Mesa com pioneiros debate cinco décadas da pós-graduação

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50 anos da pós-graduação na UFBA (6)

Os pioneiros da pós-graduação, professores Argolo, Aldy Brandão, Arlete Lima, Dora Leal Rosa e Eduardo Almeida, mais Thierry Lobão e Olívia Oliveira

Relatos sobre os primórdios da pós-graduação na Universidade Federal da Bahia, os avanços realizados até alcançar o estágio atual e perplexidades frente às incertezas do futuro marcaram os debates da mesa sobre os “50 Anos da pós-graduação stricto sensu na UFBA: anos iniciais e tendências contemporâneas”, realizada na manhã do último dia (18/10) do Congresso, no salão nobre da reitoria.

Além de apresentar o livro com o mesmo título da mesa, fruto de pesquisa, o evento sinalizou a presença notável que a UFBA ocupa na Bahia, possibilitada por seus cursos de pós-graduação que formam quadros especializados em todas as áreas, professores, pesquisadores, e respondem por mais da metade da produção científica do estado.

A mesa reuniu como palestrantes a responsável pela pesquisa sobre a pós-graduação, a ex-reitora Dora Leal Rosa, a professora aposentada do Instituto de Química, Aldy Brandão, a professora fundadora do Instituto de Matemática, Arlete Lima, o professor pioneiro da pós-graduação em Geociências, Roberto Argolo, o pioneiro da pós-graduação em Biologia, Eduardo Almeida, e o pró-reitor de Pesquisa, Criação e Inovação da UFBA (Propci), Thierry Lobão. Atuou como mediadora do debate, a diretora do Instituto de Geociências, Olivia Oliveira

De acordo com Thierry Lobão, “a produção de artigos científicos de pesquisadores dos diversos programas de pós-graduação, em funcionamento na universidade, representa 53,9% de um total de mais de 30.555 artigos originais do estado da Bahia desde 1945, segundo levantamento realizado na plataforma Web of Science”. 

“Tais avanços mostram a elevação do patamar das atividades de pós-graduação na instituição, devido a ações de incentivo, realizadas pela pró-reitoria de pós-graduação”, acredita Lobão.  Entre as iniciativas de incentivo, estão “os editais para professores visitantes que em 2018 conseguiu trazer 70 docentes, dos quais 50% deles estrangeiros, e para jovens doutores, o que em conjunto renovou substancialmente o quadro de professores da Universidade”.  Além disso, também existe o auxílio oferecido aos estudantes de pós-graduação que vão apresentar trabalhos em congressos e várias ações de apoio para dar suporte a fim de que os programas sejam melhorados e alcancem notas 5, 6 e 7 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), informou.

O crescimento da pós-graduação pode ser visto desde a sua implantação no ano de 1969. Dados estatísticos do cadastro de pós-graduação da Assessoria de Planejamento da UFBA, para o ano de 1974, registram que havia 88 estudantes matriculados em cursos de pós-graduação stricto sensu e atualmente, existem 6.847 cursando mestrado e doutorado. “Além das matrículas que experimenta um aumento contínuo e persistente, o nível de qualificação dos docentes é alto”, enfatizou o professor, justificando que hoje 75% do quadro de docentes da UFBA é composto por doutores e a maioria trabalha em regime de dedicação exclusiva para a pesquisa e o ensino”.

“A cada ano, pelo menos um novo curso de pós-graduação é aberto”, disse ele. Só neste ano de 2018, foram seis novos cursos aprovados pela Capes para a UFBA, dentre eles, o doutorado em Dança que é o primeiro na América Latina”, pontuou, lamentando “as tendências do momento atual que revelam uma configuração futura pouco positiva para a área da pós-graduação no Brasil. “Por isso, é preciso empreender ações para não barrar nossos avanços”, conclamou.

 

Os primórdios da pós na UFBA

Para chegar ao atual panorama, a pós-graduação percorreu um longo caminho na UFBA, que foi lembrando pela ex-reitora Dora Leal Rosa, idealizadora da pesquisa que reconstruiu a trajetória desde o dia 23 de novembro de 1967, quando foi aprovado o regimento para o funcionamento dos primeiros seis cursos de mestrado numa reunião do Conselho Universitário presidida pelo reitor, professor Roberto Santos. De acordo com a investigação, realizada juntamente com o professor Robert Verhine, “a pós-graduação na UFBA nasceu com a missão de ampliar a qualificação dos docentes que já ministravam aulas nos cursos de graduação da Universidade e deveriam oferecer disciplinas que cobrissem as cinco grandes áreas do conhecimento”.

