As teias como caminho de cognição

Download PDF

 

OS VÍDEOS ACIMA FORAM PRODUZIDOS, E CEDIDOS AO EDGARDIGITAL, PELO COORDENADOR DO NÚCLEO DE PESQUISA EM ETOLOGIA E INOVAÇÃO DO IB-UFBA, HILTON JAPYASSÚ, UM DOS INTEGRANTES DO INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM ESTUDOS INTERDISCIPLINARES E TRANSDISCIPLINARES EM ECOLOGIA E EVOLUÇÃO (INCT IN-TREE). O PRIMEIRO TRAZ A PESCA NA ARANHA ACHAEARANEA TEPIDARIORUM, ESPÉCIE DA FAMÍLIA THERIDIIDAE, QUE HABITUALMENTE TEM ESTE COMPORTAMENTO DE CAÇA. O SEGUNDO MOSTRA A ARANHA ZOSIS GENICULATA, DA FAMÍLIA ULOBORIDAE, “QUE NUNCA FAZ ESTE TIPO DE CAÇA, MAS O FAZ REGULARMENTE QUANDO A ALTERAMOS EXPERIMENTALMENTE NA SUA TEIA”, EXPLICA O BIÓLOGO.

Extensa, bem apurada e belamente escrita, a reportagem assinada pelo jornalista Bernardo Esteves na mais recente edição da revista Piauí, “Teço, logo existo: as aranhas pensam com suas teias, propõe biólogo brasileiro”, debruça-se sobre a pesquisa do biólogo Hilton Japyassú, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Iniciada em seus anos no Instituto Butantan e no doutorado da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação do respeitado César Ades, desde 2009  Japyassú trouxe sua investigação para o Instituto de Biologia da UFBA.

            Na continuidade dos estudos nesse tema, ele foi co-orientador, junto com Carmen Viera, da Universidad de la República, de Montevideu, Uruguai, do doutorado de Maria de Fátima da Rocha Dias, que trabalhou com evolução do comportamento social em aranhas, e hoje orienta a pesquisa de doutoramento de Leonardo Resende, que está pesquisando uma espécie de aranha que vive em colônias, a Anelosimus eximius. Como explicou à Piauí, trata-se de um caso raro entre esses animais: das 47 mil espécies conhecidas, apenas cerca de 30 são consideradas sociais. “A aranha é um animal solitário, canibal e predador. Elas são muito agressivas e comem umas às outras.”, disse.

             Professor associado, Japyassu é atualmente coordenador do Núcleo de Pesquisa em Etologia e Inovação e um dos integrantes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução  (INCT IN-TREE), coordenado por Charbel El-Hani.

            A reportagem de Esteves, partindo do trabalho de Japyassu, oferece um rico e minucioso panorama da pesquisa brasileira e internacional de cognição em aranhas, depois do que volta aos desdobramentos desse campo na UFBA.  Como posto na legenda da foto que abre o trabalho, aranhas usam as teias para tomar decisões, exportando o processamento de informação para fora do corpo. “É como se os fios fossem uma extensão do sistema nervoso”, diz Hilton Japyassú.

            Bernardo Esteves observa que, para Japyassú, a definição de cognição deveria refletir a pluralidade com que se manifesta nos seres vivos. Literalmente, está na Piauí: “A cognição não é um fenômeno único, ela surgiu possivelmente múltiplas vezes ao longo da evolução, com qualidades distintas em grupos de animais distintos”, afirmou. “Não tenho dúvidas de que nós, os humanos, temos uma cognição do tipo cartesiana”, disse o biólogo, dando o braço a torcer ao tio frade com quem ele discutia filosofia da mente. “Temos o pensamento abstrato e representações internas do mundo, mas isso é só um aspecto da cognição.” Talvez não seja sequer o aspecto predominante no comportamento humano, continuou. “As pessoas não pensam logicamente o tempo todo, quando andam na rua ou pegam um ônibus. Elas estão interagindo com o mundo e usando outro tipo de cognição.”

            Sobre o trabalho do doutorando Leonardo Resende, ele oferece detalhes sobre as aranhas pesquisadas – “são aranhas avermelhadas de 2,5 centímetros que ocorrem em ambientes de floresta” –, e uma colorida descrição de seu ambiente:

            “Vivem em grandes teias coletivas que podem passar de 10 metros de extensão e abrigar milhares de indivíduos. O núcleo da teia – um grande lençol tridimensional de seda repleto de folhas e galhos caídos das árvores – é conectado aos galhos da vegetação acima por uma profusão de fios. “Pense numa barca”, propôs Japyassú. “Esses fios funcionam como a vela. As presas vêm voando ou pulam sobre a vegetação, batem na vela e caem até chegar ao lençol.” Resistente, a trama de seda permite capturar esperanças, gafanhotos e outras presas de grande porte que escapariam com facilidade das teias mais frágeis construí-das por aranhas solitárias.”

            Há muito mais. E vale a pena ler. Para quem não é assinante da revista, mas o é da Folha ou do UOL, dá para ver o comecinho da reportagem e uma foto deslumbrante de uma teia no portal UOL. Para quem não é, o jeito é ir mesmo às velhas bancas de revistas. 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website