Ciclo de palestras do Museu de Arte Sacra mantém vivo o interesse pelo acervo durante a pandemia

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“O Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia (MAS/UFBA) abriga em seu acervo não só um conjunto de imagens da Virgem Maria de alta qualidade artística, expressão da ampla devoção mariana luso-brasileira, mas peças emblemáticas, como a Nossa Senhora das Maravilhas que pertenceu à Antiga Sé, diante da qual, segundo a tradição, o adolescente Antônio Vieira, orando em razão de sua dificuldade nos estudos, teria sentido uma forte dor e um ‘estalo’ no crânio, despertando nele, desde então, a brilhante inteligência que o tornaria o maior orador sacro da língua portuguesa. Para além desse fato legendário, essa pequena escultura é um delicado exemplar da arte do revestimento das imagens em prata, pouco encontrado na América Portuguesa”.

Nossa Senhora das Maravilhas teria “provocado” o “estalo” no futuro orador Pe. Antônio Vieira

A singular informação é do pesquisador em iconografia e professor adjunto do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFpel), o gaúcho Jonas Klug da Silveira, que falou sobre a iconografia Mariana no Museu de Arte Sacra da UFBA no dia 6 de maio, como parte de um ciclo de palestras que acontece até este final de ano, em uma iniciativa do MAS. O objetivo é dar continuidade à divulgação do rico acervo do Museu, nesse momento de pandemia e de suspensão das visitas presenciais, como informa a restauradora Cláudia Guanais, encarregada pelo setor de conservação do museu. A organização das palestras foi de uma comissão de técnicos juntamente com a direção.

Para o mês de maio, em função de ser o mês dedicado a Maria pela religião católica, a palestra foi sobre a iconografia mariana do MAS. O palestrante destacou todas as fases de Maria, desde menina, onde aparece sempre ao lado de Nossa Senhora Sant’Ana, passando pelo calvário, com o seu filho no colo; até a assunção ao céu e coroação pela Santíssima Trindade. Esculturas e pinturas ilustraram a palestra, reafirmando o propósito de divulgação do acervo.

A palestra do professor Silveira colocou em relevo um elemento outrora extremamente familiar à cultura religiosa popular brasileira: a identificação das muitas iconografias de Nossa Senhora, inseridas em seu contexto histórico. Dividida em três seções, a primeira enfocou as peças que expressam o papel teológico de Maria, ao mesmo tempo em que constituem um fio condutor de sua biografia na tradição católica. Na segunda, foram apresentadas as advocações vinculadas à presença das diferentes ordens religiosas no Brasil; e, por fim, outros títulos marianos nascidos da devoção popular.

Histórico

“A importância de dar visibilidade ao MAS e ao Convento de Santa Teresa começa pela origem de seu conjunto arquitetônico, em 1663, como a primeira casa, no Brasil, do ramo da Ordem Carmelitana reformado por Santa Teresa de Ávila, um século antes: os Carmelitas Descalços, apelidados, aqui, “terésios”, para diferenciá-los dos Carmelitas da Antiga Observância – os “carmos”, ou “calçados”, que haviam fundado seu convento em Salvador já em 1564.” A informação é do professor Jonas Klug da Silveira, que continua: “A vocação missionária do ramo dos Descalços começa concretamente em terras da África Portuguesa, no contexto da União Ibérica entre Espanha e Portugal, a partir de 1584. Com com o desenvolvimento dessa atividade, a fundação de uma casa de entreposto, na Bahia, para as longas viagens marítimas, viria a ser de grande ajuda.”

09 -Escultura dourada e policromada - Nossa Senhora da Conceição - 90 cm

Então, debruçado sobre o Atlântico que banha o centro de Salvador, passa a funcionar o antigo Convento e Igreja de Santa Teresa d’Ávila, fundado pela Ordem dos Carmelitas Descalços, em meados do século XVII, na capital da Colônia. Primeiro, é construído um pequeno hospício, pertinho do mar, em terreno doado pelo rei Afonso VI e, em seguida, as obras do Convento são concluídas, em 1685, na área vizinha. Dois anos depois, é inaugurada a Igreja, segundo o risco atribuído ao monge beneditino frei Macário de São João, baseando-se no modelo da igreja portuguesa de Nossa Senhora dos Remédios, localizada na cidade de Évora, de 1614.

