Repensar o passado (mirando o futuro) do Atlântico Sul

Download PDF

Certa iconografia “viciada” do Brasil colonial, em que os negros aparecem coisificados, precisa ser revista. Artistas experimentais africanos precisam passar a fazer parte da história oficial das artes. Objetos de culto sequestrados de sociedades africanas e indígenas precisam ser devolvidos aos seus países e comunidades de origem. Escritores que dedicaram suas vidas e obras a relatar as mazelas da condição de escravo nas colônias europeias em África e na América precisam ser recuperados.

Mon_liliaschwarcz_TaylladePaula-30

Lilia Moritz Schwarcz fez a palestra de abertura do evento (Foto: Tayla de Paula/Goethe-Institut)

Essas foram algumas das discussões que preencheram três dias inteiros de um grupo de intelectuais e artistas trazidos da Europa, África e América do Sul pelo Goethe-Institut a Salvador, para o evento “Ecos do Atlântico Sul”, cujo objetivo principal foi debater “o futuro das relações transatlânticas do Sul, sobretudo em relação ao papel da Europa no passado, presente e futuro”.

“Neste momento em particular, onde abunda o “hard power” no mundo — os populismos, as agressividades, os nacionalismos, que estão criando novos obstáculos para o que eu chamo de ‘boa globalização’ — o esforço do Goethe de criar um momento de diálogo novo e pouco hierárquico é muito bem-vindo”, afirmou o professor Livio Sansone, coordenador do Pós-Afro (Programa de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos do Centro de Estudos Afro-Orientais) e co-realizador do evento.

debret

Pintura do francês Jean-Baptiste Debret, representando um jantar em uma casa colonial

Na palestra de abertura, “Imagens da Escravidão Afro-atlântica: O Outro do Outro”, na segunda-feira, a professora da Universidade de São Paulo (USP) Lilia Moritz Schwarcz problematizou a iconografia através da qual se costuma formar o imaginário do que foi o período colonial no Brasil, em especial das relações entre brancos escravizadores e negros escravizados.

Autora de livros sobre o pensamento racial no Brasil, como “Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no fim do século XIX” (1987) e “O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e pensamento racial no Brasil: 1870-1930” (1993), a historiadora e antropóloga paulista apresentou um conjunto de pinturas e fotografias do século 19, destacando a representação “coisificada” dos negros, que, em geral, aparecem como dóceis elementos de uma paisagem geralmente idílica e bucólica.

Schwarcz chamou atenção para o fato de essas representações em geral terem autoria europeia – como nos casos das conhecidas pinturas dos viajantes Jean-Baptiste Debret, francês, e Johann Moritz Rugendas, alemão, que estiveram no Brasil em missões no século 19 – e um olhar, quando brasileiro, elitizado, no caso das fotografias, produzidas em estúdios, a pedido das famílias ricas. “É preciso rever essa iconografia, que chega até hoje aos livros didáticos”, contribuindo para a reprodução de “uma democracia racial cercada de racistas por todos os lados”, observou.

Slavery_in_Brazil,_by_Jean-Baptiste_Debret_(1768-1848)

Outra pintura de Debret, em que o capataz açoita um homem negro. Ao fundo, uma paisagem bucólica

Na quarta-feira, no Salão Nobre da Reitoria, o cientista político caboverdiano Crisanto Barros enfatizou a necessidade de se repensar o espaço Atlântico, sobretudo em sua dimensão econômica e cultural, de modo a buscar alternativas para o capitalismo – que, na Europa e nos Estados Unidos, vem pauperizando as classes médias, que por sua vez se tornam agentes de uma mentalidade conservadora e, muitas vezes, xenófoba. Barros afirma que a Europa é atualmente uma sociedade de “refugiados” em dois sentidos: “as classes médias se refugiam elas mesmas intramuros, e transformam os outros [imigrantes e grupos étnicos] em refugiados”.

Na mesma mesa, o historiador e professor da UFBA Cláudio Furtado elencou o que chamou de “atores não estatais” com potencial para reconstruir as relações entre os países do Atlântico Sul. Do ponto de vista da história, é preciso, segundo Furtado, recuperar o impacto que fenômenos sul-americanos, como as independências das colônias europeias, no século 19, tiveram em sociedades africanas; os fluxos migratórios entre países como Angola e Brasil, nos anos 1920, 60 e 70; e os nexos artístico-culturais, através da análise da proximidade entre a música, a literatura e a ensaística brasileiras e africanas. Na atualidade, ele destacou o potencial agregador de programas de cooperação e mobilidade de pesquisadores acadêmicos, a criação de associações de intelectuais – sobretudo nas ciências sociais – , os eventos de promoção da cooperação econômica e até mesmo o “transnacionalismo religioso”, em especial a forte presença de igrejas neopentecostais brasileiras em África.

4-Wed_panel_TaylladePaula

Os intelectuais cabo-verdianos Claudio Furtado (esq.), da UFBA, e Crisanto Barros, da Universidade de Cabo Verde (Foto: Tayla de Paula/Goethe-Institut)

Fechando a mesa, o antropólogo e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Omar Thomaz propôs, no âmbito de uma história das ideias, que se busque traçar uma “tradição, talvez oculta aos próprios sujeitos, de pensamento que se produz a partir de fatos concretos” relacionados à experiência da escravização e das lutas por liberdade e cidadania em países como Haiti, Argélia, Angola, Moçambique, Brasil e Uruguai.

Thomaz ilustrou essa tese a partir de alguns exemplos, como o do escritor surinamês Anton de Kom (1898-1945), que se destacou como intelectual negro no contexto do brutal colonialismo holandês no Suriname, aproximou-se do comunismo e morreu num campo de concentração nazista; o da escritora uruguaia Virginia Brindis de Salas (1908-1958), autora dos versos “soy negra, porque tengo la piel negra, esclava, no!”; e o da poetisa moçambicana Noêmia de Souza (1926-2002), famosa pela militância contra o colonialismo português.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website