Urania Tourinho Peres: “Encontro a presença da UFBA em todo acontecer ao longo da minha vida”

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A Universidade Federal da Bahia outorgou o título de Doutor Honoris Causa à psicanalista Urania Maria Tourinho Peres, em cerimônia virtual, realizada na noite de 08 de abril (2021), presidida pelo reitor João Carlos Salles e com a presença do vice-reitor Paulo Miguez. A sessão solene foi transmitida pelo canal da TV UFBA, no YouTube.

Salles lembrou Sigmund Freud, em considerações feitas pelo criador da psicanálise sobre a relação entre esta e a Universidade, em específico se a Psicanálise deveria ser ensinada na Universidade. Para o reitor, a UFBA, e outras Universidades, já resolveu, “embora ainda muito acanhadamente”, esta questão, tecendo um espaço comum entre a prática psicanalítica e a academia. “Na nossa cidade, disse, a Psicanálise e Universidade se conectam, creio que uma e outra se solicitam”, em uma “trama comum” nada recente: “O Colégio [de Psicanálise da Bahia, criada por Urania] foi herdeiro de um processo geracional que tomou corpo no tempo do reitor Edgard Santos, quando a Universidade Federal da Bahia foi criada”.

De lá para cá, segundo Salles, esses laços se consolidaram através do exercício de uma Universidade estendida, plena e crítica, que vai além das salas de aula e que não é unilateral, no seu modo singular de ser, acolhendo paradoxos e eliminando fronteiras, fortalecendo assim as semelhanças com a prática freudiana. Para o reitor, este é um bom momento, um bom sinal, do modo como se avançou e se consolidaram os laços para a criação de um “corpo, de uma escola, de um espaço, um fórum, círculo, associação ou um colégio comum às nossas dimensões”. A Psicanálise, continua, conduzida por mãos como as de Urânia, e acolhida pela nossa Universidade, é decisiva para a eliminação de fronteiras antes ineludíveis. Por isso a nossa gratidão e reconhecimento.”

Assista à cerimônia, na íntegra:

“Receber esse título”, Urania agradece, “é um grande reconhecimento e sabemos da importância desse movimento que vem do outro e que nos identifica e nos constitui. É assim desde que nascemos. As palavras que nos são endereçadas nos qualificam. Somos falados antes de sermos falantes. Ao meu nome acrescenta-se agora um qualificativo que sinaliza a honraria maior de nossa Universidade e, assim sendo, sei que sairei dessa solenidade modificada, e com a certeza da importância e da responsabilidade desse momento”.

Adoecimento do mundo

Logo no inicio do seu discurso, a psicanalista homenageada declara se sentir convocada a expressar o seu lamento pelo que define como o “adoecimento do mundo.” “A pandemia é presente, diz, nos engloba, aqui e agora. Uma evidência mundial de perdas e dores. A morte vocifera sua certeza, sua imutabilidade, a nos confirmar cotidianamente sua força”.

E continua: “O mundo adoeceu, os homens adoeceram, estamos vivendo uma inesperada e surpreendente guerra entre a natureza e a cultura. Hoje, o vírus mortífero não se limita a uma partícula proteica. Ele também pode surgir do homem, dos seres falantes, a partir de uma carga de animalidade que não se civilizou devidamente” Qual o mais assustador?, pergunta Urania.

Entretanto, a psicanalista também vislumbra esperança ao reconhecer na universidade pública a grande potência para encontrar respostas e saídas, pela ciência, dessa crise sanitária, humanitária, econômica e social. “Essa é a grandiosidade da Universidade: a luta contra o obscurantismo e a ignorância a atacar o que de mais promissor tem o homem: a liberdade de pensar”, declarou, encerrando a primeira parte do seu pronunciamento.

A viagem

Durante a segunda parte da sua fala, Urania faz uma viagem ao passado “dirigindo um rápido olhar à minha família primária”, pai, mãe e irmãos. Voltando no tempo, encontra-se na Universidade, período de estudante e de formação profissional. “Recorro à memória e encontro a presença da Universidade Federal da Bahia, a nossa UFBA, em todo acontecer ao longo da minha vida, desde os meus 18 anos”, relembra. E entre o pensar e um pensar aliado à ação, opta por este último e pela pedagogia, pela educação. “No entanto, sempre fui fascinada pelo livre pensar e, por isso frequentei, além do currículo de pedagogia, aulas em filosofia e em letras”.

