Dois anos após óleo atingir litoral, ecossistema tem recuperação lenta, que deve levar 10 anos

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Óleo no litoral. Foto: Adema/Sergipe

Óleo no litoral. Foto: Adema/Sergipe

Dois anos após o aparecimento de manchas de óleo no litoral do Nordeste, ainda são significativas as perdas de patrimônio natural, a redução na diversidade de animais e o aumento das doenças e mortalidade dos corais – apesar de uma discreta (e bem-vinda) melhora recente. É o que apontam os resultados de pesquisas realizadas em praias baianas pelo Grupo de Estudos em Ecologia Marinha e Costeira (Geemc) do Instituto de Biologia (IBIO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA): o relatório sobre os “Efeitos das Manchas de Óleo sobre as Comunidades Bentônicas Recifais” indica que houve comprometimento da cadeia alimentar e desequilíbrio ecológico, além da necessidade de monitoração contínua, pelos próximos 10 anos, das praias atingidas.

Em outubro de 2019, uma imensa e densa mancha de óleo suja as praias da Bahia a partir de Praia do Forte até a localidade de Genipabu, atravessando Itacimirim e Guarajuba, no litoral norte do Estado. Era uma escura faixa que avançava ameaçadora, vinda da Paraíba, onde as primeiras sujeiras surgiram no final de agosto daquele ano, após já ter provocado estragos nos litorais de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão, Ceará, Sergipe e Alagoas, e que agora avançava pela Bahia, em direção ao Sudeste.

Há dois anos, então, o Brasil passou a contabilizar os números negativos do maior desastre ecológico desse tipo da sua historia: dezenas de toneladas de óleo derramadas em todo o Nordeste. Algo estimado entre cinco e 12,5 milhões de litros, de acordo com as diversas fontes consultadas. Dois anos se passaram e ainda não se sabe muita coisa, além de algumas hipóteses desencontradas, sobre a verdadeira causa do derramamento que dizimou fauna e flora marinhas e comprometeu, por algum tempo, a economia das comunidades litorâneas das regiões afetadas, que tiravam o seu sustento da pesca e da comercialização dos pescados e catados agora atingidos no seu habitat natural.

Manchas de óleo incrustadas na estrutura do recife de coral. (Fonte: Geemc)

Diversos grupos então se organizaram e foram a campo pesquisar para procurar esclarecer e minimizar os efeitos devastadores do desastre ambiental. Entre eles, o Geemc, formado por professores e biólogos do Instituto de Biologia (Ibio) coordenados pelo diretor da unidade e doutor em ecologia marinha, professor Francisco Kelmo. Durante todo esse tempo, o grupo vem diagnosticando e monitorando os efeitos do derramamento do óleo sobre esse ecossistema pesquisado.

O Geemc acaba de lançar um relatório atualizado sobre os “Efeitos das Manchas de Óleo sobre as Comunidades Bentônicas Recifais”. As conclusões trazem esperanças: as taxas dão sinais discretos de recuperação do bioma atingido. Mesmo assim, de acordo com o professor Kelmo, ainda deve demorar uma década para que o ecossistema monitorado esteja totalmente recuperado, caso não ocorram novos distúrbios.

Os objetivos do estudo foram verificar se há efeito deletério atribuível à chegada das manchas de óleo que atingiram os recifes de corais da área de estudo – que compreende as praias do Forte, de Itacimirim, de Grarajuba e de Genipabu – e se isso causou alguma alteração na composição das comunidades de invertebrados bentônicos (que não se locomovem ou têm pouca autonomia de deslocamento) associados a estes ambientes. Em seguida, comparam-se as aferições mais recentes aos dados coletados em abril e outubro de 2019 e em fevereiro de 2020, para se chegar aos resultados desejados em números e diversidade de espécies e ainda quanto ao branqueamento dos corais.

Conclusões

As conclusões do relatório indicam que houve perda de diversidade de espécies: se, antes da chegada do óleo, o número médio era de 88 espécies, após o acidente, este número foi reduzido para 47, depois para 17, tornando a aumentar até as 26 espécies verificadas hoje.

Também houve redução na quantidade de organismos vivos nos recifes: o número médio antes da chegada do óleo era de 446 indivíduos; após o acidente, houve queda para 152 e, um ano depois, para 77 indivíduos; hoje, após discreta recuperação, o total aferido é de 92.

Por fim, ficou constatado que houve aumento da taxa de branqueamento de corais: antes do acidente, a taxa oscilava entre 5- 6% ao ano; após o acidente, esse valor aumentou para 52%; em fevereiro, chegou a 84,7%; um ano depois, recuo para 66,3% e, até chegar aos atuais 38,8%.

