Pesquisa leva a achado de cartas trocadas entre a UFBA e o filósofo Bertrand Russell

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Durante pesquisa nos Arquivos Bertrand Russell para seu doutorado em Filosofia na UFBA, em 2016,  Murilo Garcia de Matos Amaral, hoje professor substituto no Departamento de Filosofia da universidade, descobriu naquele imenso e bem cuidado acervo, abrigado pela Universidade McMaster em Hamilton, Ontário, Canadá, uma carta da UFBA ao filósofo Bertrand Russell e a resposta dele aos gestores da universidade, em meio a documentos mais de seu interesse direto. 

O foco de Murilo Garcia, ao mergulhar nos incontáveis registros sobre a vida e a obra de Russell existentes no arquivo, eram documentos ligados ao tema de seus estudos, ou seja, a filosofia do atomismo lógico de Russell. Mas, ao descobrir a brevíssima correspondência do filósofo com a UFBA e outras cartas dele endereçadas ao Brasil, não as descartou, antes recolheu o material, no melhor espírito de um pesquisador entusiasmado, para adiante decidir o que faria com ele.

Murilo Garcia fala agora desse achado em primeira mão, no texto abaixo, que elaborou especialmente para o Edgardigital. 

 

Carta da UFBA ao filósofo Bertrand Russell é encontrada em acervo

Em 1961, aos oitenta e nove anos, o filósofo Bertrand Russell é preso sob acusação de incitar a desordem pública. Na ocasião, ele liderava um movimento antiguerra e promovia uma campanha de desobediência civil contra as armas nucleares, tendo participado de vários protestos. Quando interpelado pelas autoridades britânicas e obrigado a assinar um termo de compromisso de “bom comportamento”, Russell se recusou e acabou preso. A notícia correu o mundo e despertou inúmeras manifestações de solidariedade. É nesse contexto que a UFBA, exercendo seu protagonismo característico, escreve ao filósofo.

O início da década de 1960 é um momento de intenso florescimento artístico-cultural e ativismo político na UFBA. Foi o tempo da chamada Geração Mapa, que precede o Cinema Novo e o Tropicalismo. Foi quando a UFBA sediou eventos importantes, como o I Seminário Latino-Americano de Reforma e Democratização do Ensino Superior, promovido pela UNE e pela UEB. Relatos apontam que Russell era uma personalidade respeitada entre os membros dessa comunidade acadêmica tão enérgica. Portanto, era de se esperar que a notícia de sua prisão despertasse reações. Agora, sabemos que essas reações foram materializadas em uma carta oficial da universidade.

Datada de 19 de setembro de 1961, a carta é assinada pelo então reitor Albérico Fraga, o vice-reitor Adriano Pondé, oito diretores das unidades e o professor Nelson de Sousa Oliveira.

Carta de Russell 4

 

Uma cópia carbono registra a resposta de Russell:

“9 October, 1961.

Dear Professor Oliveira,

            Thank you most warmly for your letter of 19th September and that of the Rector and Vice-Rector and eight Faculty Directors of the University of Bahia. I am very grateful both to you and to them and I should be glad if you would convey my thanks to them. It is a great encouragement to have such support in our present arduous campaign.

Yours sincerely,

Bertrand Russell

P.S.: I enclose a photograph, signed, as you request.”

É possível ver que Russell não apenas respondeu a carta (tradução no final do texto), como também anexou uma foto autografada, atendendo ao pedido de Nelson Oliveira.

A descoberta aconteceu em 2016, durante uma pesquisa realizada no Bertrand Russell Archives – um imenso e bem cuidado acervo abrigado pela McMaster University. Nele, há incontáveis registros sobre a vida e a obra de Russell.

A pesquisa, associada aos estudos realizados no Doutorado em Filosofia na UFBA, foi financiada pelo Governo do Canadá no âmbito do Emerging Leaders in the Americas Program. O tema foi a filosofia do atomismo lógico de Russell, que consiste, em linhas gerais, em um conjunto de teorias sobre o que é a realidade, sobre o conhecimento que temos da realidade e sobre como expressamos esse conhecimento através da linguagem.

