Mariluce Moura: “Beleza e importância da UFBA demandavam urgente exibição”

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07 Mariluce Moura

A jornalista e professora da Facom Mariluce Moura, que liderou a criação do Edgardigital e foi sua primeira editora-chefe, entre 2016 e 2019.

Na virada do primeiro para o segundo semestre de 2016, eu estava num daqueles momentos cruciais em que uma pergunta muito simples, primária até – “O que podemos fazer?” – recobre a angústia da percepção de um abismo entre o desejo e a potência efetiva para a ação. Eu a repetia em fins de tarde enquanto conferia do alto do edifício Farol a beleza estonteante do pôr do sol na Baía de Todos os Santos, a Ilha de Itaparica ao fundo, na linha do horizonte daquele vasto mar em amarelos, laranjas e marrons. E voltava a repeti-la pela manhã ao chegar à Reitoria, olhando homens, mulheres e crianças pobres que se distribuíam pela meia dúzia de degraus da larga escadaria do edifício, em revezamento cotidiano, à espera dos ônibus ou peruas que os levariam de volta à casa, em bairros distantes ou em outras cidades, depois da consulta no velho Hospital das Clínicas – o Hupes, Hospital Universitário Professor Edgard Santos, corrigiam-me meus novos colegas.

O objeto por trás da questão insistente era a materialização, digamos assim, da divulgação científica na Universidade Federal da Bahia como prática corriqueira. Em outros termos, a indagação dirigia-se à necessidade de criar um meio para exibir continuamente, primeiro, à própria UFBA, uma comunidade de mais de 50 mil pessoas, e em segundo lugar, à sociedade de que ela é parte, a riqueza multifacetada e um tanto ignorada do conhecimento científico que essa instituição produz. Afinal, além de professora da Faculdade de Comunicação, eu estava assessora de divulgação científica da UFBA, 33 anos após ter saído de Salvador.

Explico brevemente esse retorno temporário: quatro décadas após minha demissão por perseguições políticas da ditadura militar de 1964-1985, essa mesma que permanece fantasmagórica por trás das insultantes ameaças e ataques vis do atual governo federal à vida, à democracia, à educação, à ciência e à cultura em nosso país, eu fora reintegrada à UFBA. A Comissão da Anistia do Ministério da Justiça havia me concedido por unanimidade, em 15 de outubro de 2015, Dia do Professor, o direito pleno de retornar como docente à instituição, como se na ativa houvesse permanecido desde aquele distante dia de fevereiro de 1976 em que o reitor da ocasião mandara me informar que meu contrato não interessava à instituição e, portanto, eu estava demitida.

O concurso público que eu fizera para o Departamento de Comunicação sete meses antes e minha classificação em primeiro lugar tornaram-se naquele instante, por um ato autoritário comandado desde uma ASI (assessoria de segurança e informação) ou uma DS (divisão de segurança) do Ministério da Educação e Cultura (MEC), em dezembro de 1975, letra morta. Nada. E registre-se que eu fora declarada inocente, por unanimidade, pela própria justiça militar, em primeira e segunda instâncias, em 1974 e 1975, após a prisão arbitrária em 1973, torturas, violência sem fim em meu estado de gravidez, encarceramento isolado e continuado, mesmo após o assassinato de meu marido, Gildo Macedo Lacerda, num quartel do exército em Recife. Coerência e respeito às próprias regras e leis, bem o sabemos, não é um atributo de ditaduras.

Assim, para além de uma escolha profissional naquele momento, o retorno à UFBA era um ato político afirmativo, estimulado pelas características que eu via na gestão liderada por João Carlos Salles, o reitor filósofo que tanto me impressionara no discurso de sua esfuziante cerimônia de posse, em 8 de setembro de 2014, e na longa entrevista que, cinco dias depois, numa manhã de sábado, me concedera em seu gabinete de trabalho. Sabia que se tratava de uma gestão substantivamente democrática, inclusiva e inovadora.

A propósito, preciso dizer que no quesito dos gestos de acolhimento, tão caros a essa gestão, entrou para minha galeria particular dos dias inesquecíveis o 19 de dezembro de 2015, que envolve um par de horas da manhã dedicado à bela e singela cerimônia de minha reintegração, sugerida ao reitor pelo então pró-reitor de Pesquisa, Criação e Inovação, Olival Freire Costa, e preparada pelo gabinete chefiado por Suani Pinho. Delicadeza de amigos entremeada à valorização do sentido dos atos de resgate histórico de um tempo trágico que tantos se esforçaram e se esforçam para varrer da memória nacional – e que não purgados teimam em retornar. Ali eu vi sentados em volta da grande mesa da sala do Conselho Universitário antigos mestres queridos, colegas e amigos queridos, alguns que eu não encontrava há mais de 30 anos, expressando livremente afetos em memórias, enquanto em mim o tempo descrevia um círculo inteiro, rearticulando o desalento daquela jovem mulher de 25 anos, naquele começo de 1976, ao júbilo daquela senhora que havia pouco atingira os 65 anos.

Voltemos, entretanto, à tal pergunta sobre o que fazer, que se apresentou firme alguns meses e uns tantos esboços de planos de divulgação científica após a minha chegada. Era fundamental admitir que eu havia me desacostumado de certos códigos, ritmos e ritos próprios da cidade e precisava me readaptar. Era imprescindível  conhecer muito bem a equipe de comunicação que se tornara minha nova equipe, ou seja, os profissionais da Assessoria de Comunicação e os da TV UFBA – perceber seus múltiplos e distintos talentos, seus modos singulares de trabalhar, suas motivações, as grandes dificuldades de infraestrutura e equipamentos que enfrentavam num momento em que a crise econômica, instalada desde 2015, já dava mostras de que afetaria profundamente os orçamentos das universidades públicas federais – sim, o que ainda não estava claro no horizonte era o insano projeto de destruição que sobre elas logo se abateria.

