Presidente da Academia Brasileira de Ciências: “Cortes na Ciência prejudicarão saúde e qualidade de vida do brasileiro”

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Luiz Davidowich: "A Ciência está sufocada por cortes sucessivos no orçamento”

Luiz Davidowich: “A Ciência está sufocada por cortes sucessivos no orçamento”

A Academia Brasileira de Ciências (ABC), representada pelo seu presidente Luiz Davidowich, foi uma das entidades que participaram do desfile do Dois de Julho para denunciar o momento vivido pela ciência no Brasil. Em entrevista exclusiva para o Edgardigital, Davidowich alerta que o orçamento federal para a Ciência e Tecnologia neste ano foi reduzido a um terço do que era em 2013, o que representa uma perda da ordem de 70% em valores atualizados. “Foram cortes profundos. A Ciência está sufocada por cortes sucessivos no orçamento”.

A manifestação, que foi realizada na data que marca a consolidação da Independência do país no Estado na Bahia, reuniu pesquisadores e professores universitários em uma ação articulada pela Academia de Ciências da Bahia, presidida pelo professor da UFBA Jailson Andrade, com a participação de oito universidades baianas e entidades como o Instituto FioCruz/BA, o IFBA, o IF-Baiano, a Academia de Letras da Bahia e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

De acordo com o presidente da ABC, os cortes significam menos investimento para pesquisas, que já sofrem até com a falta de insumos básicos para experimentos. Além disso, importantes centros de pesquisa têm convivido com equipamentos desatualizados. Muitas décadas de investimento estão se perdendo e entidades como Cnpq, Capes e Finep, que foram fundamentais para o desenvolvimento da ciência brasileira, estão enfrentando dificuldades para seguirem desenvolvendo suas atividades. “Isso nos preocupa porque vai prejudicar a saúde, a qualidade de vida e o bem-estar da população brasileira”.

“O financiamento constante e crescente na ciência é fundamental para o progresso do país. Cada dólar investido em pesquisa gera um retorno de 6 dólares. É necessário falar sobre isso para a população brasileira”, afirma o dirigente, que também acredita que os políticos precisam ter essa compreensão e assumir o compromisso com o futuro do país. “Devemos cobrar uma agenda nacional voltada para a ciência e tecnologia”.

Vice-reitor da UFBA Paulo Miguez participou da mobilização ao lado dos presidentes da ABC, Luiz Davidowich, da ACB, Jailson Andrade, da Senadora Lídice da Mata, e da presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel

Vice-reitor da UFBA Paulo Miguez participou da mobilização ao lado dos presidentes da ABC, Luiz Davidowich, da ACB, Jailson Andrade, da Senadora Lídice da Matta, e da presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel.

Nesse sentido, a Academia Brasileira de Ciências convidou os pré-candidatos à Presidência da República nas próximas eleições para discutir, junto com a sociedade brasileira e a comunidade científica, a construção de seus programas políticos com a inclusão de um plano de Estado em ciência, tecnologia e inovação. Todos os pré-candidatos receberam o documento com propostas elaboradas por cientistas e foram convidados para o debate na sede da entidade. O documento da ABC aos Candidatos à Presidência do Brasil está disponível na página oficial da instituição.

“No mundo contemporâneo é essencialmente impossível a criação de bons empregos, o combate à pobreza, a redução da desigualdade e o fortalecimento da governabilidade democrática sem uma substantiva melhoria da educação, o uso intensivo de ciência, a aplicação das tecnologias localmente mais eficientes e a introdução da cultura da inovação em toda a sociedade” destaca o documento, que aponta ainda que o Brasil reúne condições ímpares para utilizar eficientemente ciência, tecnologia e inovação em um projeto de desenvolvimento que contribua para reduzir as desigualdades, melhorando o nível de vida da população e colocando o país em um lugar de destaque no cenário internacional.

“Jovens pesquisadores brilhantes estão deixando o Brasil. Países como China e Canadá estão com escritórios montados aqui no país para contratar pesquisadores”, afirma o presidente da ACB, observando que o investimento na formação desses profissionais está sendo desperdiçado, uma vez que muitos estão migrando para outros centros de pesquisa. O que tem acontecido em razão da necessidade de seguirem com seus estudos onde não enfrentem a falta de recursos em laboratórios e equipamentos.