Na época, foram designados os professores responsáveis para cada um dos seis mestrados:  Arlete Lima para Matemática; Alexandre Costa para Biologia; Antônio Machado Neto para Ciências Humanas; Raphael Selling para Química; Juarez Paraíso para Desenho e José Walter Vidal para Física, relatou Dora.  Mas apenas dois cursos começaram, efetivamente, a partir do ano seguinte, 1968.  “Dos cursos relacionados na portaria da Reitoria, somente Química e Ciências Humanas iniciaram as aulas, a partir do mês de maio de 1968.  Infelizmente, naquela ocasião, os mestrados nas áreas de Desenho e Física não foram implantados e em 1969 começaram a funcionar os mestrados em matemática, Biologia e Geociências.

Ela também destacou que anteriormente à resolução de 1967, a UFBA já tinha experiência com pós-graduação, mediante iniciativas isoladas, oferecidas por algumas unidades de ensino como cursos de doutoramento nas faculdades de Medicina e Direito e uma pós-graduação em Geofísica, impulsionada para as pesquisas na exploração de petróleo pela Petrobrás.  Mas a pós-graduação strictu sensu, que estava sob regulação da Câmara de Pós-Graduação da Universidade, regida por normas e requisitos do Conselho Federal de Educação, realmente completou 50 anos.

 

Política acertada

Citando relatórios oficias da época, a professora destacou que “foi acertada a política da UFBA em desenvolver o conhecimento nos domínios das ciências exatas e da tecnologia, pois era o setor do conhecimento humano que mais requisitava especialistas pesquisadores, na sociedade daquele momento”.  Em consonância, o cadastro de pós-graduação da Assessoria de Planejamento sobre o a demanda do ensino de pós-graduação na UFBA, registra que em 1969,  “a expansão da pós-graduação se deu na área das ciências exatas com o funcionamento de quatro programas – Geofísica, Geociências, Química e Matemática”.

O corpo docente à época era composto por 1.232 docentes, sendo que o regime de trabalho era de 12 e 24 horas de dedicação apenas e muitos desses professores,“tinham a universidade como uma atividade lateral”, apontou Dora. “Não havia dedicação exclusiva e nenhuma qualificação mais apurada”, disse ela, “daí, a exigência de qualificação em mestrado foi fundamental para a formação de um quadro com massa crítica, pois antes só eram horistas”, racionalizou.

O desejo de mudança e a insatisfação com o ensino da matemática impulsionaram a professora Arlete Lima a se dedicar, em 1955, a um curso na Universidade de São Paulo (USP), convidada como bolsista do matemático Omar Catunda. De volta a Salvador, ela foi convidada pelo então reitor Edgard Santos para estar à frente da fundação do Instituto de Matemática e Física (IMF), no ano de 1956.  Com muito bom humor, a octogenária professora emérita lembrou que “as aulas eram ministradas em Inglês.  Um Inglês muito ruim tanto dos professores estrangeiros como dos alunos. Mas ali já estavam presentes as tendências da contemporaneidade”.

Professores estrangeiros, principalmente da Universidade de Paris também atuaram no Instituto de Química, recém-criado em fevereiro de 1964 e com a pós-graduação instituída em 1960, lembrou a professora Aldyr Brandão.  Ela também destacou que, após a instalação do regime de tempo integral a partir dos anos de 1970,  o mestrado avançou substancialmente.

O professor Roberto Argolo, pioneiro da pós em Geofísica, atribuiu o sucesso da implantação do mestrado na área, em 1969, que não estava previsto na resolução da Reitoria, à existência de um grupo de pesquisa em Física Nuclear com atividade muito intensa.  De acordo com ele, ainda existe o grupo de pesquisa em petróleo que é um dos mais avançados no país, responsável pela formação de profissionais de destaque que atuam na UFBA e fora dela. Argolo também lembrou que em 1969, sete alunos ingressaram no mestrado e, em 1970, entraram três para o doutorado.

De acordo com a ex-reitora Dora, a partir da década de 1970, surgiram outros novos cursos de pós-graduação nas áreas de educação, medicina, física, botânica, patologia humana e saúde comunitária.

 

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