Pesquisadores analisam cenário político e rotas para o país no xadrez eleitoral de 2018

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Lulismo e Bolsonarismo

INCT.DD promove atividade com o objetivo de refletir sobre acontecimentos que podem influenciar as eleições de 2018.

O clima de cristalização discursiva, polarização dos debates e possíveis rotas no atual cenário político brasileiro, às vésperas das eleições gerais, estiveram entre as análises estabelecidas durante a mesa mesa-redonda “O Lulismo, o Bolsonarismo e o xadrez eleitoral de 2018”, com a presença dos professores Sérgio Braga, daUniversidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Fábio Dantas Neto,  Wilson Gomes e  José Crisóstomo de Souza, da UFBA.  A atividade é parte integrante das ações do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital – INCT.DD –sediado na Faculdade de Comunicação (Facom), cujo objetivo é refletir sobre os principais acontecimentos que podem influenciar as eleições de 2018, além de apresentar o panorama geral das forças em disputa na conjuntura.

O momento atual é marcado por “muito mais que uma crise institucional e de representação, mas por uma crise de estratégias discursivas entre os atores políticos que estão competindo pela hegemonia no espaço político”, destacou o pesquisador em Internet e Política que atua na UFPR, Sérgio Braga. “­­­­­­­­É por isso que as pessoas sentem tanta dificuldade em se conectar com a política e seus atores, pois elas não se sentem conquistadas pelas estratégias discursivas”, acrescentou.

O coordenador do INCT.DD, Wilson Gomes, entende que “estamos vivendo uma fase bélica da política, em que a guerra é a metáfora”.  Segundo ele, “há um clima de encrispamento na sociedade com sentimentos congestionados de anti-universidade, anti-intelectual, numa conjuntura política que não é fácil, em meio à cristalização discursiva na qual as pessoas estão se aglomerando nos polos e de forma radical”.

Além da metáfora da guerra, os debatedores voltaram-se para analogia do jogo de xadrez, em que há “o estudo de problemas e análise dos nós que se estabelecem para encontrar suas resoluções”, pontuou Braga, enunciando que “assim como no xadrez, o jogo político também envolve atores orientados estrategicamente com posicionamentos sistêmicos, embora as peças não sejam tão passivas como as peças num tabuleiro”.

Nesse intuito, a mesa concentrou-se na observação de posicionamentos dos principais atores políticos em ação no contexto brasileiro e que trazem uma série de implicações para a visão do processo político.  “Por isso temos que elaborar cenários e traçar estratégias como analistas de conjuntura, realizando exercícios intelectuais em relação ao cenário que está aí”, disse o docente da UFPR.

 

Lulismo e Bolsonarismo

SérgioBraga-UFPR

Sérgio Braga: “é preciso entender a natureza da luta política nas sociedades hipercontectadas”.

De acordo com Sérgio Braga, “para compreender fenômenos como o lulismo e o bolsonarismo, é preciso entender a natureza da luta política nas sociedades hipercontectadas e como se formam as correntes de opinião nessa sociedade”.  Na comunicação política existem várias linhas com seus atores encarregados de produzir os respectivos conteúdo, principalmente na sociedade contemporânea que se caracteriza como sistema híbrido (hybrid system), onde se articulam várias arenas midiáticas”, explicou o pesquisador .

Para ele, o Lulismo é entendido como “uma aliança entre as classes empresarial e trabalhadora, realizando a inclusão dos excluídos com o programa bolsa-família”.   “Apesar de ter sido um acordo com o empresariado nacional, o lulismo foi um fenômeno de caráter progressista, porque foi capaz de distribuir renda e gerar empregos e investimentos, ponderou, destacando que “foi a hegemonia de uma burguesia nacional na sociedade brasileira e alguns setores da classe trabalhadora, uma expressão do populismo que produziu um sistema de fazer política, baseado na lealdade e confiança, mas personalizado na pessoa do ex-presidente Lula”.

Em sua visão, tal sistema esvaziou as instituições e, principalmente, a representação partidária, o que enfraqueceu o partido do ex-presidente –, o PT (Partido dos Trabalhadores).  “E essa  crise, para se adaptar a esses novos tempos, abriu espaço para a ênfase no carisma pessoal de outros personagens como Bolsonaro, Ciro Gomes e Marina também, pois todos são lideranças personalísticas em partidos com fraca representação partidária”, assegurou o professor.

Então, ele propôs que “o Bolsonarismo vem da falta de conexão dos setores da classe média com o sistema político e da falta de estratégias deste para a atuação no conjunto da política midiática”.  “A juventude sente-se seduzida por esse discurso, principalmente, os adolescentes que assistem aos vídeos nos canais de redes sociais e dizem que vão votar nesse político. Isso é um problema!”, alertou, apontando como “um recado que a sociedade brasileira está passando de que algo não está bem e é preciso reconhecer os problemas endógenos dessa coletividade”.

 

Rotas em colisão no xadrez eleitoral

Mais do que peças que se movem de forma confusa no tabuleiro eleitoral, o cientista político e professor da UFBA, Paulo Fábio Dantas, chamou atenção para a imagem de uma rotatória, em alusão ao lugar onde estão todas as candidaturas e indicando a possibilidade de quatro opções diferentes.  “Para as eleições, todas as candidaturas trafegarão em vai-e-vem ao longo da rotatória, mas para enxergar as rotas é preciso sair do fulanismo, orientou.

