Emiliano José lança biografia de Waldir Pires

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No próximo dia 14 de maio, às 17 horas, no Palácio Rio Branco, Emiliano José, escritor, jornalista, e professor aposentado da UFBA,  lança Waldir Pires: Biografia (vol. 1). O livro refaz a trajetória do importante líder político, de 1926, quando o menino Francisco Waldir Pires de Sousa nasceu, na localidade de Cajueiro – mais tarde Acajutiba (BA), filho de José Pires de Sousa e de Lucíola Figueiredo Pires de Sousa, até o ano de 1978, quando Waldir retoma os seus direitos políticos após o fim do Ato Institucional nº.5 (AI-5). O volume 2 tratará dos anos de 1978 até o presente. A narrativa apresenta as influências na formação acadêmica e intelectual de Waldir e o início de sua vida política. Fazem parte do relato momentos históricos como a sua resistência ao golpe militar e o período no exílio.

Emiliano José abre o livro com o episódio em que Waldir Pires, em 1963, então consultor-geral da República, enfrenta o golpe militar no país e, junto com Darcy Ribeiro, foi o último representante do governo eleito de João Goulart a sair do Palácio do Planalto, na tentativa de defender a democracia da intervenção dos militares. Ciente de que não havia mais condições de permanecer em segurança no país, os dois seguem para o Uruguai em um monomotor. “O golpe poderia implicar em prisão ou morte como aconteceu com tantos outros como Rubens Paiva, seu amigo pessoal”.

Waldir Pires 4Emiliano ressalta que Waldir Pires desempenhou um importante papel no governo João Goulart, defendendo a soberania nacional e sendo responsável pela nacionalização das minas de ferro, pelo decreto de monopólio da importação de petróleo e por pareceres acerca da constitucionalidade de leis que tratavam de temas como a remessa de lucros e dividendos de empresas multinacionais no pais e a Reforma Agrária.

A junta militar que assumiu o governo em 1964 editou o primeiro Ato Institucional, conhecido como AI-1, que determinou a eleição indireta do próximo presidente da República e permitiu punições aos adversários com cassações, demissões, expulsões. Waldir Pires teve seus direitos políticos suspensos e passou um período de seu exílio no Uruguai e depois seguiu para a França, onde se tornou professor da Faculdade de Direito da Universidade de Dijon, em 1966, e do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade de Paris, em 1968.

O primeiro volume da biografia destaca a formação intelectual e acadêmica de Waldir, que viveu a infância e adolescência na cidade de Amargosa, onde estudou as primeiras séries. Fez o ginásio no Clemente Caldas, em Nazaré das Farinhas, e o Clássico, no Colégio Central, em Salvador.

Já vivendo na capital baiana, um dos principais nomes que o influenciaram foi João Mangabeira, de quem teve a oportunidade de acompanhar a extraordinária fala como paraninfo de turma de formatura na Faculdade de Direito, que mais tarde seria incorporada à UFBA. “Ficou impressionado com a fala que para ele foi norteadora de uma visão democrática e socialista, instrumento de transformação do mundo, capaz de enfrentar os desafios sociais e a concentração de renda, em oposição a uma concepção de direito individualista e liberal”, observa Emiliano.

Waldir e Ulysses 3

Waldir Pires e Ulisses Guimarães em campanha para a presidência da república

A sua formação na mesma Faculdade de Direito, em 1949, foi marcada pelo discurso que ele mesmo fez em homenagem ao centenário de nascimento de Ruy Barbosa e por ocasião da inauguração do fórum de justiça homônimo na capital baiana. Waldir, conta o autor, recuperando-se de uma febre tifoide, fez um discurso proeminente na presença de toda classe política da Bahia, atualizando o pensamento de Ruy Barbosa.

Emiliano José destaca ainda o livro “Reflexões sobre a Revolução de Nossa Época”, do intelectual trabalhista britânico Harold Laski. “É uma belíssima reflexão sobre o mundo no auge da guerra, em 1946, com uma visão marxista e democrática”, avalia ele, que observa a relação sempre próxima do biografado com os comunistas, embora não tenha sido ele membro do partido e nem tenha aderido a ideia da ditadura do proletariado. “Ele concordava com as ideias de melhorar a vida do povo, mas defendia a liberdade e a democracia acima de tudo. Essa também era a visão de Laski e Waldir bebeu ali”. “Evidentemente ele era um homem de esquerda que lutava contra as injustiças e pela igualdade”.

