Milton Hatoum: toda literatura tem um gesto de solidariedade

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A mesa “Literatura e Experiência: Romances em Tempos Sombrios” trouxe ao Congresso Virtual da UFBA 2021, como convidado especial, o escritor e professor amazonense radicado em São Paulo Milton Assi Hatoum, que foi entrevistado pelas professoras Mirella Márcia Longo Vieira Lima e Antônia Torreão Herrera, do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

Durante uma hora e meia, o autor de “Relato de um Certo Oriente” – sua obra de estreia na ficção e já vencedora do prêmio Jabuti, como melhor romance, no ano de 1989 – revisitou os mais de trinta anos da sua vasta criação literária, reconhecida nacional e internacionalmente. Provocado pelas professoras baianas, Hatoum falou sobre lugares sombrios, os próximos romances, interioridades e fatos externos e sobre a criação dos seus personagens. Mas, sobretudo, mostrou como há um grande gesto de amor e solidariedade em toda literatura.

Milton Hatoum foi apresentado pela professora Mirella Márcia como um intelectual “com o peso e o valor que o termo adquire no final do século XIX”: o escritor que também traduz, enquanto constrói a sua literatura, entre contos, artigos e, sobretudo, romances; o professor – no Amazonas e nos Estados Unidos – que também experimenta a arquitetura, enquanto engendrava uma obra que desperta o interesse de outros meios que não estritamente os verbais, como são o caso, por exemplo, do seu segundo romance, “Dois Irmãos”, escrito em 2000, traduzido para doze idiomas e adaptado para televisão, teatro e quadrinhos, e da sua primeira novela, “Órfãos do Eldorado”, de 2008, adaptada para o cinema.

A professora observa, entretanto, que o romance ganha, com o tempo, o centro das atenções na vida e obra do autor, “à serventia de um esforço de memória” e à visitação ao passado, transformando, a um e à outra, em literatura e experiência. Finalizando a sua primeira intervenção, Mirella discorre, brevemente, sobre os livros de Hatoum escritos até 2013.

Já a professora Antônia Torreão inicia a sua participação na mesa falando sobre a trilogia “O Lugar mais Sombrio”, cujo primeiro volume, “Noite da Espera”, lançado em 2017, conta a formação de um grupo de jovens moradores de Brasília, entre 1960 e 1970, os chamados “anos de chumbo”. Aqui, Antônia ressalta a face sombria da personagem principal, o jovem paulista Martim, que se muda para Brasília, capital federal recém-construída, com o pai, depois da separação traumática da mãe, onde passa a sua juventude em plena ditadura militar.

Em “Ponto de Fuga”, de 2019, segundo volume da trilogia, a professora comenta o retorno do protagonista a São Paulo, sua cidade natal, onde vai estudar arquitetura na USP e morar em uma república de estudantes, na Vila Madalena, conhecendo novas pessoas e experimentando outras vivências e melancolias, agora separado do pai, dos amigos que deixou em na capital federal e da atriz militante Dinah, com a qual teve uma relação que termina estremecida. Tudo isso, enquanto o regime autoritário torna-se ainda mais difícil e sombrio.

Para Antônia, esse lugar mais sombrio repercute nos dias de hoje de uma maneira muito forte, nesses tempos de inquietude e melancolia em que vivemos. E aqui ela cita a escritora Hannah Arendt, autora de “Homens em Tempos Sombrios”, livro de 1968, onde a autora alemã reúne ensaios de pessoas que viveram o totalitarismo nazista e stalinista. No final da sua primeira intervenção, Herrara recita os versos do dramaturgo alemão Berthold Brecht, que começa o seu poema “Aos que vierem depois de nós” com a profecia: “Realmente, vivemos muito sombrios”.

Assista à mesa:

Com a palavra, o autor

Milton Hatoum diz que o lugar mais sombrio são, na verdade, vários lugares sóbrios, respondendo a uma pergunta da professora Mirella “São lugares para onde convergem os sentimentos, afeto, política, amor, desamor, frustrações, o sofrimento. São regiões de sombra aonde chegamos depois de uma certa etapa da vida. Ponto de passagem para a vida adulta, quando anseios, desejos, sonhos e expectativas começam a entrar em uma região de sombra que é mais forte do que a própria luz. É momento de desilusão. Busca pelo sentido da vida. Plenitude que não se realiza. Transformando esse lugar em ponto de fuga”.

O que será?

Respondendo a uma pergunta da professora Antônia, que “sugere” um spoiler do terceiro volume da trilogia, que ainda não foi publicado, Hatoum adianta – muito pouco – que o que será contado, dessa vez, deverá trazer desvendamentos e esclarecimentos, mantendo-se, entretanto, alguns mistérios. “Porque você nunca ‘entrega’ tudo.” Já escrevendo um quarto romance, “sem ser necessariamente um quarteto”, Hatoum volta a adiantar – e volta a adiantar muito pouco – que este, sim, terá um forte traço detetivesco e revelador, ao contar a historia de uma amiga de Martim.

