Itamar Vieira Junior: “Me emociona ver ‘Torto Arado’ junto a livros de autores estrangeiros que, às vezes, não nos dizem nada”

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O escritor Itamar Vieira Junior

O escritor baiano Itamar Vieira Junior, autor do sucesso literário “Torto Arado” (premio Jabuti de melhor romance literário do ano de 2020) tinha, segundo ele, pelo menos três bons motivos para estar emocionado no dia da sua participação na mesa “Torto Arado”, no Congresso Virtual da UFBA. O ex-aluno da UFBA tinha recebido uma mensagem da assessoria de Lula, com uma mensagem e imagem do ex-presidente segurando o livro, em sinal de recomendação; tinha também recebido a noticia de que a publicação ganhará sete novas traduções; e tomara conhecimento de que seus leitores entusiastas, agora, são conhecidos como “tortoaretes”, numa alusão ao nome do livro.

Em contraponto a todo este alto astral, Itamar lembrou, contudo, a triste noticia de que, naquele 24 de fevereiro, o Brasil passava a marca de 250 mil mortes por Covid-19, às vésperas de o país completar um ano imerso na terrível pandemia. O escritor, mais uma vez, fez questão de ressaltar a importância da Universidade Federal da Bahia na sua formação, repetindo a frase que já se tornou bordão: “Aonde eu vou, levo a UFBA comigo”. “Foram 17 anos passados na UFBA como discente e de lá para cá carrego muita coisa dessa minha alma mater”, afirmou.

Ainda nesta matéria:

O estudo e a organização do acervo do escritor baiano Ildásio Tavares (1940-2010) foi o tema da mesa “Acervo de Escritores Baianos – Ildásio Tavares”.

Mesa “A que será se Destina?”: um olhar sobre a obra de Carolina de Jesus, moradora de rua e catadora de papel que, a partir dos anos 1950, na cidade de São Paulo, resolve provar que não são somente as pessoas escolarizadas que “podem” escrever.>>>

A mesa contou com a participação da antropóloga e professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA Maria Rosário Gonçalves de Carvalho, orientadora da tese de Itamar, mas que fez questão de dizer que participava na mesa na condição de leitora, compartilhando suas impressões sobre a obra.

Mediada pelo compositor e professor da Escola de Música da UFBA Guilherme Bertissolo, a mesa teve inicio com a fala de Itamar contando que se formou em geografia na UFBA, em 2005, com a monografia “A expansão de Salvador: a produção do espaço urbano em uma via metropolitana”, e que, em 2000, foi o primeiro bolsista da Bolsa Milton Santos, que deu origem ao Grupo de Pesquisa Produção do Espaço Urbano (PEU) – que se mantém com as bolsas oferecidas pela professora Marie Hélène Santos, viúva de Milton Santos, para apoio a estudantes de baixa renda.

“Naquela época não tinha muitos recursos mas, apesar disso, foi em um ônibus antigo da universidade que pisei meus pés pela primeira vez em um assentamento de reforma agrária e em uma colônia japonesa de migrantes, em Ituberá. Foi assim que conheci o universo do campo”, recorda.

Em 2007, dedicado à geografia urbana, Itamar concluiu o mestrado com a dissertação “A valorização imobiliária empreendida pelo Estado e mercado formal de imóveis em Salvador”, sob orientação da professora Maria Auxiliadora da Silva, do Instituto de Geociências. Nesse momento, ele conta ter interrompido os estudos quando, já como servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), teve de se deslocar para o Maranhão, onde trabalharia durante três anos, em contato com grupos quilombolas, indígenas e ribeirinhos. De volta à Bahia, Itamar concluiria, dez anos depois, o doutorado em estudos étnicos e africanos no Pós-Afro/Ceao, com tese sobre a formação de comunidades quilombolas no Nordeste brasileiro, intitulado “Trabalhar é tá na luta”: vida, moradia e movimento entre o povo Iuna, Chapada Diamantina”.

O sucesso do livro

“Torto Arado”, que começou a ser escrito no fim do mestrado,”depois que tudo acaba e você fica muito melancólico”, e foi lançado, inicialmente, em Portugal. “Todavia, ser publicado aqui no Brasil, afirma, nos conecta com este país tão profundamente maltratado. Essa é uma vitória da literatura brasileira e quando lembro a historia que o livro conta, me emociona mais ainda ver “Torto Arado” junto a livros de autores estrangeiros, que às vezes não nos dizem nada. O Brasil é um país que tem um passado de injustiça social pela frente, já disseram. Este é o livro que eu precisava escrever”, garante Itamar.