É desse período a criação do Instituto de Orientação Vocacional, dirigido pelo psicólogo Emílio Mira y Lopez, do qual Urania integra o núcleo de fundadores, antes de seguir viagem para o Rio de Janeiro, a convite do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), também sobre a direção de Mira y Lopez. Lá, dedica-se a estudar o psicodiagnóstico de Rorschach, com a francesa Monique Augras. Posteriormente, quando descobre que o seu criador, o inventor Hermann Rorschach, frequentava as reuniões em casa de Sigmund Freud, com o grupo fundador da psicanálise, “percebi então uma transmissão silenciosa, o patamar do caminho a seguir”. Em seguida, inscreve-se para exames de para o curso psicologia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

No tempo em que frequentou a Faculdade de Filosofia e trabalhava no Instituto de Orientação Vocacional, primeiro lugar de trabalho formal, Urania se matricula na Escola de Dança. “A dança, seguramente,declara, foi para mim uma experiência terapêutica da maior importância. Encontro na imersão na dança, a sua relação com o inconsciente. Inconsciente que abriu as portas da psicanálise”.

A ditadura e o peixinho

Mas como Eros não caminha sem Tânatos, lembra a psiquiatra, seguiu-se a um período iluminado, um período de horror, com a ditadura militar. “O manto transformou-se em coberta escura, descolorida e sem luz: sufocante. Período tenebroso, em oposição ao anterior, esplendoroso. Não tenho dúvida de que a presença intensa da arte serviu como antídoto às feridas da ditadura”, declara.

Nessa época de horror, o reitor Edgard Santos perdia poder. “Os estudantes se inquietavam com o domínio da arte e, em passeata, portavam cartazes que diziam: Não queremos dança, queremos tecnologia! Yanka desanca!” em uma alusão à dançarina polonesa Yanka Rudska, que ensinava na Escola de Dança e de quem Urania foi aluna.

“Lembro-me que, um dia, ao descer a escada da reitoria, junto ao Dr. Edgar Santos, ele me perguntou: você não tem medo do aquário?” “Peixinho do reitor” era o apelido malicioso dirigido a todos que não perdiam o entusiasmo por aquele que criou nossa Universidade e nos presenteou com a possibilidade de uma formação que expandia nossas fronteiras. A Universidade era e continua a ser um lugar de excelência, produto de gerações talentosas que se sucedem, marcadas pela força criativa do nosso povo, gente possuidora de um “quê” difícil de nominar, resultado de nossa circunstância, miscigenação exuberante, natureza pujante, mar esplêndido, culinária incomparável”.

A cátedra e o consultório

Urania lembra ainda que Sigmund Freud e a psicanálise aterrissaram, definitivamente, na vida da futura psicanalista quando, após um período em Portugal, bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, estagiando no Centro de Reabilitação do Alcoitão, é conduzida pelo então reitor Roberto Santos ao Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clinicas, dirigido pelo médico Álvaro Rubim de Pinho. “O período no Hospital das Clinicas, recorda Urania, foi fecundo em interrogações sobre mim mesma. Prestei concurso docente para o curso de psicologia e abri o meu primeiro consultório. Assim, passei a ocupar dois lugares na UFBA, um na psiquiatria e outro como professora no curso de psicologia”.

Tempos depois, Urania cria, junto com amigos, a primeira instituição de psicanálise da Bahia, a CLAPP e, posteriormente, o Colégio de Psicanálise da Bahia “que caminha livre pelas teorias, sem aprisionamento, e conta com metade de seus membros em função docente universitária”.

A viagem não para

“Hoje o Reitor enfrenta, na maturidade [da UFBA], uma grande batalha: salvar a nossa Universidade na grandeza da sua expansão, olhando a humanidade em sua totalidade, sem distinção de raças e crenças, uma verdadeira universidade. A UFBA enfrenta uma travessia, em mar revolto, de gigantescas ondas ocultas e enganadoras. É preciso força e maestria ao comandar o leme. Sem dúvidas esses atributos o Magnífico Reitor possui e nos cabe compartilhar os riscos da viagem, sempre em busca do horizonte que nunca cessa de nos aguardar, ao tempo em que nos acena a possibilidade de ir mais além.”

De volta ao começo

Foi no exuberante reitorado de Edgar Santos (1946-1961) que corações e mentes de estudantes e professores se voltaram para o simpático bairro do Canela, no centro da cidade do Salvador, transformado em uma espécie de “Sorbonne soteropolitana”, povoada de jovens estudantes de arte, do Brasil e de todo o mundo. A UFBA acabava de ser criada e, por ali, ou por perto, foi sendo construído o polo efervescente das escolas de arte da Universidade, com o início das atividades da Escola de Teatro, de Dança e de Música, com os icônicos nomes de Martin Gonçalves e Domitila Amaral (Teatro), Koellreuter (Música), Iulo Brandão (Filosofia e Estética) e da polonesa Yanka Rudska, com quem a futura psicanalista Urania Maria Tourinho Peres estudou dança, ao som do piano do “maestro” Carlos Lacerda. Ao mesmo tempo, cursava filosofia, no bairro de Nazaré. Para a Universidade convergiam, então, as artes, humanidades e as ciências, como era desejo do seu primeiro reitor e exigência dos tempos modernos.