Esses passos levaram-me a uma compreensão decisiva sobre o que se apresentava a meu olhar e, a partir daí, a entrever o começo da trilha para uma ação. Ou, dito de outra forma, (1) se era muito complicado, em termos burocráticos, alterar realmente a estrutura do site da UFBA, concebido num modelo/programa que o tornava muito pouco administrável pela equipe de Comunicação e muito mais subordinado à assessoria de Tecnologia da Informação; e (2) se era recomendável preservar integralmente o informativo UFBA em Pauta como veículo mais formal e de caráter institucional da universidade, havia, entretanto, campo para criar um boletim eletrônico com periodicidade definida, leve, dinâmico, voltado à divulgação científica e aos projetos de extensão universitária, e tecnicamente fácil de ser administrado pela equipe de Comunicação. E mais: um boletim assim pensado poderia integrar de modo orgânico o trabalho dos jornalistas da Assessoria com o da equipe da TV UFBA enquanto produtora de conteúdos jornalísticos audiovisuais, sem prejuízo de sua atuação na gravação e transmissão de eventos relevantes da universidade.

Foi assim que, entre fins de julho e começo de agosto de 2016, apresentamos a proposta do boletim eletrônico ao reitor, que a apoiou imediatamente. Discutida e bem recebida em sua equipe de gestão, grandes dúvidas recaíram sobre o nome do novo veículo. E a sugestão diferente, sutilmente bem-humorada, cheia sentidos, veio de Paulo Costa Lima, assessor especial do reitor, pesquisador e compositor erudito reconhecido, ex-diretor da Escola de Música, entre muitos outros títulos – para mim, um grande animador cultural. “Vamos chamar de Edgardigital”, ele propôs, numa fusão bem ao seu estilo. Edgard, em homenagem ao reverenciado fundador e primeiro reitor da UFBA, o médico e professor Edgard Santos, e digital porque se tratava de um veículo digital, ora, ora! E num nome curto foi carimbada uma história inteira pronta para provocar bem-vindas estranhezas e indagações. Devidamente apoiado pela meia dúzia de participantes da equipe em torno de João (se não me falha a memória, além de Paulo Lima e Suani Pinho, o vice-reitor Paulo Miguez, o pró-reitor de Planejamento Eduardo Mota, o assessor de comunicação Marco Queiroz e eu), naquele momento, acabara de nascer o Edgardigital.

Lembro que o primeiro número foi quase todo reescrito porque, no afã para tirar paletó e gravata, ou, em termos femininos, salto alto e traje passeio completo, terminamos caindo no exagero da informalidade e jovialidade da linguagem. Era preciso chegar ao equilíbrio que interessasse, agregasse e instigasse estudantes, professores e servidores técnicos, ponderou João, e ainda alimentasse a mídia, a imprensa, os blogs, com informações altamente relevantes sobre a produção científica da UFBA. Belo desafio! E por outro lado, tudo normal, errar a mão é muito típico do nascimento de veículos.

Lembro do prazer das reuniões de pauta com toda a equipe e da estimulante supervisão de estágio de talentosas/os estudantes de graduação de diferentes departamentos, nas atividades de descobrir pautas jornalisticamente relevantes, levantar informações prévias sobre o tema enfocado, estruturar as entrevistas, fazer e refazer os textos… Houve até a chance de incluir uma estagiária na expedição científica de uma equipe da Geociência que, em junho de 2017, foi em busca do meteorito de Palmas de Monte Alto e fazê-la escrever uma verdadeira caderneta de campo! Jornalismo de ciência tem dessas aventuras! É até um tanto difícil explicar o prazer incomparável que há nesse participar de um gestar, nascer e crescer do trabalho jornalístico. E do jornalismo de ciência então…

Aos poucos, coletivamente criado e semanalmente recriado, o Edgardigital se firmou. Levantou desde o começo grandes assuntos de pesquisa nos vários campos do conhecimento, inferiu jornalisticamente seus resultados e sua importância social, espelhou extraordinárias reflexões do campo das humanidades, e ajudou a mostrar para muitos públicos uma face de grande beleza e importância da UFBA, que demandavam urgente exibição. O Edgardigital chega agora à sua edição 200, não é pouca coisa. Sinto imenso orgulho por ter estado na gênese desse veículo hoje maduro e potente, e por ter acompanhado de perto seu desenvolvimento até o final de 2018 – de longe, continuo a acompanhá-lo -, junto com meus caros colegas/amigos Marco Queiroz, Ricardo Sangiovanni, Josemara Veloso, Murilo Guerra, Fernanda Caldas, Gisele Santana, Dan Hudson, João Paulo Garcia, Nattan Cerqueira, Karina Serra, Nívia Anunciação, e mais as/os estudantes Catherine Maynart, Fernanda Tourinho, Lívia Batista, Daiane Oliveira, Bia Penido, Ricardo Brito… (e perdão se esqueci alguém). A todos, meus agradecimentos e meus parabéns pela garra e competência com que levam seu trabalho adiante.

Longa vida ao Edgardigital! E viva a UFBA!

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