Com mais de 70 mil exemplares vendidos, “Torto Arado” tem um histórico de aceitação e boas vendas. Além do prêmio LeYa, atribuído ao romance em 2018 (premiação literária de maior prestigio para originais em língua portuguesa) e do premio Jabuti de 2020, “Torto Arado” também recebeu, em 2020, o prêmio Oceanos (ex- Portugal Telecom), que premia os melhores da literatura em língua portuguesa. Vieira foi também finalista, na mesma categoria, no 60º Premio Jabuti, em 2018, com o livro de contos “A oração do carrasco”. E o primeiro livro do autor, publicado em 2012, o livro de contos “Dias”, foi vencedor do Concurso XI Projeto de Arte e Cultura, uma premiação local.

“É uma história antiga, conta Itamar, influenciada pelos romances brasileiros dos anos 30 e 40, que nasceu quando eu era ainda um adolescente. Mais adulto, quando retomei o projeto, agora voltado mais para o campo da ficção e da memória, o livro toma forma de romance que tem o interior da Bahia, mais especificamente a região pantanosa da Chapada Diamantina como cenário, através da voz de duas irmãs Bibiana e Belonísia, em uma comunidade de trabalhadores rurais.Toda a minha experiência vivida entre eles constitui no universo do romance.”

A antropóloga Maria Rosário de Carvalho, orientadora da tese de Itamar

A luta pelo chão

“Um grande livro, em algum momento, ganha uma autonomia do seu autor – rompendo com essa relação metonímica – o que é algo extraordinário porque demonstra a força do livro. Eu orientei a tese, o livro se orientou por ele mesmo. Uma tese é uma tese, um livro é um livro. Livro tem mais voo, é muito mais livre. E aqui estou falando do livro, das minhas considerações como leitora e que não são razões de uma crítica”.

A declaração é da professora Maria Rosário de Carvalho, que, na mesa, demonstrou como o livro se perfila dentro da literatura brasileira, acrescentando que ao mérito literário, nesse caso, adiciona-se um valor adicional: a do autor que vocaliza a historia de homens, mulheres e crianças, “seres encantados”, que são humanos ou quase humanos, que são oprimidos e que criam as condições históricas para a sua libertação.

“Não são histórias de vencedores e vencidos”, afirmou Rosário. “O tom que autor quis imprimir não é esse, mas o de buscar demonstrar como uma pequena comunidade camponesa poderia se libertar de várias formas de opressão que ameaçavam prosseguir engendrando o circulo opressivo que só um milagre poderia romper. Neste sentido Torto Arado é um romance histórico. Não é regional. Ao contrário: é passível de ser contextualizado em qualquer lugar desse país”.

Para Rosário, também é importante verificar como uma escrita que começou há tanto tempo, aqui se considerando incluídos o tempo da academia e o tempo do trabalho no campo, tem tão boa receptividade nos dias de hoje, com a sua narrativa fluída capaz de ser entendida pelos camponeses que lhes emprestaram, em sentido muito figurado, as suas historias.

Analisando personagens chaves da narrativa de Itamar, como Zeca Chapéu de Couro, Donana, Salú, as irmãs Bibiana e Belonísia e o primo Severo e, “lateralmente”, a personagem da “encantada” Santa Rita Pescadeira, personagens que cobrem três gerações, a antropóloga vai destacando os aspectos que fazem de Torto Arado o livro que, na sua leitura, conta a história de um Brasil contemporâneo, principalmente através das vozes de ”mulheres altivas, discretas, mas com uma força muito grande, personagens complexas, que não são simples”.

“Algumas pessoas têm a dificuldade de identificar o período histórico do livro. Não é o período colonial, que já ficou lá para trás, mas o Brasil de hoje, que continua vivendo situação muito opressiva no campo com a desautorização, por este atual governo nefasto, da Reforma Agrária”, afirma a antropóloga. “Outras marcações apontam para essa contemporaneidade, como a utilização de velas e candeeiros, quando 80% da população eram de excluídos da eletricidade, situação que só se modifica com o programa Luz Todos, que é de 2003, no governo do presidente Lula. As aposentadorias rurais, mesmo sem o registro de trabalho começam o ocorrer, assim como o Ensino Supletivo, oferecendo aberturas para que essas pessoas absolutamente oprimidas saiam da marginalidade.”