De acordo com ele, as quatro rotas são classificadas em A, B, C e D, seguindo princípios peculiares.  A rota A é norteada pela “retomada do script institucional da Carta de 1988 – que foi em geral, seguido de 1993 a 2003  – amplo pluralismo político, significativa participação eleitoral, competição e alternância partidária, crescente controle social de políticas públicas, balizamento institucional de atores políticos, controle mútuo e equilibrado entre os poderes da república, ampla liberdade de expressão”.  Neste ambiente institucional, Paulo Fábio salientou que “cabem inflexões de política econômica mais ou menos liberal, com maior ou menor contenção do Estado.  Caráter laico do Estado no trato com a cultura e direitos individuais e que induz e promove uma mentalidade cosmopolita, tolerante e democrática na sociedade”.

Já a rota B, ele aponta que é marcada pela “derivação liberal conservadora à direita do script de 1988, com restrição, em nome da ordem, da segurança e da conservação de certas tradições, do espaço para inovações ampliadoras da participação política; mais poder às instituições de controle – quase guardiania – restrição da capacidade de respostas do sistema a questões como defesa do ambiente, da diversidade cultural e sexual, da equidade entre gêneros e etnias, de arrefecer o combate institucional às discriminações e o reconhecimento de novos direitos sociais”.  O professor chamou atenção que essa “é a mais regressiva e perigosa das rotas”.

paulofabio

Paulo Fábio apresentou quatro possíveis rotas no cenário político de 2018.

Há também a rota C que é uma “derivação iliberal à esquerda do script de 1988, pois  acentua a linha de reformismo social pela via estatal, desenvolvimentismo, redução de desigualdades, afirmação de direitos sociais e identitários, apelo a formas de democracia indireta para reduzir a centralidade de representação políticas ou a vias plebiscitárias que concentrem no executivo poderes derivados da representação.

E, finalmente, a rota D, classificada como “retorno a um ponto inicial mais estreito da avenida da democracia, polarização extremada entre populismos e nacionalismos de diversos matizes e o liberalismo de um e de outro lado aliado a um forte viés elitista.  Com características do contencioso ideológico do pré-1964 e do seu imediato pós, até 1968: em vez de se debater a qualidade da democracia e da república, pregava-se ordem ou movimento, conservação ou reformas sociais, revolução ou reação”, finalizou Dantas.

À semelhança dos movimentos das peças num tabuleiro de xadrez, a configuração do cenário político dependerá do “rumo do voto do primeiro turno, onde as quatro rotas podem se combinar em seis cenários para o segundo turno”, afirmou Paulo Fábio, sinalizando que “o mais virtuoso, seriam que duas candidaturas apontem para a rota A, o que é improvável, pois a força dos partidos do centrão empurra para a agenda social da rota B”, asseverou.

Entretanto, o pesquisador aponta que “há possibilidade maior da rota A ter que disputar o segundo turno com as outras rotas” e racionaliza que “se a rota A ficar fora do segundo turno, configura-se mais três cenários: um deles entre as rotas B e C e estaríamos entre a continuidade e a ruptura do fio da democracia”.

De acordo com ele, outro quadro representaria “um potencial maior de ruptura do fio da democracia com uma disputa entre as rotas B e D, o que seria bastante arriscado”.  “Porém”, continua o docente, “o risco maior seria de um quinto cenário estabelecendo um confronto entre as rotas C e D.  Ou pior ainda: um sexto cenário que supera todos os demais, esgarçando de vez o fio da democracia de 1988 e fazendo-a regredir aos marcos de uma democracia populista com um segundo turno entre dois candidatos que propõem um retorno ao marco zero da democracia, do pré-1964 até 1968.  Este seria uma confrontação direta entre dois populistas, envernizados por retóricas de esquerda e de direita”, concluiu o professor.

 

Aprofundamento da cristalização discursiva

O professor Wilson Gomes, que trabalha com as mídias digitais como laboratório para saber com tais tendências estão se organizando, destaca que em consequência da polarização acentuada quando o assunto é política, “as pessoas estão fazendo análise semântica do que o outro fala e detecta um único termo, separando-o e assim, não escutam mais nada do que é dito. Não fazem distinção” e isso torna difícil a compreensão de uma possível rota que o país poderá seguir, após as eleições de 2018, pondera.

Ele aponta algumas características da atual confusão originada dessa cristalização discursiva:  a concentração de ideias em extremidades radicais com o entendimento de que “a polarização é uma convocação ética”. Há o sentimento de antipolítica; novos participantes que perturbam o jogo político: “desde 2013, todo mundo tem uma teoria para interpretar o cenário político” exemplificou Gomes.

WilsonGomes

Wilson Gomes alertou que “são as pautas morais que podem definir as eleições”.

Há “as pautas morais que disfarçam os interesses e apetites em normas”, alertando que “são as pautas morais que podem definir as eleições”.  E no caso do Brasil, existe também a “fragmentação incoerente da coexistência de 35 partidos políticos”.  A combinação de tais fatores, segundo o pesquisador, “nos deixa intranquilos, perplexos e atônitos”, concluiu.

 

Sobre o INCT.DD

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital – INCT.DD agrega diversos grupos e laboratórios de pesquisa nacionais e internacionais dedicados a explorar meios e modos de usar a tecnologia para produzir mais (e melhor) democracia. Com o laboratório central e a coordenação na Facom/UFBA, o Instituto conta com 79 pesquisadores-doutores, sendo 44 cientistas que atuam em centros de pesquisa brasileiros e 35 pesquisadores estrangeiros: 15 australianos, 12 pesquisadores de 8 diferentes países europeus, seis americanos, um chileno e um canadense. No total, estão envolvidas na rede do projeto 37 instituições (universidades, centros de pesquisa e laboratórios), sendo 16 brasileiras e 21 estrangeiras. Mais informações em www.inctdd.org.

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