Comida de boteco com tempero microbiótico

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2018-05-16 - Pedro Meirelles - Tampinha - Pint of Science 1-edit

Pedro Meirelles, do Instituto de Biologia, em palestra do Pint of Science 2018, no Tampinha Bar

Sarapatel acompanhado de pepino-do-mar japonês, bem gordinho. Frango à passarinha acompanhado de rodolitos, em porções fartas. E junto com a cerveja, doses generosas de aquíferos. A palestra do biólogo Pedro Meirelles, no segundo dia do Pint of Science Salvador (terça, 15/05), incluiu sabores inusitados no tradicional cardápio do Tampinha Bar.

 Não propriamente sabores reais, gustativos. Sabores “de ciência”: o pepino-do-mar japonês (pequeno animal equinoderme muito apreciado no Japão e na China), os rodolitos (algas que formam estruturas semelhantes a recifes de corais, nos fundos de oceanos), e os aquíferos (reservas naturais subterrâneas de água, habitadas por um sem fim de espécies totalmente desconhecidas de microorganismos) foram alguns dos objetos de estudo que Meirelles apresentou ao público, na palestra “Enxergando a natureza com as lentes da microbiologia”. 
 
Em linguagem de boteco, ele explicou a importância do estudo minucioso de microorganismos imperceptíveis, mas que fazem parte da vida humana de inúmeras maneiras, sem que possamos sequer nos dar conta. “Na verdade, somos mais microorganismos do que gente”, brincou Meirelles, chamando atenção para o fato de que o corpo humano é habitado por milhares deles, alguns essenciais para que realizemos funções vitais básicas – como, por exemplo, a digestão.
 
No estudo sobre o pepino-do-mar japonês, Meirelles participou de uma equipe internacional que descobriu que existe um microorganismo que determina se o pepino será “gordinho” – logo, mais apetitoso ao paladar asiático, e mais rentável a quem o venda – ou “magrinho”, a partir de análises genômicas de amostras de “cocô de pepino do mar”, conforme explicou, para gargalhada geral da plateia já levemente ébria. Consequentemente, descobriu-se que bastava incluir esses bichinhos na ração dos pepinos, para que todos crescessem gordinhos — para alegria geral do outro lado do planeta.
 
Pepino do mar japonês

Pepino-do-mar japonês é item apreciado na culinária asiática

Sobre os praticamente desconhecidos rodolitos, Meirelles enfatizou sua importância para o equilíbrio dos ciclos naturais de fixação do carbono, já que desempenham um papel ambiental importante para o clima global porque, para produzirem o carbonato de cálcio de que são feitos, eles sequestram carbono da atmosfera. O pesquisador explicou que, em Abrolhos, arquipélago que fica no litoral sul da Bahia, está uma das maiores reservas mundiais de rodolitos, com cerca de 45 quilômetros quadrados – o que desperta a cobiça de empresas que fazem dragagem desse material para comercializá-lo como um corretor de solos, item muito apreciado pela indústria agrícola. “Os rodolitos não são um recurso facilmente renovável: uma vez que são removidos em grandes quantidades, não voltam a se reproduzir rapidamente”, alertou.

 
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Mergulhador observa rodolitos no fundo do mar, em Abrolhos (foto: Zaira Matheus/Ciência Hoje)

Por fim, Meirelles explicou sua mais recente pesquisa, a primeira como professor da UFBA, que tem como objeto o sequenciamento genômico dos milhões de microorganismos desconhecidos presentes na água dos aquíferos baianos – que, no conjunto, podem ser considerados “uma amostra dos diferentes tipos de aquíferos brasileiros”. 

A importância de procurar saber quem são os habitantes desses reservatórios naturais de água é tão importante, que Meirelles, com apenas 33 anos e menos de um ano como professor da UFBA, conseguiu um financiamento de R$ 100 mil para chefiar uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, que já começaram a se dedicar exclusivamente a pesquisar o tema. Ele contou que o montante já foi repassado, e que, por ser dinheiro privado – viabilizado pela Fundação Serrapilheira – e não conter “rubricas” (que determinam destinações específicas para quotas previamente estabelecidas), o recurso pode ser gerido com maior flexibilidade pelo pesquisador.
 
aquifero guarani

Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo, se estende por quatro países e tem sua maior parte localizada no Brasil

O objetivo central da pesquisa, ele explicou, é descobrir o máximo possível de funções que cada um desses “bichinhos” desempenha, para, no futuro, propor novas formas de utilizá-los, visando melhorar a qualidade da água que consumimos. “Na verdade, é impossível prever o que vamos descobrir”, explicou Meirelles, respondendo à pergunta de um dos presentes. “Mas meu sonho seria descobrir um tipo de microorganismo que um dia pudesse ser distribuído num sachê, que a pessoa despejasse na água, e a água ficasse limpa na hora, pronta para beber.” Mas isso já é assunto para uma próxima cerveja.

 
 

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