Debate promovido pela Embaixada dos EUA em parceria com a UFBA marca 1 ano da morte de George Floyd 

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O racismo no Brasil e nos Estados Unidos foi tema de um debate que marcou um ano da morte de George Floyd – homem negro norte-americano que foi vítima da violência policial, desencadeando protestos nos Estados Unidos e comoção em todo o mundo. O debate foi promovido no dia 25 de maio pela Rede Fulbright Brasil, com o apoio da embaixada dos Estados Unidos e em parceria com a UFBA, e teve como tema “Uma luta, duas Américas: George Floyd, Racismo e Ferramentas de Opressão – um dilema para a democracia?”. Duas professoras da UFBA – Wlamyra Albuquerque, do Departamento de História e do PPGH (FFCH), e Jamile Borges, da Faculdade de Educação e do Pós-Afro (Ceao) e um professor norte-americano – Jerry Dávila, da Universidade de Illinois – foram os debatedores do evento.
O encontro virtual contou contou com a presença do embaixador dos Estado Unidos no Brasil, Todd Champan, que citou o preâmbulo da constituição daquele país para lembrar o compromisso com a união de um povo e o estabelecimento da justiça. “Estamos nesta busca para uma união mais perfeita”, disse.

Segundo o embaixador, a morte trágica de George Floyd despertou reflexões e emoções, como raiva e confusão diante da constatação das injustiças que continuam ocorrendo na sociedade norte-americana. Chapman ressaltou que, depois de um processo judicial, finalmente a justiça foi aplicada ao assassino, sem deixar de defender que a violência devesse ter sido interrompida no ato, evitando assim a morte de Floyd.

O embaixador disse ter conhecimento de casos semelhantes ocorridos no Brasil e espera poder contribuir com solidariedade e ações concretas em busca de país melhor. “Para chegar aonde queremos chegar, mudanças são necessárias. Isso tem que começar conosco”, disse, sobre a necessidade de combater as injustiças. Chapman falou do “forte desejo de ver ações concretas para criar a mudança que desejamos, visando o fortalecimento de sociedades justas”. O embaixador apontou mudanças nas missões diplomáticas americanas, que vêm redesenhando iniciativas e desenvolvendo muitos projetos em prol de um ambiente mais justo e igualitário.

debateFulbrightO reitor João Carlos Salles participou da abertura do evento e destacou a importância de se fazer frente ao racismo, bem como de apostar na cooperação e no conhecimento, sobretudo em um cenário de ataques às instituições de ensino no Brasil. Salles criticou a falta de inclusão da área das ciências humanas e e sociais e da área das artes em recente edital lançado pela Capes, lembrando que a UFBA tem na sua origem a excelência em todas as áreas do conhecimento, sendo uma referência especialmente nas humanidades.

“A UFBA tem tradição de reflexão sobre as questões raciais, assim como tem uma tradição já muito forte de ações afirmativas”, disse, ressaltando que a universidade está instalada em um estado e em um país marcados por muitas desigualdades ligadas a marcadores raciais, pelos quais perpassa o autoritarismo incrustado na sociedade brasileira. “Nós compreendemos a importância de superar um déficit de representatividade da cor do nosso povo, da diversidade do nosso povo”, afirmou Salles, reafirmando a posição da UFBA de combate ao racismo e aos preconceitos, na defesa da democracia.

Leia mais: Fulbright financiará pesquisadores dos EUA para intercâmbio na UFBA na área de estudos étnicos e raciais

 

Um mito de harmonia para escamotear a violência

A professora Wlamyra Albuquerque, do departamento de História da UFBA e membro da Comissão Fulbright, avalia que o combate ao racismo é uma luta comum que diz respeito tanto ao Brasil quanto aos EUA, duas nações que se constituíram com base nas desigualdades raciais, as quais permanecem ainda hoje, revelando a sua face mais perversa através da violência policial. Conforme apontou, uma sequência de tragédias e chacinas, como a que aconteceu em Jacarezinho, no Rio de Janeiro, “escancara o quanto o racismo corrompe, o quanto o racismo desagrega e o quanto compromete qualquer projeto democrático de sociedade hoje no mundo contemporâneo”.

Wlamyra comentou as diferenças do racismo e as formas de resistência em cada país, os modos como cada sociedade lida com o racismo e busca equacionar esse problema e pensar saídas. Abordou os processos que caracterizaram a formação de cada nação, referindo-se a uma segregação racial explicita na sociedade estadunidense ao longo de todo o século XIX e boa parte do século XX, apesar de todas as formas de resistência da população negra afrodescendente, que nunca deixou de denunciar a segregação racial das mais diversas formas. No Brasil, segundo a historiadora, o Estado também foi fundado sob uma ordem racista, porém propagando-se um mito de que no Brasil se vivia um democracia racial.