Dentro e fora

Sobre como combinar a experiência pessoal e como dar forma a essa “interioridade” do narrador, com o que chama de “os fatos externos”, o autor lembra a palestra de abertura do Congresso, proferida pela filósofa Marilena Chauí, quando ela, segundo Hatoum, diz que a pesquisa tem que ter “interioridade” que, como o nome já diz, está dentro de você, que é o latente e profundo, e equilibrar isto com o interesse externo. “Assim é no romance, explica o escritor, o que procuro fazer e manter o equilíbrio entre alma e fatores externos”. E arremata: “A ficção já é uma vida transformada”. A fantasia verdadeira ou a verdadeira fantasia”.

“Essas pessoas”

A professora Mirella quis saber sobre o processo de criação do autor ou “como é que vêm essas pessoas tão densas e tão reais”? Hatoum responde: “Os personagens da ficção nunca são inspirados em uma pessoa só ou em alguém, aqui citando o crítico literário Antonio Cândido, no seu livro ‘A Personagem de Ficção’. Ele não é jogado. Você o trabalha, evita o maniqueísmo, porque ele não pode ser o mesmo o tempo todo. Qual é o caráter deste personagem? Quais as suas características? Como ele está relacionado com os outros? Dá trabalho, arredondar e dar complexidade a esses personagens”.

A hora da caneta

Por outro lado, Hatoum lembra que há 500 anos de romance, “fora as narrativas mais antigas”, e muitos desses personagens já estão nos livros, já estão na literatura, em várias literaturas, há muito tempo..

“Você se alimenta de outros personagens e isto faz parte da literatura, apesar de você ter o seu próprio universo ficcional”.

“Mas às vezes eles (os personagens) aparecem sem explicação, porque não existe explicação para tudo. É o lugar do enigma e ele não pode ser decifrado.”

“Nem tudo é previsível. Há coisas que não existem antes, que são criadas ‘na hora da caneta’, que é quando o livro se faz.”

Carta de amor

Ainda discorrendo sobre o tema “construção dos personagens”, Milton Hatoum diz que muitos deles “vêm de amizades” daquela época, referindo-se aos tempos da ditadura, passados, como o seu personagem Martim, na capital do país. “Brasília era de uma solidão absurda para quem não tinha família. Morei em um quarto alugado na casa de um casal baiano. Eles eram negros e em algumas ocasiões nos davam comida baiana, vocês sabem como os baianos são generosos. Mortos de alegria, eu e mais dois colegas amazonenses que moravam juntos, tirávamos a barriga da miséria na maior cara de pau.”

“Também os amigos que sobreviveram (à ditadura), eles me deram tudo, eles me ajudaram com as suas mensagens e conversas. Muitos sobreviveram e estão na luta, estão ativos até hoje. No fundo, eu estava escrevendo uma carta de amor para eles”, diz o escritor, referindo-se ao período em que escrevia os livros já publicados da trilogia “O Lugar mais Sombrio”. “Mas muitos não aguentavam e se suicidaram, continua, pessoas que tinham sido presas, como o Frei Tito de Alencar, que se suicidou na França, e que é citado. Outras eram denunciadas pelas próprias famílias e muitas vezes a repressão da família era maior que a repressão do Estado”.

Como um aluvião

Hatoum lembra, provocado aqui pela professora Antônia Herrera, que, entre os anos 60 a 70, a juventude ansiava por liberdade, queriam confrontar regras, normas, moralidades e religião, rompendo com a família, nesse momento de explosão. “Os livros que a gente lia, naquela época, falavam dessas coisas. Nos anos 60, os anos da geração “beat” e do “free speach” (discurso livre), eu trabalhava em Berkeley, na Califórnia, no olho do furacão. Depois veio maio de 68 na França e, enquanto isso, no Brasil tinha uma ditadura, mas também tinham as drogas e a liberdade sexual. Veio tudo junto como um aluvião, como uma lava vulcânica.”

A Flaubert, com carinho

Provocado pela professora Mirella, Hatoum reconhece que “O Tempo mais Sombrio”, lido aqui como um livro único, “mais fornido”, seja um romance de formação de autor que também bebe na fonte de francês Gustave Flaubert, mais especificamente do livro “Educação Sentimental”. “Esse é o meu grande romance da juventude e um dos meus autores preferidos. Há muito da ficção de Flaubert na ficção de “Noite de Espera.”