Capa da carta Bertrand Russel

Capa de encaminhamento da carta a Bertrand Russell

Portanto, no acervo, a maior parte do tempo foi dedicada a esse tema, com a consulta de manuscritos e de uma bibliografia especializada. O tempo restante ficou para breves passeios em outros terrenos, como, por exemplo, as correspondências de Russell sobre a sua militância internacional em defesa dos direitos humanos. Foi aí que apareceu o nome da UFBA.

E foi aí que também apareceram os nomes de João Goulart e Castelo Branco.

Aliás, em breve, outro texto trará registros inéditos das contribuições de Russell para a resistência à ditadura militar no Brasil, dentre os quais está uma carta ao Marechal Castelo Branco, enviada pouco tempo após o golpe, em que Russell expressa preocupação com a prisão de um grande número de intelectuais e políticos de esquerda e sugere que eles sejam anistiados.

O trabalho que o Bertrand Russell Archives tem feito para tornar público tais registros é notável. Um crescente banco de dados online já conta com mais de 131 mil cartas catalogadas. Isso deve permitir que, nos próximos anos, algumas novidades sobre a vida de Russell venham à tona, principalmente a respeito de seu envolvimento político em questões internacionais.

A história do acervo, que agora completa cinquenta anos, é um tanto curiosa.

carta em carbono

Cópia carbono da resposta de Russell

Em 1967, Russell buscava financiar um tribunal internacional de crimes de guerra para investigar a guerra no Vietnã. Foi então que ele decidiu colocar seu acervo à venda. Prestes a fechar ótimo negócio com uma universidade estadunidense, Russell foi vítima de uma fake news. Um jornal revelou os valores da transação e, em seguida, afirmou que os recursos seriam enviados ao Vietnã do Norte. Com isso, a negociação foi suspensa e o valor de mercado do acervo despencou. Nenhuma universidade estadunidense parecia mais disposta a bancar uma controvérsia como essa.

 

Aproveitando as circunstâncias favoráveis para uma boa pechincha, a McMaster University começou a considerar a compra do acervo. E após acordar algumas medidas para prevenir uma vinculação da imagem da universidade às causas defendidas por Russell, ela acabou fechando a compra em 1968, por um preço interessante.

Apesar de ter arrecadado menos do que o previsto, Russell conseguiu viabilizar o tribunal internacional de crimes de guerra e, ao mesmo tempo, garantir um abrigo para seu acervo nos moldes que lhe interessavam.

Hoje, passados cinquenta anos, temos a certeza de que a McMaster University foi um bom destino para o acervo. O Bertrand Russell Archives se mantém muito organizado e cada vez mais acessível aos pesquisadores.

 

Links recomendados:

https://www.mcmaster.ca/russdocs/russell.htm

https://philos.humanities.mcmaster.ca/bertrand-russell-archives-50th-anniversary/

Traduções

1.Encaminhamento da carta da UFBA

Ministério da Educação e Cultura
Universidade da Bahia

Reitoria

Os signatários solicitam ao eminente pensador e filósofo, Sir Bertrand Russell, que os faça saber sobre o recebimento desta mensagem e, se possível, que envie uma foto sua autografada, dirigida ao prof. Nelson de Sousa Oliveira.

2. Resposta de Bertrand Russell

9 de outubro de 1961

Caro Professor Oliveira,

            Agradeço calorosamente pela carta enviada em 19 de setembro, em que assinam você, o Reitor, o Vice-reitor e oito Diretores das Faculdades da Universidade da Bahia. Sou muito grato tanto a você, quanto a eles, e eu ficaria feliz se você transmitisse meus agradecimentos. É um grande encorajamento ter um apoio como esse em nossa árdua campanha.

Meus sinceros cumprimentos,

Bertrand Russell
Obs.: Eu anexei uma foto autografada, como você solicitou.

 

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