Para a professora, os personagens nunca alienam os seus bens, que são a vontade e liberdade “que lhes foram alienadas em troca de um lugar para morar”. “Eles, impotentes, sabem que estão sendo espoliados”, afirma Rosário, observando que faltam-lhes mecanismos libertadores, mas que em algum momento, por falha do sistema, este interstício é apresentado. Para Rosário, esse interstício, no caso, é a Constituição de 1988, que dá direito de propriedade preexistente, assegurando por lei o lugar de moradia e de trabalho, remontando à época dos quilombos.

“Se a minha leitura está correta, o cativeiro só foi eliminado, em parte, pela posse da terra ou de uma propriedade coletiva”. Esse é o desfecho de uma luta pela terra que tem mais de um século, conclui Rosário.

Respondendo ao chat

Moderador da mesa, o professor Guilherme Bertissolo também deixou as suas impressões sobre o livro, ressaltando como Torto Arado consegue traduzir o espírito do nosso tempo em uma narrativa que se entrelaça com romances clássicos dos anos 1930. E, como gaúcho que é, não poderia deixar de citar Érico Veríssimo (1905-1975), autor de “O Tempo e o Vento”, autoria e obra muito significativas na construção da narrativa de Itamar, o que é reconhecido pelo próprio escritor.

Vieira aproveitou para, respondendo a uma pergunta do chat – a Mesa teve 1.500 visualizações -, questionar a caracterização do livro, por alguma crítica acadêmica, como sendo uma obra regional, dizendo que essa leitura não condiz mais com a nossa realidade. “Tudo o que não está no eixo-Rio-São Paulo parecia ser regional. [A história de “Torto Arado”] pode ser em uma comunidade em qualquer lugar do Brasil, o que conta é a centralidade de suas vidas”.

Itamar ressaltou também, respondendo a outra pergunta do chat, a importância das mídias sociais na divulgação da sua obra, reconhecendo que as redes facilitaram e ajudaram a colocar o livro no patamar em que se encontra hoje. E aconselhou muita leitura aos jovens e muita leitura de trabalhos etnográficos aos jovens leitores estudantes, “estudos que podem ser lidos como um romance”, pela capacidade que essas obras possuem de construir um narrativa a partir dos sujeitos abordados.

Enquanto prepara uma sessão virtual, com professores de escolas rurais e representantes das comunidades da Chapada Diamantina retratadas no livro (“em movimento de retorno às pessoas que deram origem à sua obra”) Itamar Vieira Junior continua um servidor público, trabalhando todos os dias no INCRA e “escrevendo nas horas vagas”.

A que será que se destina?

O primeiro verso da música Cajuína, de Caetano Veloso inspirou as professoras Rilmar Lopes da Silva, Sandra Maria Marinho Siqueira e Márcia de Oliveira Sales, da Faculdade de Educação (Faced) da UFBA, a organizarem e participarem da mesa “A que será se Destina? A produção Literária de Carolina Maria de Jesus”, durante o Congresso Virtual da UFBA. A atividade propunha um olhar sobre a obra de Carolina de Jesus, moradora de rua e catadora de papel que, a partir dos anos 1950, na cidade de São Paulo, resolve provar que não são somente as pessoas escolarizadas que “podem” escrever, segundo a professora Rilmar Lopes.

As intervenções questionaram o porque dessa produção literária não ser estudada nas escolas publicas brasileiras, embora isso aconteça na Alemanha, por exemplo, quando se quer explicar o significado da palavra “favela”, segundo Sandra Marinho. Foi por conta disso que elas resolveram estudar a autora na Faced, na disciplina Educação de Jovens e Adultos, o que inclusive resultou em uma instalação montada na unidade e em diversas escolas públicas de Salvador.

Assista à mesa:

Conservando a memória

O estudo e a organização do acervo do escritor baiano Ildásio Tavares (1940-2010) foi o tema da mesa “Acervo de Escritores Baianos – Ildásio Tavares”, que aconteceu no Congresso da UFBA, com participação das professoras Mabel Meira Mota, Ligia Guimarães Telles e Rosa Borges e do professor Arivaldo Sacramento de Souza, do Instituto de Letras da UFBA.

A Mesa fala sobre os estudos e organizações arquivísticas da obra de dois autores baianos Ildásio Tavares e Judith Grossman (1931-2015), realizado pelo projeto Lugares de Memória, sob a coordenação da professora da UFBA Evelina Hoiesel, mas que aqui se detém, especificamente, na obra de Ildásio. Sua produção é analisada do ponto de vista da arquivística, da filologia e como criação literária, destacando-se, aqui, a dramaturgia.

Assista à mesa:

 

 

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