Prêmios Capes e SBHC atestam qualidade da pesquisa na UFBA

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Valéria Borges (à esquerda) e sua orientanda premiada, Nívea Farias Luz

O que há em comum entre a descoberta de moléculas que podem ajudar no tratamento da leishmaniose, uma análise da eficácia dos mecanismos de compras no setor público, revelações sobre a história da física na União Soviética e um estudo dos genes reprodutivos de vacas e búfalos? Simples: são todos trabalhos originais, desenvolvidos por jovens pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, que acabam de ser laureados pelos prêmios Capes e SBHC 2016, duas das mais importantes premiações acadêmicas do país. A diversidade dos temas mostra que a pesquisa desenvolvida pela UFBA atinge alto patamar de qualidade, nas mais diversas áreas do conhecimento.

No Prêmio Capes de Tese – premiação anualmente conferida às melhores teses e dissertações em cada área pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – , a UFBA teve dois trabalhos vencedores e uma menção honrosa. Recém-doutores pela UFBA, Nívea Farias Luz e Paulo Ricardo da Costa Reis venceram nas categorias “Medicina II” e “Administração/Ciências Contábeis”, respectivamente. A menção honrosa foi dada ao professor recém-contratado do Departamento de Zootecnia da UFBA, Gregório Miguel Ferreira de Camargo, na categoria “Zootecnia/Recursos Pesqueiros”, por sua tese produzida na Unesp. E o Prêmio SBHC, conferido aos melhores trabalhos da área pela Sociedade Brasileira de História da Ciência, elegeu como melhor tese o trabalho de Climério Paulo da Silva Neto, outro recém-doutor pela UFBA.

Nívea Farias Luz ganhou o prêmio Capes porque descobriu que um conjunto de moléculas relacionadas à morte celular, que existem no organismo de qualquer ser humano, são ativadas quando os pacientes desenvolvem a leishmaniose, doença causada pelo protozoário Leishmania, cujo principal sintoma é o aparecimento de graves feridas na pele (forma tegumentar) ou comprometimento das vísceras (forma visceral). A descoberta de Nívea indica, portanto, que o próprio corpo humano possui um mecanismo de defesa que, se ativado ou acelerado durante a infecção, pode ajudar a reduzir significativamente o tempo de resposta e os efeitos colaterais dos remédios usados para tratar a leishmaniose – que exigem muito do fígado dos pacientes.

Por ano, no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 2 milhões de novos casos de leishmaniose são registrados, 3 mil deles no Brasil. A descoberta de Nívea ainda deverá ser submetida a uma série de outros experimentos até poder ser usada efetivamente no tratamento da doença. Para a tese, os testes foram feitos em camundongos: “Inoculamos a Leishmania em animais que possuíam ou não moléculas da via de morte celular estudada. Então, verificamos que essas moléculas são ativadas quando o animal manifesta a doença, provocando um tipo de necrose”, explica a pesquisadora. O próximo passo será verificar, em testes que estão sendo feitos em amostras colhidas em seres humanos, se a infecção pela Leishmania também ativa essa mesma molécula.

Dito assim, parece simples. Mas o trabalho de Nívea – intitulado “Ativação da Heme Oxigenase-1 e Via da Necroptose como Mecanismos Imunopatogênicos na Infecção de Macrófagos por Leishmania Infantum” – mostra que, por trás de uma tese premiada, estão não apenas o longo tempo investido na formação de pesquisadora (da iniciação científica ao doutorado, foram nove anos em laboratórios, além de participações em diversos congressos nacionais e internacionais), como o apoio de profissionais experientes e de instituições e programas de incentivo públicos.

Orientada pela professora do Programa de Pós-Graduação em Patologia Humana (PGPAT, da UFBA em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz) Valéria Borges, coordenadora de projetos de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa na Bahia (Fapesb), Nívea só pôde realizar a descoberta graças ao período de um ano de doutorado-sanduíche, com bolsa do Ciência Sem Fronteiras, na University of Massachussets Medical School (EUA). Lá, ela trabalhou no laboratório do professor Francis Chan, um dos poucos no mundo que reúne as condições necessárias para a realização do estudo.

No Brasil, foram fundamentais condições de trabalho proporcionadas pelos grupos de acompanhamento de pacientes com leishmaniose da Universidade Federal de Sergipe, coordenado pelo professor Roque Almeida, além da colaboração do professor da UFRJ Marcelo Bozza. “É um grande orgulho, um privilégio ver o trabalho dela laureado. Nívea não está aqui só pelo diploma. Ela tem o ‘fogo sagrado da ciência'”, resume Valéria.

Compras públicas na mira

Quando Paulo Ricardo da Costa Reis percebeu que havia “uma lacuna muito grande” na produção de trabalhos sobre compras e contratações feitas pelo poder público, começou a trabalhar na tese que lhe daria o prêmio Capes. Numa iniciativa inédita, ele analisou a eficácia de três modalidades de compras públicas: a modalidade pregão eletrônico, implementada em 2002; o pregão com a participação de micro e pequenas empresas, iniciado em 2007; e as compras com dispensa de licitação, criadas em 2011 para atender às demandas dos organizadores da Copa do Mundo (2014) e dos Jogos Olímpicos (2016), e estendidas aos setores federais de saúde e educação em 2012.