Embaixador dos Estado Unidos no Brasil, Todd Champan

Embaixador dos Estado Unidos no Brasil, Todd Champan

“Esse mito, absolutamente, foi construído como uma forma de escamotear, uma forma de encobrir, a lógica extremamente racista que pauta todas as políticas do estado brasileiro ainda hoje”, disse ela, que condenou a banalização da violência policial, uma expressão flagrante de como o estado continua pautado por uma lógica racista. Wlamyra considera, assim, a luta antirracista uma forma de revisitar o passado, fazer a sociedade civil olhar para as suas próprias raízes e construir novas sociedades em que o racismo seja de fato algo condenável e inadmissível.

Enquanto mulher negra e professora da UFBA – universidade que tem maioria de estudantes negros, muitos vindos da periferia, situada em uma cidade que tem maioria de sua população negra – Wlamyra testemunhou o impacto que a violência exerce sobre as vítimas do racismo. Para ela, o morte de George Floyd desperta um sentimento muito próximo de sua realidade, confessando o seu temor cotidiano de que essa violência possa atingir alguém próximo. “A luta antirracista também precisa ser assumida pelos pesquisadores, pelos ativistas, por todos aqueles que, sendo comprometidos com um mundo de igualdade, veem o racismo como um grande empecilho”, analisou, enfatizando a necessidade do investimento em pesquisas sobre racismo e antirracismo.

“Por mais que doa, precisamos encarar o racismo como um problema grave e crônico, a ser debelado na sociedade contemporânea”, afirmou a historiadora, evidenciando o modo como o racismo é utilizado como forma de subjugação das população negras, das populações mais pobres. Nas suas palavras, racismo é tido como um assunto sensível e difícil de lidar porque é “uma ferida aberta”. “Tentamos escapar daquilo o que é a parte mais horrorosa da construção de nossas sociedades contemporâneas”, disse, sinalizando ainda hoje a dor e dificuldade de se reconhecer “a lógica da desigualdade que funda a nossa sociedade”.

“As mesmas e velhas respostas”

A professora do Centro de Estudos Afro-orientais da UFBA (Ceao) e coordenadora do Pós-Afro, Jamile Borges, tratou, no evendo, das políticas e estruturas sociais que corroboram o racismo presente em democracias “que têm se alimentado de um jogo existencial entre aqueles que devem sobreviver e aqueles que podem, devem ou merecem morrer” – o que define como “uma ruptura do tecido social civilizatório”. Diante disso, apontou o enfraquecimento das democracias, a precarização das vidas e o apagamento dos corpos negros, argumentando em favor de “um novo horizonte democrático”, com justiça racial, social, econômica e cognitiva.

“O nosso passado nos foi subtraído, ameaçado, apagado. Nosso futuro está hipotecado, enquanto vamos sendo assassinados e assassinadas. O cenário é, de fato, bastante desolador”, afirmou Jamile, acrescentando que “a utopia democrática só fará sentido se for antirracista e anti-hegemônica”.

João Carlos Salles reafirmou a posição da UFBA de combate ao racismo, aos preconceitos e de defesa da democracia

João Carlos Salles reafirmou a posição da UFBA de combate ao racismo, aos preconceitos e de defesa da democracia

Por muito tempo o negro foi tratado como “o problema, a questão, o obstáculo”, apontou a professora, referindo-se ao racismo como uma tecnologia que opera através de mecanismos do estado, encontrando artifícios intelectuais, mas também mecanismos legais e materiais para se reproduzir. Assim, a luta antirracista passa pelo enfrentamento a toda uma estrutura de poder. “Por isso chamamos de racismo estrutural”, explicou: “Nossos corpos estão diretamente atravessados pela experiência do racismo, da violência e da desigualdade”.

“George Floyd não foi o primeiro e, infelizmente, certamente não será o último caso de assassinato motivado por ódio racial”, disse Borges, evidenciando o genocídio do povo negro. Ela também recordou a chacina na comunidade do Jacarezinho, no Rio De Janeiro, onde uma ação policial resultou na morte de 28 pessoas, sendo 27 civis e um policial, no mês de maio. “São as populações pretas que estão morrendo nas ruas, nas filas, nos bancos. São as populações que estão ainda muito distante de ser vacinadas”, disse, mencionando os abismos raciais e socioeconômicos escancarados pela pandemia e a sensação de acordar todo dia com a ideia de que se tem um alvo preso nas costas.

