheiro.
Gostei de seu povo e aqui parece ser fácil fazer amigos. Todos que encarei  penduraram um sorriso no rosto. Tudo que pedi me deram. Parece que o forasteiro aqui é bem vindo como na maioria dos lugares distantes, aonde poucas pessoas vão. Em Paris, a quase toda pessoa que se encara, ela vira o rosto de lado, só para não ter que te cumprimentar.

Passamos em Seward quase duas semanas nos aclimatando. Quando Igor Stelli chegou com Ialda e Micaela Hattori desembarcou, preparamo-nos para seguir adiante. Deixamos Seward pelo mesmo canal que viemos e fomos para a Aialik Bay, onde fica o Glaciar Aialik na Peninsula de Kenai. Tínhamos saído cedo e de tarde já estávamos chegando lá. Vários barcos tinham levado turistas para ver o gelo que vem escorregando lentamente pelo vale encravado entre duas montanhas e parindo blocos de gelo que ao encontrar o mar saem boiando. O glaciar fica no fundo de um fiorde, mas existem milhares e milhares deles por toda parte. Fomos avançando e de repente estávamos navegando por um mar totalmente recoberto por um tapete de gelos flutuantes. Focas dormiam deitadas nestes blocos de gelo como se estivessem em casa, deitadas num sofá à frente da lareira. Íamos avançando devagar, empurrando os gelos sem pressa para não amassar o barco ou arrancar a tinta.

No final da tarde, resolvemos navegar novamente, indo para Elfin Cove, que ficava a 430 milhas de mar aberto. Pela previsão teríamos pouco vento e seríamos obrigados a ligar o motor para chegar em três dias. Nosso plano era entrar por Cross Sound  e dai em diante navegar por 160 milhas de canais, em águas interiores, até chegar a Sitka. Estes canais seriam mais interessantes para poder apreciar a natureza e melhor conhecer o Alaska.
Os livros diziam que estes canais, nas partes mais estreitas, apresentavam correntezas fortes que podiam chegar a oito nós. Isto nos obrigaria a parar todas as vezes que a correnteza fosse contra. Mas, por sorte estávamos na maré morta. Entramos por Cross Sound e ao chegar em Elfin Cove pensamos em parar, mas, como estávamos, para nossa surpresa, avançando bem, continuamos. Levamos direto, ainda mais que não chegava a escurecer totalmente durante a noite, permitindo ver as boias e balizas da sinalização náutica. Foi nossa sorte para adiantar a viagem.

Quando entramos nos canais, era noite e estava tudo nublado, o céu carregado de um cinza pesado, o mar cinza escuro quase preto, as montanhas e as ilhas pareciam negras e envoltas em nuvens e neblina. Um quadro caótico.
O cenário era tão feio que passou a ser bonito por ser inusitado e só vinha uma pergunta na cabeça:
Onde eu fui me meter?
O que eu vim fazer aqui?
Nem eu sabia o que vim fazer aqui, nem porque vim. Tinha medo, que de repente, a navegada por aqui não desse certo.

Mas, no outro dia foi clareando, as ilhas foram ficando verdes, com suas florestas majestosas, com muitos barcos a motor trafegando pelos canais. E os rostos, da tripulação, descontraíram.
Quando fomos chegando perto do Sergius Narrow, no canal mais estreito, falamos pelo rádio com varias embarcações que passavam, para saber quando seria a hora da maré parada. Então ancoramos na Deep Bay ao lado da Big Island, para esperar o tempo correr e só atravessar o estreito no bom momento. Isto foi ótimo para conhecer mais um lugar, ainda mais que o sol já tinha voltado a brilhar. A superfície das águas estava um espelho e a floresta, de um verde intenso.

Foi ai que perdemos o nosso primeiro drone. Papini tentou filmar, de perto, uma águia sentada no topo de uma árvore, e o drone se embaraçou na folhagem.  A turma saltou em terra para tentar encontrá-lo, mas as árvores tinham pelo menos 50m de altura e não conseguiram resgatá-lo. E assim, ele, considerado um de nossos mais queridos tripulantes, desembarcou para sempre. No entanto, ele estava grávido. Levava no ventre um cartão de memória com o filme do Fraternidade registrado. Mas, infelizmente, este filme ele não iria parir, e ninguém iria ver.
Eu ainda brinquei, a águia levou a melhor para o drone.

Na hora certa atravessamos o estreito e ancoramos para descansar e dormir uma noite em Schulze Cove. Esta pequena baia estava tão calma que refletia toda a floresta nas águas como se fosse um espelho. Saltamos para visitar a floresta sempre com medo dos ursos. Ali tinha uma casa de madeira onde se podia dormir. Tinha também uma churrasqueira e lenha seca cortada além de um quadro com instruções e regras para o uso da casa. Não demorou para que os mosquitos percebessem a nossa presença, e tivemos que voltar a bordo. Tínhamos invadido o território deles.

Dormimos onde não tinha absolutamente ninguém, na maior paz. Dava vontade de passar um tempo ali.
No dia seguinte atravessamos mais 3 regiões estreitas e mais 45 milhas de canais, contornando boias e balizas que indicavam os lugares de pedras rasas  para chegar em Sitka.
Era ridículo, mas tinha uma águia sentada em cima do farol, na entrada dos quebra-mares. Mais tarde, uma delas sentou no nosso mastro de mesena e Lito a fotografou. Tem águias demais por aqui e não precisava ter perdido o drone. Ainda bem que tínhamos mais um de reserva.

Sitka foi fundada pelos russos quando eles colonizaram o Alaska, e ainda tem uma igreja ortodoxa por aqui. Os russos se misturaram com os americanos depois que o Alaska foi vendido, praticamente dado, porque na época valia pouco e custava caro mantê-lo. Era apenas uma região de caça de peles de animais marinhos. Hoje é uma riqueza imensa, petróleo, minérios e principalmente a pesca para exportação. Tem florestas a perder de vista.
Sitka têm vários portos, velhos e novos, três marinas imensas, noventa por cento ocupadas por barcos de pesca equipados com muita tecnologia.

O sonho era chegar aqui e cheguei. Mas, a labuta ainda não terminou. Ainda terei que levar o Fraternidade de volta para casa. Primeiro vou até Ensenada, ali no México, onde deixarei o barco parado, talvez por dois meses e vou matar a saudade da Bahia enquanto os ciclones forem gastando a sua energia nesta região. Por incrível que pareça, a volta deverá ser bem mais longa e demorada, devido à distribuição dos ventos e correntes pelo nosso planeta e as estações de ciclones cruzando o nosso caminho. São muitas as opções de volta, mas, só vou decidir por onde voltar depois.
Sitka, 09 de julho de 2017.

Aleixo Belov

 

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