UFBA reconhece notório saber de Mestre Nô em celebração da capoeira

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Com mais de 68 anos dedicados à prática e ao ensino da capoeira, mestre Nô é considerado expoente da capoeira Angola no Brasil.

Com mais de 68 anos dedicados à prática e ao ensino da capoeira, Mestre Nô é considerado expoente da capoeira Angola no Brasil.

“É uma conquista não só minha, mas também da capoeira”, celebrou Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na realização do ato solene em que a UFBA entregou a declaração de reconhecimento do seu notório saber, nesta quinta-feira, 16 de agosto, no salão nobre da Reitoria.

“Agradeço a todos os capoeiristas, de várias gerações, que passaram por meus ensinamentos e abraços carinhosos nas rodas de capoeira e nas rodas da vida”, disse Mestre Nó, que ressaltou também o fundamental apoio da família para que ele continue firme na luta em busca de seus objetivos.

Emocionado, rememorou a sua trajetória desde criança, das dificuldades financeiras de seguir com os estudos e da entrega “de corpo e alma” à arte da capoeira. “Conheço quase todos os segredos dessa arte. Não conheço todos porque ela é muito maior do que se possa imaginar”, disse.

Com mais de 68 anos dedicados à prática e ao ensino da capoeira, mestre Nô é considerado expoente da capoeira Angola no Brasil. Educador, pesquisador e extensionista da cultura corporal, ganhou destaque no ambiente universitário, sendo citado em diversos trabalhos, nacionais e internacionais, entre eles, Ring of Liberation: deceptive Discourse in Brazilian Capoeira, de J. Lowel Lewis (1997), ou Rodas de Capoeira: arte e patrimônio em Florianópolis de Maria Eugenia (2010).

A solenidade foi aberta com a apresentação da Orquestra de Berimbaus Afinados – OBA DX, com o Mestre Dainho Xequerê

Orquestra de Berimbaus Afinados, com o Mestre Dainho Xequerê

Durante a cerimônia, o reitor da UFBA João Carlos Salles saudou todos os mestres de capoeira e seus aprendizes e ressaltou que “o aprendizado é uma constante”. A maestria e brilho de Mestre Nó foram apontadas por ele, que lembrou outras homenagens da universidade a expoentes da área como Mestre Bimba, Mestre Pastinha e Mestre João Pequeno.

Para o reitor, a universidade torna-se mais rica ao afirmar a sua capacidade de aprender com os mestres populares e é também o espaço para a celebração da cultura. “Espaço em que o povo tem precedência sobre as elites, casa do saber, democracia, liberdade e aprendizado. Espaço de resistência aos ataques que o povo brasileiro tem sofrido, que precisa ser protegido enquanto instituição pública, inclusiva, gratuita e de qualidade”, pontuou.

A solicitação para concessão do título ao Mestre Nó foi encaminhada pelo grupo de pesquisa História da Cultura Corporal, Educação, Lazer e Sociedade (HCEL), por meio de sua coordenadora Maria Cecília Silva, professora da Faculdade de Educação (Faced).

“Mestre Nô recebe seu título por preservar, difundir e vivenciar a arte e cultura criadas nas capoeiras e senzalas e desenvolvida por muito tempo nas ruas, em becos. Perseguida e mesmo criminalizada, a capoeira, é uma das muitas formas de luta pela emancipação humana”, destaca a professora.

Ela afirma que o reconhecimento foi motivado pelo processo educacional da capoeira desenvolvido por Mestre Nô, atento à formação humana integral, na perspectiva de educar e difundir esta expressão corporal como linguagem, local e global. Algumas de suas realizações estão explicitadas na criação de métodos de aprendizagens, desenhos de rodas e movimentos da capoeira; um sistema de linguagem musical para registro e leitura; partituras musicais únicas e especificas para o registro dos toques do berimbau. Diálogos, desafios, movimentos, rodas e interações diversas fazem parte das suas ações no processo de ensinar e aprender.

A professora enfatiza também a sua contribuição para difundir um legado afro-brasileiro, que representa a história e a cultura de povos historicamente desconsiderados e oprimidos. Mestre Nô reelaborou conhecimentos ancestrais que vieram da África e contribuiu com a sistematização da capoeira, que hoje é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade. “Entre as ruas da periferia de Salvador e as capoeiras da Ilha de Itaparica, entre a periferia e o centro, mestre Nô alcançou o reconhecimento social”, constata Maria Cecília.

noite seguiu com uma roda de capoeira montada no Salão Nobre da Reitoria

Roda de capoeira montada no salão nobre da reitoria

A vice-diretora da Faced, Dinéa Muniz, representando o diretor Cleverson Suzart, referiu-se ao Mestre Nó como “uma personalidade que vem tendo uma ação educacional potente, com trajetória de relevância nacional e internacional”. Por isso, a unidade de ensino foi proponente desse reconhecimento pelo seu saber público e notório. O vice-reitor da UFBA Paulo Miguez também participou da solenidade, que foi aberta com apresentação da Orquestra de Berimbaus Afinados – OBA DX, com o Mestre Dainho Xequerê. O capoeirista e músico Tonho Matéria também cantou para o homenageado. Ao final, a noite seguiu com uma roda de capoeira montada no Salão Nobre da Reitoria com a participação do público presente, que reverenciou com entusiasmo o Mestre Nó.

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