A nova edificação constitui fator de desenvolvimento urbano, incentivando a abertura de novas ruas, como a Ladeira de Santa Teresa, e promovendo melhoramentos em outras, como na atual Rua Sodré. O conjunto é ocupado pelos Carmelitas Descalços até 1837, quando são transferidos para a roça de São Gonçalo, passando a funcionar, no Sodré, o Convento e Seminário Arquiepiscopal, sob a administração de uma nova ordem – a dos padres lazaristas. Esses também são transferidos, posteriormente, para o bairro da Federação. A partir de 1953, o convento fica abandonado e é ocupado por famílias carentes. O fato de ter alojado tropas portuguesas no período das lutas pela independência da Bahia é decisivo para a extinção da Ordem dos Carmelitas Descalços, bem como para seu posterior abandono.

O Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia (MAS/UFBA) é criado então, nesse espaço recuperado em 1958, por meio de convenio entre a Arquidiocese de Salvador e Universidade Federal da Bahia, na gestão do reitor Edgard Rego Santos. Em 10 de agosto de 1959, abre as suas portas, com a finalidade de preservar a arte sacra luso-brasileira do século XVI ao século XX. A exposição inaugural mostra aos visitantes 500 peças de museus brasileiros e portugueses, de igrejas, conventos e irmandades da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, além de obras emprestadas por colecionadores, segundo informações do Itaú Cultural. Em 1958, inicia-se a restauração, cabendo ao arquiteto Wladimir Souza a responsabilidade pela restauração arquitetônica e ao professor e restaurador João José Rescala a responsabilidade pela restauração dos bens móveis e integrados.

A rainha Elizabeth II e o príncipe Philip visitam o MAS guiados pelo diretor Dom Clemente Nigra (1968)

Acervo

O acervo do MAS é composto por objetos sacros católicos dos séculos XVI ao XX, destacando-se, entre tantas outras, a Imaginária do século XVI e as esculturas em madeira dourada e policromada com revestimento em prata de Nossa Senhora das Maravilhas e Nossa Senhora de Guadalupe. Do século XVII, podem-se mencionar as imagens assinadas e datadas do Nossa Senhora de Monte Serrat e Santana Mestra, do monge beneditino Frei Agostinho da Piedade.

Estão sob a guarda do MAS parte do acervo da Sé Primacial do Brasil, demolida em 1933, além de coleções de instituições como Mosteiro de São Bento, Catedral Basílica, Igreja do Pilar, Conceição da Praia, Convento do Desterro, Nossa Senhora da Ajuda, São José do Jenipapo e outras. Estas coleções, através de regime de comodato, são restauradas no ateliê de Conservação e Restauração sem nenhum custo para as Instituições. Em contrapartida ficam expostas no Museu por um período acordado entre as partes.

A arte da conservação no ateliê de restauro do MAS

Palestras

Diante da importância desta coleção, e por estarem suspensas as visitas presenciais, pensou-se em manter a divulgação do MAS e seu acervo através de palestras virtuais mensais. O ciclo começou em março, com a apresentação do professor da Escola de Belas Artes da UFBA Luiz Alberto Ribeiro Freire, especialista no estudo da talha neoclássica, quando proferiu “o Discurso da talha no Convento dos Carmelitas Descalços na Bahia”. A segunda palestra ficou sob a responsabilidade da pesquisadora Vanessa Taveira de Souza, da UFMG, que falou sobre “Os mistérios da Paixão de Cristo: os personagens, a teatralidade e as procissões no espaço urbano de Salvador”.

Para o mês de junho, o professor da UFBA Milton Araujo Moura apresentará os “Santos Juninos: Antônio, João e Pedro”. Em julho, a pesquisadora Belinda Almeida Neves abordará “Os azulejos de figura avulsa do Museu de Arte Sacra da UFBA”. Em agosto, será a vez do pesquisador da PUC/SP Jorge Lúzio Silva falar sobre a coleção de santos de marfim. Setembro terá a palestra do professor e pesquisador do IFRJ Tadeu Mourão, que abordará a tradição de Cosme e Damião; em outubro, o professor Paulo Ormindo de Azevedo fará palestra sobre o Convento de Santa Tereza; e em novembro, a professora da UFMG Maria Regina Emery Quites falará sobre as imagens de roca e de vestir, tema do seu doutorado. Finalizando, em dezembro, a professora Edilece Souza Couto, da UFBA falará sobre as três santas do mês de dezembro: Conceição, Luzia e Bárbara.

Todas as palestras são transmitidas pela plataforma do Youtube no Canal do Museu de Arte Sacra da UFBA, sempre na primeira quinta-feira de cada mês, às 19h, e ficarão gravadas. Conheça mais sobre o Museu de Arte Sacra da Bahia/UFBA acessando www.mas.ufba.br

As imagens e fotos usadas pertencem ao acervo do Museu de Arte Sacra da UFBA.

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