Os resultados da tese – intitulada “Desempenho nos Contratos de Compras Públicas: Evidências Empíricas das Mudanças Institucionais No Brasil” – são interessantes. A análise de uma significativa amostra de compras realizadas pela UFBA na modalidade pregão apontou economia de 22% em relação ao valor estimado nos editais. E, ao contrário do que se poderia imaginar, essa economia não implicou em atraso ou má qualidade dos produtos. Por outro lado, Paulo verificou problemas, como a inexistência de mecanismos à mão do gestor para punir maus fornecedores contumazes, além da dispersão dos registros de compra pelo ente público. “Os dados, embora existam e sejam públicos, em geral não estão informatizados. Isso dificulta a tomada de decisão dos gestores”, observa.

A análise da participação de micro e pequenas empresas em 694 contratos firmados por quatro instituições públicas (UFBA, Fundação Oswaldo Cruz, Advocacia Geral da União e Corregedoria Geral da União) mostrou que, ao contrário do que se esperava, a entrada dessas empresas nas concorrências não provocou queda dos preços estimados. Já a análise do Regime Diferenciado de Contratações, que desde 2011 permite ao poder público contratar serviços e fornecedores com regras simplificadas em relação à lei de licitações (8.666), mostrou que os preços dos contratos tendem a superar as estimativas do poder público; mas, em compensação, há uma tendência a se ter menos alterações do valor da obra licitada – os chamados “aditidivos contratuais”, comuns nas obras públicas. “Há uma maior correspondência entre o preço contratado e o que é efetivamente pago”, observa Paulo.

Orientado pelo professor Sandro Cabral, do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFBA, Paulo destaca o papel do orientador, que, a partir de uma longa trajetória de pesquisa na área de terceirização na gestão pública e muitas outras orientações de teses e dissertações sobre o setor, ajudou Sandro a identificar o tema da tese premiada. Foi também fundamental a colaboração de quatro bolsistas de iniciação científica (Antônio Nascimento, Danilo Sobral, Natali Souza e Ramon Souza) no trabalho de coleta e sistematização dos dados utilizados na pesquisa. Em 2014, um ano antes de concluir o doutorado, Paulo foi sido aprovado em um concurso para professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde hoje leciona.

Corrida do laser

A pesquisa que valeu o Prêmio SBHC a Climério Paulo da Silva Neto foi sobre a história da física na União Soviética entre 1939 e 1961, período no qual ocorreu uma grande simbiose entre a física e a produção de armamentos e tecnologias militares, sobretudo nos EUA e na União Soviética. Climério mostrou que, mesmo havendo muito pouca interação entre cientistas de lados opostos da chamada “cortina de ferro”, a invenção do laser aconteceu quase que ao mesmo tempo nos dois países, tendo sido influenciada pela aplicação de pesquisas com finalidades militares ao campo da física.

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História da física na União Soviética entre 1939 e 1961 deu a Climério o prêmio SBHC

Na tese, Climério mostra que, até aproximadamente 1955, a troca de informações entre físicos soviéticos e norte-americanos era quase que exclusivamente através de periódicos científicos. No final da década de 1950 – após a morte do ditador soviético Josef Stalin – físicos soviéticos eram presenças certas em conferências internacionais e tinham estabelecido laços de amizade com vários físicos de países capitalistas. “Minha pesquisa contribui para a compreensão da complexa relação entre ciência, tecnologia e sociedade durante a guerra fria além das fronteiras dos Estados Unidos”, sintetiza.

Aluno do Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências, da UFBA e da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e membro do Laboratório de Ciência como Cultura (LACIC) (coordenado pelo pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFBA Olival Freire Jr., orientador da tese), Climério conta que a ideia da pesquisa surgiu da interação com dois grandes colaboradores de Olival: o historiador russo Alexei Kojevnikov, professor da Universidade de British Columbia, no Canadá, onde Climério fez o doutorado sanduíche; e a historiadora norte-americana Joan Bromberg, falecida recentemente.

“O ambiente que encontrei na UFBA – principalmente no LACIC – foi importantíssimo. Olival é atualmente o um dos grandes historiadores da física do século 20 e, como reflexo disso, atrai estudantes e pesquisadores de várias partes do Brasil e do mundo para a UFBA. Se em outras áreas estudantes saem do Brasil em busca de uma formação melhor na França, em história da física no século 20 ocorre o contrário”, resume Climério, que atualmente é professor de Filosofia e História das Ciências na Universidade Federal do Oeste da Bahia.

Reprodução de vacas e búfalos

Recém-contratado como professor do Departamento de Zootecnia da UFBA, Gregório Camargo chegou trazendo na bagagem uma tese, defendida pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), Campus de Jaboticabal, que mereceu menção honrosa no Prêmio Capes, na área de Zootecnia/Recursos Pesqueiros. Ele realizou um amplo estudo sobre os genes ligados à reprodução de bovinos e búfalos que revelou resultados interessantes. Por exemplo, encontrou mutações em genes de bovinos associadas à prenhez precoce (16 meses) ao invés dos habituais 24 meses, além de diferenças grandes na sequência de genes entre bubalinos e bovinos, possivelmente associadas a diferenças reprodutivas entre as espécies.

Cinco dos sete capítulos da tese de Gregório – intitulada “Mutações Putativo-Causais em Genes Candidatos Associadas à Fertilidade de Bovinos de Corte e Bubalinos” – foram publicados em revistas científicas internacionais antes mesmo da defesa de doutoramento. A pesquisa foi feita sob orientação de Humberto Tonhati e coorientação de Fernando Sebástian Baldi Rey e Luciana Correia De Almeida Regitano, com período sanduíche de um ano na Universidade de Queensland na Austrália.

 

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