Salvador: um grande laboratório de estudos sobre zika, dengue e outras arboviroses

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Não é motivo de orgulho para os baianos que Salvador tenha sido uma das cidades mais afetadas pelo surto de zika que atingiu o Brasil entre 2015 e 2016. Mas um grupo de cerca de 20 pesquisadores e agentes públicos de saúde, liderado pelo professor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA Guilherme de Sousa Ribeiro, tem conseguido aproveitar essa circunstância indesejável para transformar a capital baiana em uma espécie de “centro de excelência internacional” em estudos sobre a zika e outras viroses transmissíveis por mosquitos (as chamadas arboviroses), como dengue e chikungunya e febre amarela.

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Equipe do “Salvador Arboviral Research Group” atuando no bairro do Pau da Lima, em Salvador (Foto: Uiler Costa)

Em números, contando somente desde 2016, isso se traduz em mais de duas dezenas de publicações em periódicos científicos internacionais (como “Plos Neglected Tropical Diseases”, “Lancet Global Health”, “Journal of Medical Virology”, “Emerging Infectious Diseases” e “Annals of Internal Medicine”, algumas das principais revistas médicas do mundo), sempre relatando resultados de pesquisa relacionados aos vírus zika, dengue, chikungunya e febre amarela observados na cidade de Salvador – definitivamente, o grande “laboratório” dessa equipe.

Entre os principais achados do grupo – vários deles com repercussão não apenas na comunidade científica, mas também na mídia – poderíamos citar 1) a indicação de que, para cada caso de zika notificado, 12 podem não estar sendo registrados pelos órgãos públicos de saúde; 2) a constatação de que um defeito na construção de bocas de lobo faz com que eles acumulem água, favorecendo a proliferação de mosquitos transmissores de doenças; 3) a hipótese de que a infecção pelo vírus zika possa levar a produção de anticorpos capazes de proteger contra a dengue; 4) o risco de transmissão da febre amarela em grandes centros urbanos; e 5) a constatação de que dois dos principais testes de diagnóstico de zika à venda no mercado não funcionam com a precisão esperada [“Validação de testes diagnósticos para dengue, zika e chikungunya”, tese de Mariana Kikuti, orientada por Guilherme Ribeiro]. Ademais, um dos artigos traça um histórico do surto da zika desde antes mesmo da identificação do vírus: “Nenhum município no Brasil conseguiu registrar a entrada do vírus zika desde o início como Salvador”, enfatiza Ribeiro.

A composição do time liderado pelo professor Ribeiro denota o esforço do pesquisador em montar uma equipe a um só tempo multidisciplinar, interinstitucional e internacional, que, ademais, faz questão de atuar em parceria com órgãos públicos de saúde e saneamento, influenciando diretamente na concepção de políticas públicas de saúde. Além de estudantes de doutorado e pós-doutorado, mestrado e iniciação científica de diversas unidades da UFBA – como o ISC, o Instituto de Ciências da Saúde (ICS), a Faculdade de Medicina da Bahia, a Escola de Enfermagem e o Instituto de Biologia – , o grupo congrega pesquisadores do Instituto Gonçalo Moniz/Fiocruz-Bahia (onde Guilherme também atua como pesquisador e professor) e agentes públicos da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador. Entre os principais pesquisadores parceiros estão os professores da UFBA Gúbio Soares (ICS) e Mitermayer Reis (Faculdade de Medicina e também chefe do Laboratório de Patologia e Biologia Molecular na Fiocruz) e os colaboradores internacionais permanentes Uriel Kitron (Universidade de Emory, Atlanta, EUA), Scott Weaver (University of Texas Medical Brench, Galvestone, EUA) e Albert Ko (Universidade Yale, New Haven, EUA). O grupo tem contado com financiamento de agências públicas de fomento nacionais, como o CNPq e a Capes, e da estadual Fapesb.

Em um dos artigos publicados em 2018, na prestigiosa revista Lancet Global Health, a equipe se autodenominou “Salvador Arboviral Research Group” – em inglês, o nome remete à preocupação com a internacionalização do conhecimento produzido na Bahia. Nesse sentido, Ribeiro observa que, ainda que a comunidade científica internacional possa, a princípio, não estar interessada especificamente na cidade de Salvador, “com certeza tem interesse em conhecer mais sobre viroses que podem se alastrar e chegar a qualquer lugar”, razão pela qual, hoje, pode-se arriscar afirmar que qualquer pessoa que se interesse pelo tema terá, obrigatoriamente, que percorrer o conhecimento disponível sobre os casos baianos.

