Marcelo Coelho: quando o silêncio dos intelectuais é impossível

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O jornalista e escritor Marcelo Coelho retomou em sua palestra do Ciclo Mutações, no salão nobre da Reitoria da UFBA, em 26 de outubro, o  mesmo tema do ciclo organizado por Adauto Novaes, em 2005. Para abordar a questão de quando o intelectual não pode se permitir o silêncio e quando tem o pleno direito de escolhê-lo, ele partiu  do exemplo do espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936).

Embora simpatizante do ditador Francisco Franco, embora “nada solidário aos oprimidos que estavam de armas na mão” em meio a violência extrema da ditadura franquista e da guerra civil espanhola, Unamuno recusou-se a permanecer em silêncio quando numa grande manifestação, em outubro de 1936,  o sinistro general José MIllán-Astray, “el glorioso mutilado”, investia contra a razão e a inteligência aos gritos de “Viva la muerte”.  Sua recusa ao silêncio valeu-lhe a prisão domiciliar, uma pena até leve no meio da violência daqueles anos, graças à proteção da mulher de Franco.

Marcelo Coelho, graduado e mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), observou que Unamuno viu-se impelido a falar porque se sentia imbuído do papel de representante da razão, representante do pensamento, alguém que mantinha a capacidade de não enlouquecer junto com a multidão enlouquecida. E partiu daí para indagar em que situação o silêncio do intelectual equivale a consentimento, a aquiescência, a algo que agride a razão. “A condição é a presença física do intelectual no momento em que algo foi dito e se lhe faculta a possibilidade de responder”, observou.

Em contrapartida, falar sobre tudo, manifestar-se sobre qualquer coisa, pode equivaler a irresponsabilidade e ingenuidade. Em anos mais recentes, em que as lutas sociais se particularizaram tanto, a tentação dessa presença em todas as cenas é um risco para o trabalho intelectual, segundo Marcelo Coelho.

“O intelectual tem uma outra função que não a de ligador de pontos da sociedade. Cabe-lhe o papel de ser uma consciência de uma época. Cabe-lhe saber distinguir entre a hipocrisia e a honestidade de uma atitude”. Isso só surge da verdade que podemos encarar em nós mesmos, disse. ‘É nas palavras mais privadas e secretas que podemos procurar o mais universalmente verdadeiro para todos os outros”, concluiu.

No vídeo Marcelo Coelho oferece um resumo de sua abordagem:

 

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