Entre os nomes da turma, entre muitos outros desta época, estão os de Antonio Pitanga, Caetano Veloso, Glauber Rocha, Nilda Spencer, Othon Bastos e o do poeta Fernando da Rocha Peres – com quem Urania se casaria, tempos depois.

A Clapp e o Colégio de Psicanálise

A partir dos anos 1970, toda a atividade clínica e intelectual de Urania será dedicada à psicanálise, à formação do psicanalista, ao movimento de trazer a psicanálise para a Bahia e a pensar psicanálise, objetivos que nortearam a fundação do Colégio de Psicanálise da Bahia, importante instituição de formação e estudo da psicanálise, que completou 30 anos em 2018.

O Colégio de Psicanálise da Bahia foi fundado por Urania e pela psicóloga Regina Sarmento, quando se encerraram as atividades da Clínica de Atendimentos Psicológicos e Psiquiátricos da Bahia, a Clapp, que durou 17 anos trabalhando e acolhendo a psicanálise – e, porque não dizer, fundando a psicanálise na Bahia. Com o passar do tempo, Urania lembra que era chegada a hora de viver as diferenças de cada um e assim a Clapp se extinguiu e o Colégio surgiu. A instituição de transmissão da psicanálise e formação de analistas pensa a psicanálise de uma maneira livre e criativa, mantendo uma estreita relação com a arte e, ao mesmo tempo, fomenta o desenvolvimento inventivo desse campo de investigação e a construção de um estilo próprio.

À frente do Colégio Psicanálise da Bahia, Urania abriu portas para que essa instituição se vinculasse a um movimento psicanalítico internacional denominado Convergência – Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana, do qual faz parte até os dias atuais, além de manter e fortalecer os vínculos com a École Lacanienne de Psychanalyse e com a Escola Freudiana de Buenos Aires. Sempre buscando articular a história e as artes e a transversalidade entre as artes e a cultura, Urania realiza, durante vários anos, as Jornadas de História da Psicanálise, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, além de organizar congressos nacionais e internacionais, seminários e outros eventos, em Salvador.

Na Academia de Letras

A produção literária de Urania em torno da Psicanálise, com livros e textos publicados em conceituadas editoras de nosso cenário nacional, é reconhecida por seus pares e representantes da cultura baiana, o que lhe rendeu o convite para ingresso na Academia de Letras da Bahia, onde tomou posse na Cadeira 40 em 2014, em sucessão à historiadora Consuelo Novais Sampaio. Desde então, vem promovendo um diálogo profícuo entre a psicanálise e a literatura. Recentemente, organizou a coletânea de textos Entre Palavras (2018), lançada pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba), reunindo artigos de membros do Colégio de Psicanálise da Bahia, na passagem dos 30 anos da instituição. Outras obras podem ser citadas, como Melancolia (1996), Mosaico de Letras (1999), Culpa (2001), Depressão e Melancolia (2003), além de um livro sobre a artista mexicana Frida Kahlo (2002).

UFBA: outra grandeza mais admirável

Em entrevista à edição de 04 de abril do jornal A Tarde, a psiquiatra declarou: “a universidade hoje tem uma outra grandeza, e em muitos aspectos mais admirável. Não necessita mais, como no passado, importar saber, na medida em que se tornou ela própria transmissora de saberes. A universidade hoje vive a maturidade do seu crescimento, dispondo de filhos brilhantes capazes de nos presentear com aulas magistrais”.

A proposição de título de Doutor Honoris Causa à psicanalista baiana foi encaminhada à Comissão de Assuntos Acadêmicos do Conselho Universitário da UFBA pela Congregação do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Prof. Milton Santos (IHAC/ UFBA),através das professoras Edilene Matos e Maria Thereza Ávila. No texto, as proponentes afirmam que a outorga coroa “o percurso intelectual, literário, e formativo desta renomada figura do pensamento baiano, tendo a clínica e a psicanálise como circuitos de sua atuação”.

No seu discurso de saudação, no ato de outorga, a professora Edilene Matos destacou que “Vale a pena acentuar que esse jogo de formação constante, liderado por uma profissional egressa dessa Universidade, faz um movimento de retorno a essa mesma Universidade, pois que desse Colégio de Psicanálise, de cunho formador e espaço privilegiado de reflexão, saíram e saem docentes que, no espaço acadêmico, já atuam e continuarão atuando na transmissão de seus aprendizados”.

Já o professor Messias Bandeira, diretor do IHAC e parecerista da proposição, mencionou a importância do pensamento da homenageada, “como voz da própria Universidade que reverbera através de outros atores, para além dos membros da UFBA, atravessando fronteiras”. Messias destacou também a singularidade com que Urania articula narrativas aparentemente diferenciada como psicanálise, arte e literatura, o que, garante ele, assegura a sua presença na Academia de Letras da Bahia.

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