“Não que Salvador estivesse ‘fora do mapa’ da pesquisa sobre arboviroses”, faz questão de observar Ribeiro, destacando trabalhos de excelência sobre o tema produzidos na própria UFBA por pesquisadores como Glória Teixeira e Darci Neves, do ISC, e o próprio Gúbio Soares, do ICS. Mas a grande inovação trazida pelo grupo que ele lidera contribui para consolidar a tradição baiana de pesquisa nessa área por integrar as quatro vertentes da pesquisa sobre arboviroses: epidemiológica (estudo dos diferentes fatores que influenciam na difusão e propagação de doenças), ambiente e entomologia (estudo dos insetos, vetores das arboviroses); a avaliação de testes e métodos laboratoriais de diagnóstico; e a clínica (acompanhamento de pacientes para conhecer seus sintomas e evolução da doença).

Do público para o público

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O professor do ISC Guilherme de Sousa Ribeiro coordena o trabalho do grupo (Foto: Uiler Costa)

O sucesso recente das pesquisas sobre arboviroses certamente motivou a eleição de Guilherme Ribeiro para a Academia Baiana de Ciências, neste mês, como membro júnior. Aos 40 anos, Ribeiro já recebeu outros prêmios – como o da Fundação Bunge em Saúde Pública/Medicina Preventiva, em 2010 – e atua há quase 10 anos como consultor, revisor e/ou membro do corpo editorial de importantes periódicos científicos nacionais e internacionais.

Embora venha se concentrando, nos últimos oito anos, às pesquisas sobre arboviroses, Ribeiro já se dedicou ao estudo de outros problemas de saúde pública, como a leptospirose (tema de seu doutorado) e as meningites. “Tenho interesse em estudar doenças que têm relação com a desigualdade social e que os resultados das pesquisas possam trazer benefícios para os grupos mais vulneráveis”, especialmente nas áreas urbanas, ele observa.

Ribeiro tem se dedicado à pesquisa desde os tempos de graduando do curso de medicina da UFBA, quando se destacou, ainda como estudante de iniciação científica, por ser o primeiro a identificar o grande impacto de uma das vacinas (Haemophilus influenzae tipo B) introduzidas no Programa Nacional de Imunização na prevenção de casos de meningite em crianças menores de cinco anos em Salvador, e observar, como consequência menor do uso da vacina, um pequeno aumento na ocorrência de outro tipo de meningite (causada pelo tipo A do Haemophilus influenzae). O trabalho resultante, premiado no principal congresso sobre doenças infecciosas dos Estados Unidos, foi um dos primeiros artigos publicados em periódicos internacionais por Ribeiro e até hoje figura entre os mais citados de sua autoria. O êxito que Ribeiro obteve ainda como estudante da Faculdade de Medicina da UFBA pode servir como inspiração para os graduandos da área de saúde e, em especial, do curso de medicina, já que, como ele observa “a carreira científica tem atraído o interesse cada vez menor dos estudantes de medicina”.

A opção por uma atuação diversificada, não somente nos seus objetos de pesquisa, mas também na sua formação e na atividade acadêmica, está na raiz do sucesso da equipe ‘multi-especializada’ que ele lidera. Na bagagem, Ribeiro acumula um mestrado em epidemiologia pela Universidade de Harvard, uma residência médica em infectologia na Universidade Federal de São Paulo, a coordenação da residência médica em doenças infecciosas do hospital Couto Maia, em Salvador, a coordenação da graduação em saúde coletiva na UFBA, onde é professor desde 2009,  e a coordenação de um programa de pós-graduação na Fiocruz Bahia.

Discreto, o professor Guilherme enfatiza que a atuação em instituições públicas e em projetos de pesquisa voltados a gerar benefícios diretos à população mais pobre estão no centro de sua motivação profissional. “No passado, recebi convites para atuar como médico em instituições privadas, mas sempre recusei. Tive minha formação superior e pós-graduada financiada pelo governo e com apoio de diversas agências públicas de fomento. Sempre fiz pesquisa com verba pública. Então, entendo como meu dever devolver o máximo possível à sociedade e ao público.”

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