No âmbito acadêmico, foi coordenador dos Cursos Jurídicos da Universidade de Brasília (UnB), onde foi também professor de Direito Constitucional. Em 1950, aos 24 anos, Waldir Pires ocupou o cargo de secretário de Estado da Bahia durante o governo de Luís Régis Pacheco Pereira. No mesmo ano, casou-se com Yolanda Avena Pires, falecida em 2005. Foi eleito deputado estadual em 1954, e deputado federal em 1958, quando atuou como vice-líder do governo Juscelino Kubitschek.

Waldir Pires com Roberto Santos e Luiz Leal

Ex-governadores juntos: Waldir Pires com Roberto Santos

No ano de 1963, foi escolhido pelo governo João Goulart para o cargo de consultor-geral da República e, nessa passagem, viveu um dos momentos mais intensos de sua trajetória, quando fez resistência ao golpe militar que assaltou o país no ano seguinte. Em 1970, após seis anos no exílio, Waldir decidiu retornar ao Brasil. “Waldir sentiu: a vida estava arrumada, os filhos nas ótimas escolas francesas, Yolanda feliz, ele dando aulas em Dijon, e no Brasil a turma continuava jogando futebol debaixo de ditadura feroz, AI-5 comendo solto, gente desaparecendo, tortura, morte. Deixasse correr, e a França se tornaria a pátria de toda sua família. Nem pensar. Resolve voltar, não aceitou quaisquer ponderações em contrário. Desse no que desse. Não perderia seus filhos para outro país. Em 1970, desembarca no Rio de Janeiro, e a Polícia Federal já o esperava no porto”, explica Emiliano.

Ao retornar ao país, impedido de exercer atividade política, foi perseguido e teve muitas dificuldades de conseguir emprego. Nesse período, dedicou-se ao trabalho à frente de uma pedreira. Até que em 1978, com o fim do AI-5, recupera os seus direitos políticos. A sequência da história, que será contada no segundo volume, já em fase de revisão e com previsão de ser lançado ainda neste ano, terá o foco na sua extensa carreira política, que inclui a sua eleição ao governo do Estado da Bahia, em 1986, e para novos mandatos como deputado federal nas eleições de 1990 e 1998. No governo de Luís Inácio Lula da Silva, foi nomeado ministro de Estado do Controle e da Transparência da Controladoria-Geral da União, em 2003, e Ministro da Defesa, em 2006. Mais recentemente, foi eleito vereador de Salvador, cargo que ocupou até o ano de 2016.

Waldir Pires 2

Com Luiz Leal, Filemon Matos, Clodoaldo Campos e, ao fundo, Rômulo Almeida.

“É um personagem político de convicções profundas e que deu sempre exemplo em defesa da democracia e das liberdades. É um exemplo de luta!”, afirma o autor, para quem Waldir Pires deve servir de exemplo para as novas gerações, especialmente em um momento em que, na sua concepção, o país vive um novo golpe – com o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, que retirou uma série de direitos sociais conquistados pela população brasileira.

Sobre o autor

Emiliano José iniciou a sua trajetória pública como militante estudantil, ocupou a vice-presidência da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e foi um dos quadros da Ação Popular. Assim como Waldir Pires, fez resistência à ditadura militar e foi preso, período em que escreveu um de seus livros, “Memórias do Mar Sem Fim”. É também autor de biografias de líderes revolucionários como Carlos Marighela e Carlos Lamarca.

A obra sobre Waldir Pires é resultado do trabalho realizado em meio a inúmeros livros, jornais, revistas, documentos históricos e longas entrevistas gravadas com depoimentos do biografado. Emiliano conta que também visitou os lugares que ele nasceu, viveu Emiliano-José-01-Foto-Marjorie-dos-Anjos-1durante a infância e estudou na juventude.

Além da atividade jornalística e mais de 20 anos dedicados à carreira docente na Faculdade de Comunicação da UFBA, Emiliano José tem também uma trajetória política que se desenvolveu ao longo das últimas décadas, assumindo mandatos como vereador, deputado estadual e federal. Em 2017, foi nomeado superintendente de Apoio e Defesa aos Direitos Humanos, da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social do governo da Bahia.

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