Transdisciplinaridade poderia promover avanços na sociedade

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A transdisciplinaridade na universidade vai além da interação entre disciplinas acadêmicas visando à produção de conhecimento científico, ou seja, vai além da interdisciplinaridade, ao promover a interação da ciência com setores não acadêmicos, contribuindo para a resolução de problemas sociais. Esses dois temas serão objeto das palestras professores Roland W. Scholz, do Instituto de Tecnologia da Suíça (ETH), e Hanne Andersen, da Universidade de Copenhague, Dinamarca, na segunda-feira, 6 de agosto, dentro do evento “Universidades relevantes no século XXI: ciência, tecnologia e sociedade”, que integra as comemorações dos 50 anos do Instituto de Biologia (Ibio-UFBA), de 6 a 8 de agosto. Os debates após as palestras serão moderados pelos professores Renata Pardini, da Universidade de São Paulo (USP) e Ronaldo Lopes Oliveira, da UFBA.

Scholz enende que “a transdisciplinaridade é um meio eficaz e eficiente de utilizar o conhecimento científico para lidar com problemas sociais relevantes, complexos e de difícil definição”. Ele ressalta que essa temática vai além do atendimento de todas as demandas das áreas envolvidas em determinada situação, e propõe que “um conhecimento socialmente robusto atende ao estado da arte, é compreensível para todos os grupos das partes interessadas e tem o potencial de ser aceito nos processos democráticos” (veja entrevista no final do texto).

Coordenador da comissão organizadora do evento, o professor Pedro Rocha destaca a importância da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade em vários contextos. “Um avanço social representa a mudança de uma situação considerada problemática pelas partes envolvidas  — por exemplo, violência urbana — para outra mais próxima daquela considerada ideal por essas partes  — por exemplo, paz urbana. Além disso, problemas definidos na esfera social são multifacetados e suas causas usualmente incluem fatores ambientais, culturais, econômicos, políticos”, diz.

Ele observa que, no ambiente acadêmico, as disciplinas propõem problemas de pesquisa que não se esgotam em si mesmas. “Para que a ciência contribua com a solução de um problema social ela precisa interagir com os setores sociais envolvidos na situação, para compreendê-lo de forma clara e interagir com outras disciplinas, de modo a produzir um modelo mais completo, incluindo aspectos ecológicos, econômicos etc., do problema, e assim contribuir com sua resolução”.

A programação geral do evento inclui, na manhã da terça-feira, 7 de agosto, a palestra do professor Mark Neff, da Universidade Western Washington, com apresentação e moderação do debate pelo professor Thierry Corrêa Petit Lobão, coordenador de pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação (Propci). À tarde, a programação prossegue com a palestra da professora Heidi Ballard, da Universidade da Califórnia, apresentada e moderada pela professora Carlos Morsello, da USP.

Na quarta-feira, 8 de agosto, são palestrantes Marco Aurelio Ribeiro Mello, da USP, e Pierre Fayard, professor emérito da Universidade de Poitiers, França, que vão abordar a divulgação científica (ver notícia já publicada em http://www.edgardigital.ufba.br/?p=8775).

Os interessados em participar do simpósio, que contará com tradução simultânea, podem se inscrever gratuitamente até o dia 6 de agosto (ver informações adicionais em https://ufbalabecoba.wixsite.com/ibio50anos/debates).


Roland W. Scholz

Qual a importância para as universidades contemporâneas promoverem processos transdisciplinares?

A transdisciplinaridade é um meio eficaz e eficiente de utilizar o conhecimento científico para lidar com problemas sociais relevantes, complexos e de difícil definição. Os processos transdisciplinares utilizam o saber da experiência e o conhecimento científico baseado em métodos e teorias, para entender melhor esses problemas. Os resultados dos processos transdisciplinares também são chamados de orientações socialmente robustas. Isso significa que os processos transdisciplinares, que incluem cientistas de várias disciplinas e todos os grupos das partes interessadas e relevantes relacionados a um determinado problema, não fornecem apenas uma boa resposta técnica. Um conhecimento socialmente robusto atende ao conhecimento do estado da arte, é compreensível para todos os grupos de partes interessadas, e tem o potencial de ser aceito nos processos democráticos. Mas também reconhece a incerteza e a ignorância, ou seja, o conhecimento incompleto que os humanos têm em relação aos complexos desafios sociotécnicos do século XXI.

Você pode indicar um exemplo bem sucedido de processo transdisciplinar que ocorreu na Europa?

Nos últimos 25 anos, houve centenas de projetos transdisciplinares em diferentes partes do mundo. Eu dirigi, muitas vezes projetos em conjunto com um praticante, por exemplo, um presidente de um estado ou um chefe de uma organização industrial, como a Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes, que tinha mais de 25 projetos transdisciplinares de grande escala. Nenhum desses projetos, quando começaram, falhou. Exemplos de processos excessivamente bem-sucedidos foram o desenvolvimento de fundamentos de processos de planejamento de áreas remotas dos Alpes, processos de como lidar com brownfields (ou seja, grandes instalações industriais). Mas também para a busca de processos políticos que são aceitos pela maior parte da sociedade, para questões altamente contestadas, podem ser apresentados como histórias de sucesso. Isto refere-se a estratégias políticas para envolver as pessoas locais por participarem na escolha de resíduos nucleares entre um conjunto de casos geológicos e técnicos possíveis.

 

 

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