Para Borges, é preciso ocupar as instâncias de poder e os espaços jornalísticos, midiáticos e publicitários para denunciar o racismo que persiste. A pesquisadora apontou ainda a importância da organização dos movimentos negros, das lutas por resistência e por ações afirmativas. Segundo observa, a diáspora africana resultou na criação de diversos mecanismos locais de resistência diante de uma tragédia de dimensão mundial. “Enquanto as nossas democracias forem a expressão da violência por origem racial, enquanto elas forem a representação do aprofundamento do círculo de pobreza, de acesso desigual à educação, aos serviços públicos e ao emprego, enquanto formos os alvos preferenciais do sistema de justiça e discriminação através do uso dos perfis raciais, enquanto estivermos subrepresentados na política, na administração pública e nos processos de tomada de decisão, a pergunta que motiva esse encontro seguirá, infelizmente, encontrando as mesmas e velhas respostas.”

Movimentos democratizantes

Em relação ao mesmo questionamento – “É possível coexistirem racismo e democracia?” – o professor da Universidade de Illinois, Jerry Dávila, vê os movimentos sociais que reivindicam direitos e igualdade como “movimentos democratizantes”. “Ainda estamos em uma transição democrática”, considera ele em relação a ambos os países.

Dávila apontou a importância da atuação de movimentos atuais como o Black Lives Matter, nos Estados Unidos, e dos movimentos negros no Brasil na década de 1970, destacando a atuação do Movimento Negro Unificado (MNU) contra a ditadura militar, apresentando imagens de manifestações realizadas. “O fim da violência policial tem sido há décadas uma reivindicação brasileira, e continua sendo”. O professor acredita que é possível aprender com as experiências no Brasil no enfrentamento ao racismo, que demanda um processo de diálogo e aprendizado mútuo.

“Para nós, nos Estados Unidos, é um dia de reflexão sobre o assassinato de George Floyd”, declarou Dávila, que prestou homenagem à sua memória, e também à de Breonna Taylor e às de tantos outros nomes de vítimas da violência policial. “Quando assistimos ao vídeo, nos defrontamos com um ato de frieza e crueldade profundamente perturbadora”, disse, analisando a cena em que um policial branco mantém o seu joelho sobre o pescoço de Floyd, que dizia não conseguir respirar até a sua morte por estrangulamento, em uma abordagem por conta da utilização de uma nota de 20 dólares supostamente falsa.

Segundo Dávila, no caso da violência policial, o racismo é cometido por pessoas que estão agindo em seu papel institucional, em uma interseção entre valores individuais e práticas institucionais. “É um reflexo do racismo institucional”, declarou. O racismo e o supremacismo branco fizeram parte da formação nacional dos dois países, analisa o professor de Illinois, alertando que é necessário começar a desmantelar os valores que mantêm e reproduzem essa lógica de desigualdade racial.

Diretor executivo da Fundação Fulbright Brasil, Luis Valcov Loureiro

Diretor executivo da Fundação Fulbright Brasil, Luis Valcov Loureiro

Ao final do encontro, o diretor executivo da Fundação Fulbright Brasil, Luis Valcov Loureiro, enfatizou a relevância do tema, que permeia a sociedade em várias dimensões. “É um assunto de imensa complexidade e que não se esgota aqui”, disse ele, anunciando uma série de outras ações que serão desenvolvidas para contribuir com debate sobre o tema. “Disso tudo que a gente vai, espero eu, contribuir para que possamos ter sociedades mais justas, onde todos possam ter as suas oportunidades e buscar a sua felicidade”.

“Duas sociedades que têm tanto em comum, mas que têm muitas diferenças, e, sobretudo, têm muito a aprender uma com a outra”, avalia o diretor em relação às duas nações, ressaltando a atuação da entidade no país. A Fundação Fulbright – entidade de fomento à pesquisa e atividades culturais ligada ao governo dos Estados Unidos – recentemente selecionou cinco universidades brasileiras para enviar pesquisadores norte-americanos de destaque para intercâmbio em diferentes áreas do conhecimento. Além da UFBA, na área de estudos étnicos e raciais, foram escolhidas a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na área de linguagens e identidades; Universidade de Brasília (UNB), na área de relações internacionais; Universidade Federal do Pará (UFPA), na área de sustentabilidade; e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), nas áreas de direito e ciências políticas.

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