Boa divulgação científica exige colaboração e interação

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Como tornar a produção científica mais acessível à sociedade? De que maneira conseguir demonstrar que a produção acadêmica está próxima do cotidiano? Algumas respostas a essas questões deverão ser oferecidas, entre outros, pelos pesquisadores Marco Aurelio Ribeiro Mello, professor da Universidade de São Paulo (USP), e Pierre Fayard, professor emérito da Universidade de Poitiers, França, durante o evento “Universidades Relevantes no Século XXI: Ciência, Tecnologia e Sociedade”, no Instituto de Biologia (Ibio) da UFBA, de 6 a 8 de agosto. As palestras são parte das comemorações dos 50 anos do Instituto (veja em https://ufbalabecoba.wixsite.com/ibio50anos/debates).

Marco Mello criou em 2012 um blog com textos informativos, ensaios e tutoriais, com o propósito de auxiliar desde estudantes de graduação a pesquisadores experientes a trilharem um caminho na carreira acadêmica e, ao mesmo tempo, aproximar o trabalho desenvolvido pela academia da sociedade. No ano passado, o blog se transformou no livro “Sobrevivendo na ciência”.

“Percebi que boa parte da formação de jovens cientistas no Brasil é feita na base da ‘osmose’. Ou seja, em vez de ensinarmos habilidades fundamentais de forma estruturada, esperamos que aspirantes a cientista aprendam a redigir artigos técnicos, por exemplo, apenas imitando colegas mais experientes”, diz.

Mello trabalha na universidade apoiando iniciativas de alunos voltadas à divulgação científica, mas também auxilia professores a estarem mais perto de uma comunicação mais acessível. “Hoje me dedico tanto à divulgação científica para o público leigo quanto a uma espécie de “coaching acadêmico” focado em pós-graduandos e professores novatos”, detalha. Durante o evento em agosto, Mello vai contar sobre sua trajetória e apresentar as perspectivas para quem tem interesse em se engajar  na divulgação científica.

Pierre Fayard apresentará uma reflexão sobre o fazer científico dentro da academia e sobre como essa prática se relaciona com o ambiente externo por intermédio da divulgação científica. Segundo ele, os gestores de pesquisa já têm consciência da necessidade de ter diálogos com setores econômicos, políticos, midiáticos, escolares, e com o público em geral.

“Divulgar não é só uma questão de responsabilidade social para a academia. Através dos esforços para adaptar conteúdos de modo que sejam entendidos por seus interlocutores, os pesquisadores podem compreender melhor o que estão fazendo, afastados dos seus laboratórios”, observa o pesquisador.

Fayard sugere ainda que a academia deve estar mais próxima da sociedade dialogando com as tecnologias da informação, principalmente para estabelecer laços com as gerações futuras de uma forma colaborativa e compartilhada de construção do conhecimento.

“Não se pode mais falar de divulgação tradicional, mas de lógicas colaborativas e interativas, às vezes em tempo real, às vezes emocional, o que nem sempre facilita a reflexão crítica. Hoje, a mediação e o jornalismo científicos formam parte da paisagem midiática. A academia tem que se adaptar a essas mudanças”, comenta.

Integram também a programação do evento palestras dos pesquisadores Hanne Andersen, da Universidade de Copenhague, Dinamarca, Roland W. Scholz, professor emérito do Instituto de Tecnologia da Suíça (ETH), Mark Neff, professor da Universidade Western Washington, e Heidi Ballard, da Universidade da Califórnia.

Os interessados em participar do debate podem se inscrever no site oficial do evento, até o dia 6 de agosto.

  Veja abaixo entrevistas curtas de Pierre Fayard e Marco Mello para o Edgardigital:

 

Pierre Fayard

O que o senhor percebe que está evoluindo nessa relação academia-sociedade, no sentido de divulgação do que acontece dentro das universidades?

