Ciência cidadã amplia benefícios da pesquisa na sociedade

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 A ciência cidadã é um campo ainda pouco divulgado e incentivado no Brasil, mas está crescendo gradativamente, e possibilita uma mudança de paradigma da sociedade em relação ao desenvolvimento da cidadania. Esse foi um dos temas tratados na terça-feira, 7 de agosto no evento “Universidades Relevantes no Século XXI: Ciência, Tecnologia e Sociedade”, no Instituto de Biologia (Ibio) da UFBA, em comemoração aos 50 anos do instituto.

O tema foi discutido pela professora Heidi Ballard, da Universidade da Califórnia, na conferência “Engajando o Público  por meio da Participação na Pesquisa Científica: Ciência Cidadã e Comunitária Conectando Conservação e Aprendizado de Ciência”. A apresentação e moderação do tema foi da professora Carlos Morsello, da Universidade de São Paulo (USP). Durante a conferência, ela apresentou exemplos de como a relação entre cientistas e cidadãos podem trazer resultados mais eficazes para a sociedade.

Heidi Ballard

Heidi Ballard: resultados mais eficazes para a sociedade com a relação entre cientistas e cidadãos

A professora do Ibio Blandina Felipe Viana, que faz parte da organização do evento, explica como funciona essa modalidade na ciência. “Os participantes voluntários se envolvem em investigações científicas coletando dados, analisando os dados, publicando resultados, ou ainda, na definição da pergunta da pesquisa e levantamento de hipóteses”, detalha. A participação deles depende do tipo de pesquisa que está sendo realizada.

Blandina coordena na  UFBA um projeto nesse formato, o  “Guardiões da Chapada”, vinculado ao INCT em Estudo Inter e Transdisciplinares em Ecologia e Evolução (IN-TREE). O objetivo é fazer o monitoramento e conservação da interação planta-polinizador na Chapada Diamantina.

No mesmo dia aconteceu a conferência com Mark Neff, professor da Universidade Western Washington, com o tema “Escolha suas métricas cuidadosamente: a avaliação padrão das contribuições científicas pode tirá-lo do rumo”. A apresentação e moderação do debate ficou a cargo  do coordenador de pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação (Propci), professor Thierry Corrêa Petit Lobão, que tratou do financiamento científico.

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Mark Neff: métricas usadas não permitem igualdade no tratamento de países produtores de ciência

Mark Neff observou que atualmente as métricas usadas nas Américas focam na quantidade de publicações dos cientistas. “A maioria dos sistemas científicos nas Américas (e na maioria dos casos, em todo o mundo) optou por avaliar pesquisadores individuais por simples contagens de publicações e citações, com ênfase naquelas que aparecem em periódicos de “alto impacto””, disse.

 

No entanto, de acordo com Neff, essas métricas não favorecem os países, visto que, há uma priorização de publicações em inglês em detrimento de pesquisas que têm cunho mais regional. “Na medida em que as nações constroem seus sistemas de avaliação científica em torno dessas métricas, elas sistematicamente afastam os cientistas de pesquisas que possam beneficiar a nação patrocinadora”, explica.

Inscrição

Fazem parte da programação também os pesquisadores Marco Aurelio Ribeiro Mello, professor da Universidade de São Paulo (USP), e Pierre Fayard, professor emérito da Universidade de Poitiers, França, que vão abordar a divulgação científica na quarta-feira, 8 de agosto.

No dia 6 aconteceu a conferência do pesquisador Roland W. Scholz, professor emérito do Instituto de Tecnologia da Suíça (ETH), com apresentação do professor Pedro Rocha, do Ibio, e mediação da professora Renata Pardini. No mesmo dia houve a palestra da professora Hanne Andersen, da Universidade de Copenhague, Dinamarca; com apresentação e mediação do coordenador de Ensino de Pós-Graduação, Ronaldo Lopes Oliveira

Entrevista

Mark Neff

Quais são as principais métricas usadas para avaliação e recompensa de cientistas nas Américas?

A maioria dos sistemas científicos nas Américas (e na maioria dos casos em todo o mundo) optou por avaliar pesquisadores individuais por simples contagens de publicações e citações, com ênfase naquelas que aparecem em periódicos de “alto impacto”. Essas métricas estão tão profundamente enraizadas nas culturas científicas, que são quase inquestionáveis tanto por cientistas, quanto por formuladores de políticas. Dentro das comunidades científicas, essas normas são bastante compatíveis com as expectativas da autogovernança científica que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Eles também são compatíveis com expectativas mais amplas de responsabilidade, pois os formuladores de políticas podem facilmente quantificar o que a ciência produz. Infelizmente, as publicações e as citações de periódicos de “alto impacto” não se correlacionam bem com os resultados que a sociedade espera da ciência.

 

A ênfase em tais métricas poderia prejudicar a capacidade da ciência de contribuir para resolver os problemas do país?

Enfatizar publicações e citações de revistas de “alto impacto” não beneficia nenhum país que examinei. A qualidade do periódico é tipicamente avaliada através de referência a estatísticas de citações em bancos de dados que, por design, enfatizam a publicação em inglês e em tópicos de interesse para um conjunto arbitrário de editores e revisores de periódicos de língua inglesa. Sem nunca ser explicitamente concebido para o fazer, este sistema pune os cientistas que passam tempo a trabalhar com potenciais utilizadores do conhecimento científico, aqueles que realizam pesquisas relacionadas às necessidades de conhecimento locais e regionais, e aqueles que escrevem em outras línguas ou em outlets disponíveis para esses potenciais comerciais. Na medida em que as nações constroem seus sistemas de avaliação científica em torno dessas métricas, elas sistematicamente afastam os cientistas de pesquisas que possam beneficiar a nação patrocinadora. O Brasil é uma exceção, já que o sistema de classificação de periódicos Qualis permite que o país se concentre em tópicos de pesquisa de interesse local e regional, mas a maioria dos cientistas com quem falo considera o Qualis uma influência “política” e, portanto, indesejável na ciência.

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