O papel da transmissão sexual na propagação da Zika

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­ Flavia Mayumi Ruziska *

(Imagem da abertura: Romeu e Julieta, Frank Dicksee, 1853-1928)

 

mosquito

Acoplada à transmissão vetorial do mosquito Aedes aegypti, a transmissão sexual pode aumentar o número de infectados por Zika

Um modelo matemático que considera, além da transmissão vetorial, a contribuição da transmissão sexual na manutenção e propagação da Zika foi apresentado pela professora Lourdes Esteva Nova, da Faculdade de Ciências, da  Universidade Nacional Autônoma do México, na quinta-feira, 22 de fevereiro, no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA(ISC).

Em particular, os resultados advindos do uso do modelo matemático associados aos dados sobre o surto de Zika no Rio de Janeiro, em 2015, podem explicar como uma taxa relativamente baixa de transmissão sexual possibilita aumento considerável do número de casos. Tais resultados também podem explicar a prevalência dos casos de Zika reportados em mulheres em idade reprodutiva.

A motivação para o desenvolvimento desse modelo está pautada nas evidências de que o vírus da Zika, transmitido por mosquitos Aedes (especialmente, Aedes aegypti)  é também transmitido sexualmente (D’Ortenzio 2016, Foy 2011,Vorou 2016).

O vírus já foi isolado no sêmem (Atkinson 2016), assim como foi encontrado no trato genital de mulheres após seu desaparecimento no sangue e na urina (Prisant 2016). Além disso, no Brasil, um estudo verificou que a incidência de Zika em mulheres em idade reprodutiva é maior do que aquela que pode ser explicada apenas por sua conduta social, ou seja, sua ida mais frequente a serviços médicos e de controle de saúde, comparativamente a outros grupos (Cohelo 2016).

Uma grandeza muito importante em epidemiologia é o Número Reprodutivo Básico, R_0, que se define como o número médio de infecções secundárias geradas por um caso primário – quando se insere um indivíduo infectado na população até ali saudável em relação a determinada doença. Espera-se que quando R_0 > 1 (isto é, quando o número reprodutivo básico for maior que 1), ocorra um surto epidêmico, enquanto quando R_0 < 1, tal surto não ocorra. E foi justamente a partir da análise das expressões e dos valores calculados para R_0 que as conclusões sobre a influência da transmissão sexual na Zika foram obtidas.

O modelo proposto por Esteva constitui-se de um conjunto de equações diferenciais ordinárias no qual são abrangidas uma população de humanos (dividida entre homens e mulheres) e uma de vetores (mosquitos). Por meio da análise da estabilidade da solução livre da doença (ou seja, da solução do sistema em que não há infectados) encontrou-se a expressão para o número reprodutivo básico composta pela soma de quatro elementos referentes, respectivamente, às transmissões vetor-humano-vetor, vetor-homem-mulher-vetor, vetor-mulher-homem-vetor, homem-mulher-homem. Dessa forma, através da análise de cada um dos elementos que compõem R_0, pode-se avaliar o quão influente cada um dos processos é na transmissão da Zika.

As principais conclusões advindas da análise do modelo matemático considerando os dados sobre o surto epidêmico no Rio de Janeiro, em 2015, foram:

  1. os valores obtidos para a parcela de R_0 relacionada exclusivamente à transmissão sexual estão nos intervalos de outras doenças sexualmente transmissíveis;
  2. a transmissão sexual pode aumentar significativamente o número de casos em mulheres em idade reprodutiva;
  3. a contribuição da transmissão sexual diretamente não é tão grande, contudo, acoplada à transmissão vetorial ela pode aumentar significativamente o valor de R_0 e, consequentemente, o número de infectados;
  4. o acoplamento das duas formas de transmissão pode ser um fator importante para explicar a prevalência de Zika, bem como sua rápida dispersão na América.

Após a palestra, participaram de um frutífero debate pesquisadores de diversas áreas – em especial, de saúde e ciências exatas – que se dedicam à questão da propagação do vírus Zika sob diferentes aspectos e com distintas metodologias. A discussão com abordagem multidisciplinar muitas vezes permite que as descobertas em um ramo de pesquisa estimule o desenvolvimento de outros, de modo a produzir importantes avanços com respeito ao objeto de estudo em tela.

Apontamos aqui algumas das muitas questões levantadas:

(a) sobre o registro do número de casos reportados, uma pergunta ainda em aberto é qual a proporção de casos assintomáticos; a dificuldade em responder essa questão está, entre outras razões, relacionada ao fato de não existir um teste sorológico sensível  e específico capaz de diferenciar infecções produzidas pelo vírus da Zika e da dengue, visto serem ambos flavivírus que produzem reações cruzadas para os anticorpos das classes IgG e IgM:

(b) do ponto de vista da vigilância em saúde, foi ressaltado como é importante existir um suporte da modelagem matemática publicada em revista indexada para que os serviços de saúde possam orientar as mulheres em idade fértil para a adoção de medidas de proteção relacionadas à transmissão sexual, com base em evidências científicas;

c) a questão da microcefalia e outras malformações também foi discutida, sendo importante notar que, muito embora do ponto de vista da modelagem populacional a transmissão vertical (de mãe para filho) não seja um fator de maior impacto, suas consequências para o indivíduo e para o Sistema de Saúde são muito importantes;

(d) outro aspecto levantado é a existência de estudos que indicam que a Zika gera proteção contra a Dengue e vice-versa, e se essa proteção poderia ser relevante no âmbito populacional.

Juntos, seminário e debate trouxeram para cada um dos diferentes grupos maior aprofundamento nas questões não usualmente abordadas de forma multidisciplinar, promovendo uma melhor integração na área. Ressalta-se por fim que, lacunas e questões ainda permanecem. Contudo, a contribuição do resultado obtido pelo modelo matemático proposto é ter revelado que o efeito potencializado da  transmissão sexual do vírus Zika, em razão de seu acoplamento com a transmissão vetorial, influencia a dinâmica de transmissão desse agente – o vírus –, aumentando assim o valor de R_0 e, portanto, o número de indivíduos infectados.

*Doutora em física pela USP e pós-doc em Física na UFBA

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Referências

Palestra de Lourdes Esteva e debate, The role of sexual transmission on Zika outbreaks; 22 de fevereiro de 2018,quinta-feira, 9h; Instituto de Saúde Coletiva – ISC/UFBA, Promoção:IF/UFBA; ISC/UFBA; CIDACS/FIOCRUZ-BA.

Atkinson B, Thorburn F, Petridou C, et al. Presence and Persistence of Zika Virus RNA in Semen, United Kingdom, 2016. Emerging Infectious Diseases. 2017;23(4):611-615. doi:10.3201/eid2304.161692.

D’Ortenzio E, Matheron S, Yazdanpanah Y. Evidence of sexual transmission on Zika virus. New Engand Journal of Medicine 2016;374:2195-2198.

Foy BD, et al. Probable non-vector-borne transmission of Zika virus, Colorado, USA. Emerging Infecion Diseases 2011;17:880-882.

Vorou, R. Zika virus, vectors, reservoirs, amplifying hosts, and their potential to spread worldwide: what we know and what we should investigate urgently. International Journal of Infectious Diseases 2016;48:85-90.

Prisant N, et al.. Zika Virus in the female tract. The Lancet Infectious Disease 2016 DOI:

http://dx.doi.org/10.1016/S1473-3099(16)30193-1

Coelho FC, et al. Higher incidence of Zika in adult women than adult men in Rio de Janeiro suggest a significant contribution of sexual transmission from men to women. International Journal of Infectious Diseases 2016;51:128-132.

 

 

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