Manifesto reuniu estudantes, pesquisadores e professores universitários em uma ação articulada pela Academia de Ciências da Bahia

Manifesto reuniu estudantes, pesquisadores e professores universitários em uma ação articulada pela Academia de Ciências da Bahia

Ele entende que a chave para o desenvolvimento no mundo atual é o conhecimento e ressalta que a manifestação realizada no 2 de Julho, em Salvador, tem o objetivo de alertar para os graves danos que podem atingir a sociedade brasileira caso todo esse processo não seja revertido.

A longo prazo, a redução dos investimentos em ciência e tecnologia, segundo avalia o professor, tornará o Brasil cada vez mais dependente de outras nações e vai pesar na balança comercial. “Novas tecnologias vão aparecendo numa velocidade fantástica. Não podemos ficar deitados em berço esplêndido”, destaca em referência a inovações como, por exemplo, os carros elétricos pilotados sem motorista.

Na área da saúde, ele aponta os avanços com a engenharia genética e novas terapias para tratar doenças como câncer, Alzheimer e Parkinson. “Temos que ter essas tecnologias no Brasil”, reivindica Luiz Davidowich, que faz questão de ressaltar a qualidade dos pesquisadores brasileiros, exemplificando o trabalho realizado no país com células-tronco e a descoberta por pesquisadores brasileiros da associação entre o vírus da Zika e a microcefalia em crianças.

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Diretoras de Unidades da UFBA defendem a ciência sem perder o bom humor. Olívia Oliveira (IGEO), Purificação Araújo (Nutrição) e Izabela Cardoso (ISC)

Davidowich destaca ainda as contribuições da ciência brasileira em área estratégicas como petróleo, aviação e agricultura. Ele cita a descoberta do processo de fixação de nitrogênio,fruto de pesquisa nacional, que revolucionou a agricultura, evitando a importação de grande quantidade de fertilizantes, uma economia de recursos significativa para o país.

Manifesto do Dois de Julho

A Academia de Ciências da Bahia e demais entidades que organizaram a mobilização no Dois de Julho assinaram manifesto sobre a situação da Ciência no país. Leia:

Ciência, Educação e Cultura são os fundamentos sobre os quais repousam as sociedades humanas. São eles que permitem, estimulam e consolidam a produção e a acumulação do conhecimento necessário ao desenvolvimento integral das nações. Como tais, constituem-se de atividades complexas e continuadas, que necessitam de infraestrutura, planejamento e financiamento continuados e de longo prazo. Os Países desenvolvidos, assim o são porque investem fortemente em ciência, educação e cultura, único caminho para a prosperidade econômica e social sustentável, para uma vida digna, equânime e saudável de seus cidadãos. 

É este também o caminho que devem seguir os países em desenvolvimento: planejar, financiar, apoiar continuamente as instituições que se dedicam ao ensino, em todos os níveis e à pesquisa científica e cultural. Sem isto não haverá geração de riqueza nem melhoria na qualidade de vida. E sobretudo não se formará um patrimônio de conhecimento consolidado, próprio do país, que além de servir à construção do seu presente determinará a projeção do nosso futuro. No Brasil, contudo, há anos a ciência, a educação e a cultura vêm sendo progressivamente desamparadas pelos governos, sofrendo cortes sucessivos nos orçamentos destinados a suas atividades. 

A tal ponto isto vem ocorrendo que se chegou hoje a uma situação de penúria generalizada! Se por um lado, a maioria dos governos estaduais não cumpre os compromissos com o investimento em ciência e tecnologia, educação e cultura, por outro o governo federal, além de não cumprir os repasses para essas finalidades tem feito arrasadores cortes orçamentários nesses setores. Dois de Julho é uma data heroica para a Bahia e o Brasil e simboliza a verdadeira Independência do nosso país. Imbuídos deste sentimento patriótico, a Academia de Ciências da Bahia, juntamente com todas as instituições de ensino superior públicas do Estado e as Academias de Letras, de Medicina e de Medicina Veterinária da Bahia decidiram-se por manifestarem-se publicamente nesta data. Nosso objetivo é, além de despertar na consciência da população o valor da ciência, da educação e da cultura, sobretudo alertar os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário sobre a necessidade de dar um fim à lamentável situação de penúria orçamentaria que aflige esses setores em nosso país. Investir neles hoje é nossa única garantia de futuro

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