Pilares econômicos para um Brasil inclusivo

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Numa sociedade onde imperam as condições de elevada pobreza, diante da alta concentração de renda das elites, não dá para pensar em uma retomada efetiva de crescimento da economia – com foco na distribuição para as classes menos abastadas – apenas pela lógica de mercado, sem a intervenção do Estado. Esta foi uma das principais conclusões das discussões realizadas durante a mesa “ Outro Modo de Interpretar a Economia”, realizada na tarde da quarta-feira, 14 de março, no auditório da Escola de Enfermagem, no campus do Canela, dentro da programação da UFBA no Fórum Social Mundial.

“Certamente, se estivéssemos no Fórum Econômico Mundial para América Latina – que está sendo realizado em São Paulo -, teríamos uma postura de economistas que representam uma leitura meramente capitalista de que a economia deve ser traçada apenas por leis de mercado, sem muita intervenção do Estado”, concluiu da plateia a professora Elisabeth Matos, da Escola de Administração da UFBA. “Daí a importância de termos uma visão do cenário econômico sobre a ótica dos movimentos sociais, num fórum como este que acontece em Salvador”, completou.

Na primeira fila, Elizabeth Matos acompanhou, atenta, as palestras de dois professores aposentados da universidade: José Sérgio Gabrielli, de Economia, e Reginaldo Santos, do Departamento de Finanças e Políticas Públicas da Escola de Administração. Ex-presidente da Petrobras e ex-secretário de Planejamento do governo baiano, Gabrielli, que neste mês voltou a prestar depoimento em investigações da Operação Lava Jato envolvendo a Petrobras, criticou a condução da operação em relação aos impactos mal planejados em setores estratégicos para o país, como construção civil e agronegócios.

 

Três pilares

Para o economista, “os planos para um Brasil do futuro” devem estar focados em três pilares essenciais: reforma tributária, redefinição do papel da indústria no novo cenário de tecnologias e surgimento de novos serviços; e, reposicionamento do agronegócio, com mais exportações de produtos agregados. Ainda assim, fez uma ressalva: “É preciso, antes de tudo, estar atento ao fato de que a economia está submetida hoje a uma sociedade com novas demandas, em que não basta, apenas, aumentar a renda para depois pensar em distribuir, pois os problemas de inclusão das chamadas ‘minorias’ não passam apenas pelo aumento da renda, mas, sobretudo, pelo aumento da democracia”.

Gabrielli frisou que, “diante do retrocesso econômico enfrentado pelo país, com perda de direitos sociais e do poder de compra do trabalhador”, não bastará apenas a ação dos movimentos sociais ou as tentativas próprias do mercado em prol de uma recuperação dos indicadores. “O controle do Estado é o principal elemento para se dar um novo salto, com foco em uma melhor distribuição da renda atrelada a dados reais de crescimento, diferentes das condições precárias de trabalho, subemprego e desemprego que, atualmente, assolam o país”, disse.

Ponto de partida

O professor e escritor Reginaldo Santos, que recentemente lançou uma segunda edição do livro “Outro modo de interpretar o Brasil: ensaios de Administração Pública”, mostrou preocupação com a linha defendida pelos economistas já apontados como orientadores dos pré-candidatos neoliberais que se lançaram à Presidência da República. “Vamos continuar na mesma desse jeito”, alertou, completando: “É preciso construir uma proposta de sociedade reestruturada em novos ideais, tendo a questão da distribuição como ponto de partida, já que, historicamente, vem sendo comprovado que a concentração de renda só produz miséria”.

Santos enfatizou que o modelo de capitalismo está defasado para as sociedades atuais. “Temos que desconstruir essa ideia capitalista que nos amordaça há anos e pensar em algo a partir das revoluções tecnológicas do século XXI”, conclamou o professor, exemplificando: “Em vez de se tratar o avanço tecnológico como meio da mera dispensa do trabalhador, gerando desemprego e influenciando na ponta do consumo, por que não se reduzir a jornada de trabalho, com retornos de resultados para ambos os lados, num ciclo que estimula a economia?”, questionou.

Os professores Horácio Nelson Hastenreiter Filho, diretor da Escola de Administração da UFBA, e Clóvis Caribé, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), também estavam entre os participantes no auditório de Enfermagem. A mensagem sobre novos destinos possíveis para a economia brasileira, com foco em políticas modernas mais inclusivas, foi bem acolhida pelo público, que se juntou aos palestrantes na defesa de novas tendências, ainda pouco considerada nas estatísticas, como a economia solidária, tema também presente na programação da UFBA no Fórum Social Mundial.

 

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