Simpósio debate a cultura como espaço de empoderamento feminino

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Da esquerda para a direita, Rose Lima, Maria Marighela, Laila Garin e Julieta Palmeiras

O grupo de pesquisa Miradas: Gênero, Cultura e Mídia convidou mulheres de destaque no cenário baiano e nacional para debaterem a importância da cultura como espaço de empoderamento feminino no simpósio “A Mulher na Cultura”, durante o XIV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), realizado em Salvador, de 7 a 10 de agosto. E no primeiro dia lá estavam as atrizes Laila Garin e Maria Marighella, a secretária de Política para Mulheres da Bahia, Julieta Palmeiras, e a diretora artística do Teatro Castro Alves, Rose Lima, mostrando suas visões sobre o caráter duplo que o campo cultural oferece às mulheres, marcado por acolhimento e tensões.

“A cultura é um campo poroso e inclusivo, mas isso não significa que não existam dificuldades, tensões e batalhas a serem superadas. Convidamos mulheres de muitas batalhas, com consciência de seu papel e de sua identidade, para pensar a cultura no momento sociocultural e político atual, dentro do qual uma presidenta, legitimamente eleita, foi brutalmente deposta e uma sucessão de feminicídios tomou conta dos noticiários como se fossem quase novelas”, disse Linda Rubim, coordenadora do grupo Miradas e professora do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA.

Laila Garin, cantora, além de atriz formada pela Escola de Teatro da UFBA, destacou que desde sua infância a “tradicional figura paterna” nunca foi uma referência na formação de seus traços femininos. Devido à proximidade com o meio artístico, as “fronteiras de gênero sempre foram meio borradas”. Mais tarde, sua formação teatral possibilitou a convivência com homens femininos, homossexuais, trans e mulheres fortes que não viviam “para”, “por” e nem contra um homem. “Tive a sorte de conhecer mulheres-‘sujeita’ independentes e que faziam o que queriam, e não mulheres-objeto como a sociedade historicamente nos impõe”, relata Laila.

Se, em seu olhar, a arte sempre foi um espaço de vanguarda que abarcou os que vivem à margem da sociedade, ela reconhece, entretanto, que ainda há lutas e espaços a serem afirmados, principalmente para as mulheres negras. “Recentemente uma atriz foi praticamente impedida de interpretar Ivone Lara por não ser negra o suficiente. Reconheço que seja uma luta justa. Mas o corpo do ator está a serviço da arte. Pouco importa a cor e o gênero da personagem que será interpretada. A arte é a nossa arma e com ela tentamos tocar o público e falar do que incomoda sem falar explicitamente disso”, concluiu.

A segunda palestrante, Julieta Palmeiras, exaltou a cultura como um bom espaço de empoderamento da mulher, mas manifestou preocupação com sua invisibilidade histórica e com a lentidão no processo de reconhecimento da mulher no espaço cultural. “É preciso dar celeridade a esse processo”, enfatizou. Como secretária de estado e entusiasta da área cultural, ela vê inúmeros e ótimos trabalhos de mulheres talentosas que não aparecem por falta de oportunidades e espaço. Por isso tem se empenhado em criar políticas públicas de incentivo à produção cultural feminina. “A união entre as mulheres é o que vai propiciar essa celeridade. Eu vibro sempre que vejo uma mulher se destacando no cenário cultural”, festejou.

Julieta Palmeiras falou, no final, de seu engajamento no movimento, iniciado nas redes sociais, para conduzir a escritora mineira Conceição Evaristo à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela oficializou sua candidatura em junho, como postulante à cadeira de número sete, cujo patrono é o poeta baiano Castro Alves. “Em 120 anos de existência, apenas oito mulheres passaram pela Academia, e atualmente são quatro. Se tiver êxito, Conceição Evaristo será a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na ABL.

A arquiteta Rose Lima, diretora artística do Teatro Castro Alves, falou sobre os homens que incentivaram sua incursão no campo cultural. Contou que seu pai, apesar de ser um homem tradicional, que não permitia a sua mãe dirigir, sempre a incentivou a estudar. “Meu pai dizia que depois que eu me formasse nunca mais teria que dar satisfação da minha vida”, disse. A entrada na Faculdade de Arquitetura e o convívio com os colegas ampliaram muito sua noção de cultura. “Foi ali que fiquei sabendo o que era um cigarro de maconha e o que era o candomblé, por exemplo”, comentou. Concluído o curso de Arquitetura, passou uma temporada na Europa com o marido e, ao retornar, conheceu Ruy Cezar Silva, educador e gestor cultural que a convidou para desenvolver e ajudar a organizar o Mercado Cultural FALA (Feira Latino Americana de Produtores Culturais), em 1998, no estacionamento do TCA. “Convidaram-me para montar uma galeria de arte num espaço do teatro, mas eu só poderia fazer se aceitasse o cargo de diretora artística. Eu não sabia nada de direção artística. Aceitei o desafio e tive que aprender tudo na marra. No início foi cansativo, mas muito gratificante”.

A atriz Maria Marighella encerrou o primeiro dia de simpósio propondo uma discussão sobre a importância do feminismo no processo cultural e deixando uma interrogação para o debate: “quando é que a gente se sente mulher?”

A partir das experiências narradas por  Laila Garin e Rose Lima, observou que em um desenvolvimento favorável o campo cultural tende a ser um espaço de vanguarda e inclusivo. Um campo favorável ao combate das desigualdades. Por outro lado, ao analisar o relato de Julieta Palmeiras, comentou que a cultura também é um campo de hierarquização, de poder, o que é evidente na constatação de que poucas mulheres ocuparam até hoje cadeiras na Academia Brasileira de Letras. “Ao mesmo tempo que a cultura é este local harmônico, equilibrado, igual, de produção de repertório, é também lugar de poder quando em espaços mais institucionalizados”.

Marighella relatou a experiência de um amigo que após um show da cantora Anitta fez uma breve pesquisa com o público sobre a performance da cantora. A resposta quase unânime foi que ela era ‘poderosa’, ou seja: “No campo símbólico performático aquele corpo ganha outro significado. O que falta para que essa representatividade ultrapasse este local simbólico e seja reconhecido socialmente?”, ponderou.

Para ela o feminismo surge de um ambiente de insubordinação: “A gente se percebe mulher no enfrentamento. O feminismo não é apenas uma prática onde alguém pode se filiar a um projeto político, ele vem de uma reação e insurgência a partir de um campo de opressão relacionado ao gênero. Como consequência, aí sim, os homens, partidos e projetos políticos solidários tentam colaborar com essa questão. Pois o aprofundamento da democracia só terá êxito quando nos debruçarmos sobre as questões de equidade étnica, racial e de gênero”, concluiu.

 

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