Estamos vivendo numa época na qual os conhecimentos científicos e as tecnologias têm papel cada vez mais relevante para a sociedade, com uma velocidade sem precedentes. Por isso, a relação academia / sociedade não pode ser mas episódica ou aleatória. A sociedade precisa de informação e de conhecimento para entender seu entorno, esclarecer os desafios, fundamentar suas decisões, e enfrentar os desafios. Essa relação não pode mais ser considerada só através de uma lógica estratégica unidirecional e marginal de divulgação de conteúdos escolhidos pelos próprios cientistas. A probemática atual seria mais de colaboração e compartilhamento de perguntas que a sociedade tem. Isso se transforma em uma preocupação estratégica para universidades que pretendem assumir um papel cidadão.

De que maneira a tecnologia da informação (TI) pode vir a colaborar com a divulgação científica, inclusive nesse contexto marcado por gerações que já nasceram conectadas?

Com as TIs, a mudança é tremenda. Antes da Internet se generalizar, havia escassez de informações científicas disponíveis para o grande público, poucos espaços físicos de acesso como museus ou centros de cultura científica, poucas competências em mediação especializada. As TI’s ampliaram de maneira considerável o que foi iniciado pelo movimento de renovação da comunicação científica pública na Europa, no final do século XX. Não se pode mais falar de divulgação tradicional, mas de lógicas colaborativas e interativas, às vezes em tempo real, às vezes emocional o que nem sempre facilita a reflexão crítica. Hoje a mediação e o jornalismo científicos formam parte da paisagem midiática. A academia tem que se adaptar a essas mudanças.

Veja mais em https://www.youtube.com/watch?v=eJCX-WspK0c&feature=youtu.be

 

Marco Mello

Numa nota em um dos seus textos no blog, você fala sobre as dificuldades de se trabalhar com a ciência, principalmente em campo. Como seu trabalho de divulgação científica pode  ajudar a reduzir o preconceito com as pesquisas em campo?

Meu trabalho pode ajudar, mas ele é apenas uma dentre várias iniciativas que têm surgido na academia. Para mim, um dos exemplos mais bem-sucedidos é o canal do YouTube Nerdologia, que eu admiro muito. Só faremos diferença trabalhando em comunidade, não como indivíduos. O difícil é descobrir uma fórmula eficiente para explicar para o público leigo a importância não apenas do trabalho de campo, mas também das coletas e coleções biológicas. Atualmente, grande parte da sociedade está fortemente sensibilizada quanto ao bem-estar animal. Isso é ótimo! Mas devido à precária educação científica, não só no Brasil mas também em vários outros países, ocorre muita confusão a respeito do que seriam de fato maus tratos. Também é raro encontrar pessoas fora da academia que entendam que é necessário usar animais em pesquisa e ensino, senão sequer entenderíamos o básico necessário para promover o bem-estar deles, por exemplo através da veterinária e da biologia da conservação. Acho que nós, cientistas, devemos nos dedicar a explicar melhor essa questão em blogs, vlogs, TV, rádio, revistas e jornais. Ou em eventos inovadores, como o Pint of Science. Só que ainda mais fundamental do que melhorar a divulgação científica é melhorar a educação científica do ensino infantil ao médio. Vale ressaltar que fazer divulgação não é uma tarefa fácil, especialmente considerando os ânimos inflamados e a falta de respeito que dominam as mídias sociais. Quem dá a cara a tapa e tenta promover o diálogo corre o risco de sofrer linchamento moral de todos os lados.

Como funciona seu trabalho dentro da universidade para a facilitar a divulgação científica?

Eu tento abrir espaço e incentivar os alunos que se interessam pelo tema. Por exemplo, costumo usar a Wikipedia e o YouTube intensivamente nas disciplinas de graduação, de modo a quebrar o tabu que ainda existe sobre essas novas mídias. Em vez de passar trabalhos finais seguindo apenas os tradicionais formatos de prova e monografia, dou aos alunos a opção de produzirem conteúdo voltado à divulgação científica dentro do escopo temático de cada disciplina. Também procuro apoiar todas as iniciativas dos alunos nessa área, seja pessoalmente ou nas redes sociais, ajudando como eles me pedem. E falo bastante sobre isso no blog, inclusive mostrando que pessoas com formação científica podem escolher seguir outras carreiras que não a acadêmica. Ainda quero aperfeiçoar mais o meu trabalho na área, com a ajuda das equipes de mídia da USP. Temos ótimos profissionais de audiovisual aqui.

Veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ev2RY6mIr0c&feature=youtu.be

 

 

 

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