Livro de poesias de estudante da UFBA vence prêmio nacional de literatura

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Zulmira Alves Correia, estudante da UFBA, é autora do livro de poesias “As cartas de Maria”, que está entre os vencedores da 5ª edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura

Zulmira Alves Correia, estudante da UFBA, é autora do livro de poesias “As cartas de Maria”, que está entre os vencedores da 5ª edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura (Foto: Priscila dos Santos)

“Eu queria escrever sobre as histórias da minha família, das mulheres que me inspiram. É uma forma de preservar as memórias delas ”, conta a estudante do curso de design da escola de belas artes da UFBA Zulmira Alves Correia, ao refletir sobre sua motivação para escrever o livro de poesias As cartas de Maria, que está entre os vencedores da 5ª edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura e do 2º Prêmio Cepe Nacional de Literatura Infantil e Juvenil, promovido pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

As cartas de Maria é um compilado de histórias que ouvi quando menina, histórias que envolvem muitas Marias, minhas bisavós, ambas Marias, [histórias] do meu bisavô Manuel, da minha avó Tereza, meu avô Raimundo e minha mãe, Cícera”, explica ela, que mistura realidade e ficção na obra vencedora da categoria Poesia da premiação nacional.

A personagem principal, sua bisavó paterna, é definida pela autora como “uma moça de família que se apaixona por um andarilho que vendia ouro de casa em casa num lombo de um cavalo”. “Fugiram para o Crato (região do Cariri, no Ceará), ergueram uma casa de taipa e fizeram seus votos embalados pelo calor da fogueira de São João”, conta.

Cada poema do livro se apresenta em forma de cartas, escritas por sua bisavó Maria para a família durante o seu exílio. Os poemas são interligados, com sequência, meio e fim, e ajudam a contar a história. Neles estão confidências profundas de uma mulher calejada pela morte dos filhos que mal chegavam a nascer, sob o véu sombrio da cegueira, e, muito cedo, da morte.

Através das cartas de Maria, o livro fala também da vida sertaneja, da luta diária contra a seca, da fé e das crenças de um povo em Padre Cícero. São destacadas ainda a força feminina e as dificuldades enfrentadas por essas mulheres no seu dia-a-dia.

A artista apresentou o projeto "Respiros Poéticos: percursos, poesia e materialidades", na Galeria do Aluno da EBA, em setembro do ano passado

A artista apresentou o projeto “Respiros Poéticos: percursos, poesia e materialidades”, na Galeria do Aluno da EBA, em setembro do ano passado

Zulmira, que não chegou a conhecer a bisavó, recorda dos relatos sobre as dificuldades enfrentadas por ela, que sofreu abortos espontâneos e ficou cega muito cedo, e acreditava que os infortúnios enfrentados por ela seriam uma espécie de maldição, pelo fato de ter fugido de sua casa, em Alagoas. Algo que se amenizou após o nascimento de seu primeiro filho.

A autora destaca ainda a importância que teve em sua formação o seu avô – falecido há 7 anos e a quem ela dedica o livro – que foi o responsável por lhe contar muitas dessas histórias. “80% das histórias que estão no livro são reais”, afirma.

Com apenas 22 anos, a poeta cearense radicada na Bahia foi premida já no seu livro de estreia. Morando em Salvador desde 2016, iniciou o curso de design na Escola de Belas Artes da UFBA (EBA). Na graduação, investiga o livro como objeto em seus desdobramentos através da relação têxtil e editorial. Ela iniciou pesquisas em livros através da experiência de estágio na Edufba (Editora da Universidade Federal da Bahia), e na editora universitária de livros experimentais Tiragem: Laboratório de livros. A pesquisa têxtil é feita através da Teciteca, projeto de catalogação têxtil e técnicas de produção artesanais

No ano passado, a artista apresentou o projeto “Respiros Poéticos: percursos, poesia e materialidades” (@respiros.poeticos), em que uniu tipografia, poesia e bordado para compor a exposição e dar luz à forma artística da tipografia, que, de acordo com ela, vem perdendo visibilidade. Um trabalho artístico multifacetado, que pôde ser conferido na Galeria do Aluno da EBA como resultado de sua primeira exposição individual enquanto artista e poeta. O projeto contou com a orientação dos professores Taygoara Aguiar e Evandro Sybine, da EBA, da professora Laura Castro, do Instituto de Humanidades Artes e Ciências (IHAC), e da artista visual Lia Cunha.

