A atualidade de Abdias Nascimento e de suas obras

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No segundo dia do Fórum Social Mundial, a mesa “Abdias Nascimento e o genocídio do negro brasileiro”, primeiro evento do Instituto de Pesquisas e Estudos Afrobrasileiros (Ipeafro), debateu a importância da obra do escritor, poeta, dramaturgo, artista plástico, deputado federal e senador paulista e um dos militantes mais importantes para o movimento negro no século XX.

Salvador, Bahia, Brasil, 2018.03.14, Forum Social, Mundial, Mesa Abdias.

Público atento: “A pedra que Abdias lançou ontem mata pássaros hoje”

Abdias, com suas obras, propôs o debate sobre a questão racial na época da ditadura militar, desafiando o mito da democracia racial difundido há várias décadas. A mesa aconteceu no Teatro Martim Gonçalves, no Canela, sob a coordenação da professora do Instituto de Química da UFBA, Bárbara Carine.

“Tem um dito muito comum no Candomblé: ‘Exu matou um pássaro ontem, com a pedra que arremessou hoje’. Posso afirmar que, com a obra ‘Genocídio do negro brasileiro’, Abdias lançou uma pedra ontem que mata pássaros hoje”, disse Samuel Vida, professor da Faculdade de Direito. Ele comentou que “o legado de Abdias tem importância para todo o Brasil, não só para os negros. Ele é um intelectual bem lembrado e não há como não reconhecer a potência do seu legado em todos os domínios e manifestações”, completou.

Ele relembrou o papel de Abdias na militância negra no final do século XX, “cumprindo o papel de transição entre o movimento de resistência negra – que criava estratégias para a sensibilização das elites e do poder estatal – e a militância que queria toda as formas de inclusão negra.” O escritor paulista “provocou um deslocamento para uma perspectiva de utilizar a denúncia como estratégia mais importante, que não cede, mas que também apresenta soluções para os problemas apresentados.”

Outro ponto destacado por Samuel Vida foi a presença do “constitucionalismo negro” nas ideias de Abdias. “Não era possível trabalhar de forma individual na militância então era necessário alterar o sistema desde a base institucional. Ele propôs uma série de mudança nos anos 40, como a criminalização do racismo, políticas de ações afirmativas, garantia do acesso e modificação das estruturas gerenciadas pelo Estado, propostas que não aconteceram na totalidade até o momento.”

Marluce Macêdo, professora da Universidade Estadual da Bahia, fez uma apresentação sistemática dos pontos mais importantes da obra de Abdias. “Ele aponta fatores que causam o genocídio de uma população, mas também aponta caminhos, mostra que a defesa era um caminho verdadeiro, diferentemente do que o discurso hegemônico pregava. Ou seja, havia discursos alternativos que não foram colocados no diálogo e que serviam para lutar o status quo”, comenta.

A professora também comentou que o conjunto de trabalhos de Abdias é gigantesco e atual, uma produção multidisciplinar e abrangente. “O livro ‘Genocídio do povo negro’ é fundamental para entender o pensamento e a contribuição de Abdias para a causa das populações negras, dos pontos de vista intelectual e ativista”.

Em sua visão, o autor foi subversivo ao escancarar o problema da democracia racial já que autores de sua época, como Pierre Verger e Gilberto Freyre, “tornaram o processo de memória e reflexão sobre a escravidão mais brandos”.

Também contribui para o debate o escritor Sandro Sussuarana, que contou as ua vivência como poeta que mora e trabalha na periferia de Salvador. Olinda Santos, representante do Quilombo dos Macacos, contou sobre os problemas da sua comunidade, que hoje sofre com a impossibilidade de usar as fontes e nascentes da região para subsistência por causa da retomada das terras ocupadas pela Marinha Brasileira. O quilombo também sofre com a violência, principalmente contra as mulheres.

Olinda relatou que precisava de um documento para apresentar às autoridades para usar a água e a plateia, que lotou o Teatro Martim Gonçalves, liderada pela presidente do IPEAFRO, Elisa Larkin Nascimento, elaboraram o documento que será levado para o quilombo por Olinda.

A mesa também homenageou a vertente artística de Abdias, fundador do Teatro Experimental do Negro, que refletia sobre o papel dos negros na arte, com a apresentação de Nelson Maca, poeta e escritor e Jorge Bafafé, do afoxé Badauê, interpretando o poema de autoria de Abdias, “Serra da Barriga”. O debate também foi em comemoração ao aniversário do autor, que completaria 104 anos.

“Há exatos 104 anos, no interior de Franca, São Paulo, nascia Abdias Nascimento. Estamos aqui para celebrar a vida e obra de um ícone para o povo negro brasileiro, que sempre deu espaço ao debate, com convicção que vamos dar continuidade à luta ao racismo e buscar preservação e expansão do espaço negro sem fronteiras”, explica Elsa Larkin.

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