Gesto de solidariedade

Para o escritor, o futuro da literatura depende do leitor do futuro e hoje ainda “nem sabemos se este planetazinho vai continuar existindo. Este futuro será este passado que continuará sendo lido enquanto existir a humanidade. Daqui a cem anos, os sertões poderão ter acabado, mas as pessoas continuarão a ler Grande Sertão: Veredas”, referindo-se ao romance de Guimarães Rosa.

E finaliza respondendo a uma pergunta do chat: como a literatura e o romance podem nos ajudar nesses tempos sombrios de pandemia? “A literatura não dá saúde, nem fórmulas de bem viver, mas, no fundo no fundo, lastreIa isso tudo, e há sempre um grande gesto de solidariedade humana e amor. Isto é o que é lindo na literatura”, encerra, com emoção.

Hatoum como referência

Na comunicação “O Trabalho de Melancolia em A Noite da Espera e Ponto de Fuga”, a mestranda em Literatura e Cultura da UFBA Camila Araujo Gomes se “apropria” de duas obras do escritor Milton Hautom que, para ela, “jogam luz nos estilhaços mais recentes do país, durante a ditadura civil e militar e nos seus desdobramentos fantasmagóricos no presente”. À estudante interessa fazer um recorte que examine a melancolia experienciada pelo narrador protagonista Martim e identificar os seus motivos, durante a trajetória do personagem, em diálogo com o momento histórico vivido por ele.

A comunicação de Camila foi feita durante a mesa “A Literatura Brasileira Contemporânea e as Novas Dimensões do Ficcional”, resultado do trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Estudos da Crítica (NEC), coordenado pela professora Rachel Esteves. No momento, os componentes do NEC estão se debruçando sobre a literatura que tem como tema a ditadura militar no Brasil. Segundo a professora Monica de Menezes Santos, que apresentou, na mesma mesa, a comunicação “Literatura e Política: Uma leitura de O Corpo Interminável”, da escritora paulista Claudia Lage, “essa mesa discute como, em algumas obras contemporâneas, os autores produzem rasgos no tecido histórico e, a partir de um processo de perlaboração, engendram outras narrativas sobre o real e, desse modo, se inserem ética e esteticamente numa esfera pública de memória.”

Da mesma mesa também participaram o mestrando em Literatura e Cultura Rafael Gurgel, que analisou, sob a ótica da forma, o livro “A Resistência”, de Julián Fuks, romance que conta a historia de uma família de intelectuais argentinos que vieram para o Brasil depois do golpe militar da Argentina, em 1976. Já o professor de Literatura Brasileira Saulo Silva Moreira encerra os trabalhos dessa mesa com a comunicação “Converso sobre qualquer coisa”, parte da sua tese de doutorado intitulada “Amizade, talvez a gente se veja por aí: estudos e práticas da amizade”. Para Saulo, o entendimento do que sejam essas novas dimensões do ficcional, “não pode ser outra coisa senão o nosso corpo”.

Assista à mesa:

Um corpo que narra

A literatura de terreiro, termo forjado pelo professor José Henrique de Freitas Santos, do Instituto de Letras da UFBA, foi tema apresentado pela mesa “Oríkì Literatura – Terreiro Yorùbá”, que contou também com a participação do pesquisador Adinelson Farias de Souza Filho, professor do mesmo Instituto. Na sua comunicação, o professor José Henrique explicou que esta é uma literatura desde o corpo, calcada na filosofia da ancestralidade dos povos yorubanos, mas que não pode ser confundida como uma literatura sobre o terreiro, aqui entendido como uma espécie de plataforma, onde essa literatura se constrói e se edifica para além da escrita.

Elementos como um tambor, um toque, um som, uma canção, um ruído, uma dança, por exemplos, integram, literalmente, a sua estética. Tudo isso é importante para a sua composição. Esta literatura, explica ainda o professor, enriquecido pelos estudos teóricos dos professores Eduardo Oliveira e Muniz Sodré, conectam-se com valores como a ancestralidade, a ludicidade, a corporeidade, a religiosidade, o axé, a oralidade, dentre muitos outros valores civilizatórios afro-brasileiros. E forja-se sobre as bases de um tempo que não é linear, mas circular e espiralar, e em espaços para além do que a teoria mimética clássica entende como sendo real.

Em outras consciências, em transe, por exemplo, esta narrativa é completamente legível pelas pessoas que compreendem o movimento dentro do espaço do próprio terreiro. “E o nosso corpo apresenta toda esta estética. Dançamos o nosso nome. Eu posso ser apresentado por este suporte que é o nosso corpo”, garante o professor Adinelson, que durante a mesa também falou sobre os orìkí, gênero literário dos povos iorubanos e presente na literatura brasileira.

Assista à mesa:

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