“Qualquer ação nossa diz respeito ao planeta inteiro” alerta Suely Rolnik, em palestra na UFBA

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A professora e psicanalista Suely Rolnik refletiu sobre micropolítica do desejo e processos de subjetivação relacionados à macropolítica.

Como um apelo aos “inconscientes que protestam”*, a socióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Suely Rolnik, levou a audiência de sua palestra “Esferas da Insurreição: sugestões para o combate à cafetinagem da vida”, a refletir sobre micropolítica do desejo e processos de subjetivação relacionados à macropolítica, em meio ao capitalismo colonial vigente. Durante a atividade que integrou os Pontos Críticos de Extensão, na tarde de 15/09, a docente e também psicanalista chamou atenção para a “assustadora ruína da subjetividade” ante aos acontecimentos dos dias atuais e para “as dimensões que precisamos nos insurgir, a fim de não nos submetermos à cafetinagem da vida”.

Citando os filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, a teórica defendeu que é preciso “liberar a vida onde ela é prisioneira”, explicando que a cafetinagem é a “violência que é imposta à vida, semelhante a um assalto, sequestro, estupro e toda sorte de abusos”.  “O capital, por exemplo, cafetina a vida”, disse ela racionalizando que “tudo está colonizado desde que o capitalismo conseguiu completar o projeto do colonialismo”, pois segundo a visão dela, no atual momento em que vivemos acontece a “colonização da vida, que é muito mais complexo que os processos anteriores de opressão e exploração”.

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Apesar do período de férias na Universidade, o auditório do PAF I ficou lotado e interagiu com a palestrante.

Ela mostrou que tal situação pode ser vista ao olharmos para a atual configuração social, política e econômica e constatar  que o “mundo que está em convulsão, cujos efeitos podem ser sentidos em nossos corpos” que são tomados por sentimentos como medo, pavor, perplexidade, frustração, decepção e impotência.  Neste ponto, Rolnik tirou risos da plateia ao perguntar se, diferentemente, alguém estaria “achando tudo bem ou sentindo-se confortável, diante dos acontecimentos atuais” e que, “certamente, tal pessoa precisaria de acompanhamento psiquiátrico” e ela mesma poderia iniciar o tratamento, após a conclusão da da palestra.  Como ninguém manifestou seu bem-estar, a professora alertou que “precisamos nos insurgir” para que “a vida possa prosseguir”.

Para ilustrar o “mix de sensações” experimentado pela atual sociedade, a palestrante citou o pavor diante da “paisagem sinistra imposta pela ascensão de forças reativas” e as recentes notícias de cerceamento de direitos e liberdades, além da perplexidade gerada pela “tomada de poder da nova versão do capitalismo contemporâneo, financeirizado que leva o projeto colonial às últimas consequências, numa escala globalitária”, conforme previu o geógrafo baiano, Milton Santos, ainda na década de 1970.

“Estamos acostumados a ligar insurreição à macropolítica –  que é a luta por justiça social e distribuição igualitária de bens materiais – mas há uma outra dimensão que precisa ser cuidada, enfatizou, lembrando que a recente deposição de governos progressistas na América Latina (Paraguai em 2012 e Brasil em 2016) indica que se não for dada a devida importância às transformações micropolíticas, na esfera das subjetividades, “tudo voltará para o mesmo lugar”.

A docente que é formada em sociologia e filosofia pela Université Paris VIII e em Psicologia pela Université Paris VII, questionou: “onde a esquerda está errando que seus projetos não dão certo?” Seguramente, “porque  também são fruto do mesmo sistema de democracia burguesa, moderna e ocidental, apesar da diferença de ideais, e do ponto de vista da subjetividade do desejo é tudo igual”, categorizou.  É exatamente contra essa “cafetinagem da vida que precisamos nos insurgir”, reiterou mais uma vez.

Micropolítica na macropolítica

“A micropolítica é a política do desejo e é por isso que precisamos fazer uma insurreição nesse plano, em cada pessoa, individualmente”, afirmou, chamando atenção para a responsabilidade que cada um tem de agir, simplesmente pelo fato de que “somos seres vivos e qualquer ação nossa diz respeito ao planeta inteiro”.  Infelizmente, na cultura moderna ocidental, perdemos o acesso à nossa condição de vivo, lamentou assegurando que “a tomada de consciência individual é totalmente possível”.

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Atividade integrou os “Pontos Críticos da Extensão” que foram criados com o objetivo de debater questões da vida contemporânea.

Neste sentido, Suely que veio a Salvador para participar do Encontro de Estudantes Indígenas, elogiou o “levante fabuloso” da comunidade negra e indígena na Bahia e a “sorte” que os integrantes daquela plateia tinham ao estarem na UFBA, lugar onde “palpitam discussões” dessa natureza.  E a Pró-Reitoria de Extensão, Fabiana Dultra, destacou a relevância do tema apresentado por Rolnik, reforçando que os “Pontos Críticos da Extensão” foram pensados exatamente para discutir questões da vida contemporânea e a teórica convidada “vem apresentando ideias que reverberam por várias gerações com transversalidade em várias áreas”.

“É preciso um pouco de esforço para lembrarmos que estamos vivos nesse mundo”, afirmou a professora tecendo um raciocínio sobre o binômio indissociável “forma-força”, à semelhança da Fita de Moebius, que é composta por duas faces que se fundem numa só.

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Rolnik citou a Fita de Moebius, composta por duas faces que se fundem numa só, assim como os seres humanos.

“As experiências das forças de fora do sujeito e a forma das forças de dentro desse mesmo sujeito, entram em choque, tensionam e desequilibram a subjetividade”. Perde-se o sentido!”, enfatizou. “E quando se perde o sentido, é a hora de decidir entre as opções de ações que vão definir as micropolíticas: reproduzir o inconsciente colonial capitalista ou germinar para recriar um mundo, numa forma nunca vista?”, provocou.

Se não houver um “trabalho de reapropiação,  de criação individual e coletiva, tudo voltará para o mesmo lugar”, advertiu a professora, alertando para a necessidade de uma “transmutação micropolítica, mudança de cena e de personagem”, pois “não será possível mudar o atual estado do mundo, apenas apropriando-se da mudança macropolítica”, justificou.  Para avançar será preciso agregar a insurreição macropolítica à micropolítica também, finalizou.

Esferas da insurreição

Ao longo de sua explanação, Suely Rolnik apresentou os diferentes âmbitos das insurreições que acontecem nas esferas macro e micropolítica.  Enquanto no plano macro, acontecem os protestos organizados, focados na igualdade de direitos e relações de poder nas lutas de classes, raças, gênero, sexualidade e etc, na esfera micro, o processo se dá nos inconscientes contra s variedades de abuso contra a força vital de todos os seres vivos.  Tais violências podem causar graves sequelas para o destino do planeta e “combatê-las, atravessa toda sociedade contra os que se insurgem contra a vida”, afirmou.

Se o critério de valores macropolíticos é estabelecido por uma bússola moral, operando em oposição ao opressor para destituí-lo, o sistema de valores na micropolítica é ético e pulsional, orientado pelas escolhas que a vida pede em sua essência germinativa, disse ele, afirmando que “a vida sempre quer perserverar”.

Na insurreição macropolítica, os agentes humanos denunciam os abusos para se empoderar institucionalmente, já na insurgência micropolítica, acontece a anunciação de algo novo que está por vir, esclareceu a professora.  Daí, é “tecer redes de conexão e reverberação coletivas, resistentes à cafetinagem para recriação da pulsão da vida”, concluiu.

*Expressão retirada de citação dos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, apresentada por Suley Rolnik na palestra.

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