Guilherme Wisnik encerra a temporada baiana do Ciclo Mutações nesta sexta-feira

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Guilherme Wisnik

O Ciclo Mutações “Entre dois mundos: 30 anos de experiências do pensamento” encerra sua temporada soteropolitana com a palestra do arquiteto Guilherme Wisnik. Nesta sexta, 25, às 18h30, no auditório da Biblioteca Universitária de Saúde Professor Álvaro Rubim de Pinho (BUS), localizada no campus do Canela, Wisnik conclui uma série de 14 palestras de grandes nomes do pensamento contemporâneo, ao longo dos meses de outubro e novembro.

“O futuro não é mais o que era” é o título da palestra de G. Wisnik, que interroga: “No futuro, de volta à aldeia”? Segue ele: “A cidade, a escrita e a moeda transformaram radicalmente o modo de vida em sociedade, inaugurando uma nova fase da humanidade que se estende, de certo modo, até hoje. Assim, superado o labor como atividade social predominante, à medida que a humanidade deixa de ser refém da subsistência, surge o trabalho como exercício de construção de um mundo objetivo e exterior ao homem: as cidades. O homo faber, portanto, não gasta sua energia produzindo alimentos para o consumo imediato, e sim construindo a durabilidade da existência humana, na forma de muralhas, edifícios e objetos de uso continuado.

Com efeito, se o primado do mundo urbano está associado à figura histórica do homo faber, hoje um problema categorial se coloca. Pois com o rápido desenvolvimento da sociedade de consumo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a produção social de valor – desligada do trabalho e da transformação física da matéria, acelerada por taxas de obsolescência cada vez mais altas, e tornada abstrata pela especulação financeira – tem sofrido transformações que permitem pensar em um eclipse simultâneo, historicamente falando, tanto do homo faber quanto da cidade. Assim, superado o mundo da durabilidade construído a duras penas pelo homo faber em nome de um consumo cada vez mais voraz de tudo, incluindo os recursos não renováveis do planeta, estamos hoje de volta a uma paradoxal vigência histórica do labor como prática social predominante.

Estaria aí a base das novas práticas coletivistas e autogestionárias que propõem substituir o conceito de “público” pelo de “comum”, e que não por acaso se estruturam em ações de pequena escala, sendo muitas delas próprias ao universo da agricultura, como hortas comunitárias? O que é certo, em todo caso, é que não é possível pensar o futuro das cidades no terceiro milênio sem levar em conta a reemergência do labor como uma categoria conceitual que inverte o sentido das coisas, uma mutação que exige a redefinição de todos os conceitos. ”

GUILHERME WISNIK

Guilherme Wisnik é professor de arquitetura e urbanismo na USP, colunista do jornal Folha de S. Paulo e autor de livros como Lucio Costa, Caetano Veloso e Estado crítico: à deriva nas cidades. Editou o volume 54 da revista espanhola 2G (2010) sobre a obra de Vilanova Artigas e publicou ensaios em livros como Brazil’s Modern Architecture, Álvaro Siza Modern Redux e O desejo da forma. É membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Latin American Studies Association. Crítico de arte e arquitetura, foi curador do projeto de Arte Pública Margem (Itaú Cultural, 2008-10) e das exposições Cildo Meireles: Rio Oir (Itaú Cultural, 2011) e Paulo Mendes da Rocha: a Natureza como Projeto (Museu Vale, 2012). Foi o curador geral da 10ª. Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013).

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