Confira matéria  da TV UFBA sobre o projeto artístico Respiros Poéticos: percursos, poesia e materialidades, apresentado por Zulmira Correia, na Galeria do Aluno da Escola de Belas Artes:

Sinestesia

A jovem artista é também entusiasmada pela música, canta e toca instrumentos como violão e ukulele. Em sua trajetória, mistura diferentes linguagens, artes plásticas, literatura, música, que interagem em sua produção artística. “Acho que é uma coesão de tudo, poesia e música se ligam de forma muito bonita, eu toco e já vem um trecho, que se torna o verso, que logo se transforma numa poesia. Não imagino um sem o outro”, avalia.

Sobre o projeto desenvolvido na EBA, em que já bordava poesias em livros, a estudante avalia que “esse projeto me despertou para a poesia e me deu asas para começar a escrever”. O lançamento da exposição artística aconteceu no mesmo período em que ficou sabendo da abertura do edital para a premiação literária.

“Vi o edital aberto [para o concurso] três semanas antes do encerramento do prazo”, lembra a estudante, que ficou interessada com a possibilidade de escrever sobre temas relacionados à cultura brasileira. Sua obra reflete muito da religiosidade e do misticismo da região em que viveu, onde existe grande devoção por Padre Cícero. O nome da sua mãe, Cícera, inclusive, é uma homenagem ao religioso.

Ela ressalta o amor que nutre pela escrita e leitura desde criança, incentivada, principalmente, pela sua mãe professora. E conta que começou a escrever aos 13 anos. Publicar um livro sempre foi um sonho desde a infância.

A estudante de Design, escreve poesias, canta e toca instrumentos musicais: “Acho que é uma coesão de tudo, poesia e música se ligam de forma muito bonita. Não imagino um sem o outro”, avalia

A estudante de Design também escreve poesias, canta e toca instrumentos musicais: “Acho que é uma coesão de tudo, poesia e música se ligam de forma muito bonita. Não imagino um sem o outro”, avalia

“É como se as histórias já estivessem na minha cabeça. Eu escrevia 10 páginas em algumas poucas horas”, recorda-se. “Me encontrei na poesia, que flui tão rápido e é algo intrínseco a mim”, afirma a autora, adiantando que já está escrevendo uma segunda edição do livro, em que reunirá memórias de sua mãe.

Sobre a emoção de vencer um prêmio nacional com o seu primeiro livro, ela confessa: “Não acreditei, chorei meia hora seguida. Nunca tinha publicado nada antes. Escrevi os poemas em duas semanas e me inscrevi sem muitas expectativas. Foi um sonho realizado”, celebrou a mais nova poeta.

Na edição 2020 do Prêmio Cepe, também foram premiados pela Companhia Editora de Pernambuco a obra A importância dos telhados, de Vanessa Molnar Maluf, na categoria Romance; e o título Erros, errantes e afins, de Emir Rossoni, vencedor na categoria Contos. O prêmio de literatura infantil ficou com o livro A biblioteca de Bia, da autora Viviane Ferreira Santiagoe o de literatura juvenil foi para a obra de Contos com gigantes, de Carolina Becker Koppe.

Os vencedores nas categorias Romance, Conto e Poesia recebem R$ 20 mil cada um, e os do Prêmio Cepe Nacional de Literatura Infantil e Juvenil, R$ 10 mil em cada categoria. Na edição deste ano, os prêmios tiveram mais de 1.500 inscritos em todo o Brasil. As obras premiadas serão publicadas pela Cepe Editora até o final do ano.

Sobre a sua poesia, Zulmira Correia define assim: em meus versos, foi como se cada um deles dissesse:

Conte histórias sobre mim, 

uma moça em fuga, 

que encontrou seu amor, 

que ensinou na escola, 

que carregou um mundo em suas cartas. 

Conte-lhes também da caixa de segredos, 

onde deixo lembranças minhas para o futuro.

 

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