Foto de manchas de óleo desenterradas em julho/2021. (Fonte: Geemc)

Responsabilização

O professor Kelmo afirma que, até hoje, as autoridades não indicaram nenhum responsável pela chegada das manchas de óleo no litoral brasileiro. Também não se sabe onde e quando o derramamento inicial ocorreu. “Por isso, usamos o termo “manchas órfãs” quando nos referimos a esse evento catastrófico”. O professor mantém a esperança que tudo seja esclarecido e, no caso do litoral da Bahia, “teremos os dados científicos para comprovar quantitativamente os danos que foram causados ao patrimônio natural das praias estudadas”.

As pesquisas do Geemc indicam que o último registro da presença do óleo no estado da Bahia ocorreu em 29 de junho de 2021. O material coletado foi identificado como parte do óleo que chegou ao nosso litoral em 2019, e devido ao tempo que passaram enterradas na areia da praia de Itacimirim e, portanto, em contato com os sedimentos marinhos, as manchas encontradas podem ser comparadas a um resíduo asfáltico, mais pesadas e endurecidas.

Quanto ao óleo ainda enterrado no fundo do mar, o professor explica que esse óleo não flutua na superfície da água. Ele se torna visível em períodos de tempestades, frentes frias, períodos de alta pressão, que favorecem o revolvimento dos sedimentos marinhos e a exumação das manchas já endurecidas. “Embora enterradas, adverte, continuam sendo nocivas a todas as formas de vida. A parte recalcitrante, mancha endurecida misturada com os sedimentos, ainda contém elementos químicos, incluindo metais pesados que são nocivos à vida marinha, especialmente aos invertebrados bentônicos, que não se locomovem ou tem pouca autonomia de deslocamento”, esclarece o biólogo.

Animais que tiveram contato direto com as manchas de óleo. (Fonte: Geemc)

Quando tudo será como antes?

O programa de monitoramento ambiental integrado dos recifes de corais do litoral norte do estado da Bahia vem sendo executado desde 1995, nas localidades de Praia do Forte, Itacimirim, Guarajuba e Genipabu. “Comparando os dados obtidos após a chegada das manchas órfãs com o banco de dados dos anos anteriores, verificou-se, na fase aguda a mortalidade imediata de alguns organismos confirmada pelo cálculo da densidade de organismos por metro quadrado de praia, bem como uma perda significativa da diversidade e da riqueza de espécies (conforme ilustrado nos gráficos do relatório)”, compara o biólogo.

“Hoje, dois anos depois – continua Kelmo – ainda se registram valores significativamente reduzidos das densidades de invertebrados bentônicos vivos, diversidade e riqueza de espécies. Além disso, registrou-se uma incidência 10 vezes maior da taxa de branqueamento dos corais. Esses resultados nos permitem sugerir que uma recuperação plena da estrutura das comunidades bentônicas na área estudada deve demorar, aproximadamente, uns dez anos, caso não ocorra nenhum outro evento de que promova novos distúrbios nas praias estudadas.”.

Manchas de óleo incrustadas na estrutura do recife de coral. (Fonte: Geemc)

O Grupo de Estudos em Ecologia Marinha trabalha essencialmente com o diagnóstico e monitoramento de ambientes marinhos e estuarinos, com foco nos ambientes dos recifes de corais, utilizando sempre animais bentônicos como indicadores. Ao longo dos anos, a maioria dos formados em níveis de graduação, mestrado e doutorado baseou-se em dados oriundos do projeto de monitoramento dos recifes de corais do litoral norte do nosso estado. “A equipe presta assistência a todos os órgãos ambientais quando requisitada, bem como procura informar a população sobre temas ligados à ecologia e conservação dos recursos naturais”, afirma Kelmo.

O projeto de monitoramento dos recifes de corais do litoral norte do estado da Bahia, desde 1995, sempre contou com recursos das agências nacionais de fomento à pesquisa, mas as maiores contribuições são oriundas de organismos internacionais e da iniciativa privada, por meio de convênios celebrados com a universidade. Nesse sentido, o professor Francisco Kelmo observa ainda que “o cenário atual de total desestímulo ao desenvolvimento da pesquisa e desenvolvimento científico em nosso país certamente deixa de fora qualquer possibilidade de fomento aos nossos projetos. Ainda assim, considerando a peculiaridade do banco de dados construído ao longo de 26 anos de estudos, nossa esperança é continuar a receber auxilio internacional e dos convênios com a iniciativa privada”, conclui.

Relembre outras ações da UFBA no enfrentamento da poluição causada pelas manchas de óleo no litoral do Nordeste:

Óleo no litoral: UFBA reúne pesquisadores de diversas áreas que têm se dedicado ao tema – 26/11/2019.

UFBA tem 2 dos 12 projetos selecionados pela Capes para pesquisar impactos do óleo no litoral – 24/01/2020.

UFBA tem mais um projeto selecionado pela Capes para pesquisar impactos do óleo no litoral – 02/03/2020.

Pesquisadores da UFBA lideram 3 dos 11 projetos selecionados pelo CNPq para investigar impactos do óleo no litoral – 23/12/2020.

Bioação Garapuá: biotecnologia contra os efeitos das manchas de óleo no Nordeste – 20/01/2021,

 

 

 

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