Pesquisa nacional sobre trajetória de estudantes cotistas foi apresentada em programação do Novembro Negro

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Trajetórias de Cotistas (1024x519)

“A maior parte dos estudos sobre cotas até então vêm sendo feitos do ponto de vista de desempenho e evasão, mas estes resultados deveriam ser fundamentais para a universidade repensar sua metodologia de ensino, e não para questionar a capacidade dos estudantes. Se a gente estivesse num hospital e descobrisse que metade morre, que faríamos? ”. O questionamento foi levantado pelo professor Rodrigo Ednilson de Jesus, da UFMG, em palestra realizada no Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO-UFBA) nesta manhã de terça, como parte das atividades do Novembro Negro realizado pela PROAE – Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil.

O professor apresentou a pesquisa “Trajetórias de estudantes negros e indígenas egressos das cotas: novos sujeitos e olhares”. A Pesquisa Trajetórias de Cotistas, como é mais conhecida, é financiada pelo Ministério da Educação e realizada por uma rede de universidades: UFMG, UFRB, UFRN, UFSCar, UNIFAP, UEG e UDESC. Atual Pró-Reitor Adjunto de Assuntos Estudantis da UFMG, Rodrigo passou cerca de um ano como Coordenador Geral de Educação para as Relações Étnico-Raciais na SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação). Conta que lá surgiu a ideia de elaborar políticas para um melhor acompanhamento das ações afirmativas, mas a pesquisa só veio surgir de fato ao voltar para a UFMG e compor a Coordenação do Programa Ações Afirmativas, em diálogo com a professora Nilma Lino Gomes.

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O palestrante, professor Rodrigo Ednilson de Jesus

“Há muitos trabalhos sobre cotas no Brasil, que vêm desde a década de 2000, mas que se centram em desempenho e evasão. Esses trabalhos foram necessários para contrapor as teses racistas e demonstrar a capacidade dos estudantes cotistas. Mas de certa forma nos aprisionou, impossibilitando-nos de elaborar novas teses. Parece ter se criado quase um condicionamento das políticas de ações afirmativas a um desempenho dos estudantes cotistas igual ou mais elevado do que os demais. Mas o que faríamos se o desempenho dos estudantes cotistas fosse inferior? ”, questionou.

Voltada para estudantes cotistas negros e indígenas, a pesquisa vem sendo feita online, tentando abranger todas as universidades públicas (federais e estaduais) e estruturada em dois eixos: um de informações institucionais e outro de informações individuais, familiares e comunitárias. A transformação da trajetória de cada cotista costuma impactar em sua família e comunidade, e este é um dado rico para mensurar o alcance da política pública.

Dentre os dados destacados, a participação em coletivos aparece de forma constante e ganha força na segunda metade da década de 2000, como um formato de organização que suplanta os tradicionais para este segmento. Ou seja, há mais estudantes cotistas participando de coletivos do que de entidades representativas do movimento estudantil. Os mesmos passaram a ser então pontes de acesso a estes estudantes, por serem em si espaços de permanência dos estudantes, que promovem integração através do fortalecimento do vínculo entre semelhantes.

Cassia

A pró-reitora Cássia Maciel ressaltou necessidade de estudos

UFBA – mais de uma década de experiência

A UFBA tem feito seu dever no que se refere às políticas de ação afirmativa. O sistema de reserva de vagas já existe há 13 anos, e além do acesso, a universidade desenvolve um programa de assistência estudantil que inclui moradia, alimentação, transporte, creche, dentre outras modalidades de auxílio. Cássia Maciel, Pró-Reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil, ressaltou a necessidade de mais estudos para aperfeiçoar as políticas da universidade: “Aqui na UFBA elaboramos o edital Sankofa, que contempla pesquisas nas áreas de assistência estudantil, ações afirmativas, direitos humanos e justiça. Precisamos saber em que medida a assistência estudantil vem impactando na permanência, assim com outras variáveis: relações sociais, mobilidade urbana, acesso a saúde, violência, etc”.

Cássia ainda apontou o impacto do racismo como uma forte causa de evasão escolar, a partir de casos concretos acompanhados pela PROAE. “Precisamos construir algo que dialogue com as políticas de saúde mental e possa minimizar o impacto do racismo sobre esses estudantes”. A Pró-Reitora destacou ainda a necessidade de se pensar em uma pós-permanência, uma orientação aos estudantes cotistas em processo de conclusão de curso. “Precisamos criar políticas, conversar mais com estes estudantes sobre pós-graduação, auxiliá-los nesta transição”, comentou.

A pesquisa continua aberta, para quaisquer estudantes cotistas que sejam negros, indígenas ou quilombolas, e podem ser acessados através deste link. Mais informações podem ser encontradas na página do Programa Ações Afirmativas na UFMG ou na página da Pesquisa Trajetórias de Cotistas.

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