Plantas do sertão baiano podem dar origem a remédios contra Covid-19, aponta pesquisa

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Duas plantas do sertão baiano podem dar origem a remédios para combater a Covid-19. Um grupo de pesquisadores, dos quais dois da UFBA, identificou em duas espécies vegetais do semiárido – uma de nome científico Croton micans, conhecida como “sacatinga”, e a outra Portulaca pilosa L, de nome popular “amor-crescido” – compostos com potencial de atuar como inibidores da principal enzima do vírus Sars-Cov-2. O estudo foi recentemente publicado no International Journal of Molecular Sciences, um importante periódico científico da área.

A investigação, com a participação dos professores Samuel Silva Pita e Humberto Freitas, da Faculdade de Farmácia, selecionou compostos que podem desempenhar essa ação antiviral entre moléculas presentes em produtos naturais da região do semiárido da Bahia. Uma sequência de testes computacionais permitiram identificar as substâncias mais promissoras – algo buscado por pesquisadores de todo o mundo empenhados, desde o início da pandemia, em encontrar uma maneira de bloquear a maturação e replicação do vírus no organismo humano.

A partir da quimioteca disponível (espécie de biblioteca que cataloga os compostos identificados e extraídos de espécies vegetais, abrigada pela Universidade Estadual de Feira de Santana), o trabalho investiu na bioprospecção computacional para selecionar os produtos naturais da região mais indicados para o planejamento de eventuais fármacos. Nos estudos, realizados através de diversos métodos computacionais no Laboratório de Bioinformática e Modelagem Molecular (LaBiMM), na Faculdade de Farmácia, entre as 555 moléculas constantes do referido banco de dados, foram selecionadas 10 moléculas. Destas, duas apresentaram um maior potencial e foram identificadas no estudo como b01 e b02, derivado do ácido 3,4-seco-traquilobânico extraído de Croton micans, e o Pilosanol B obtido de Portulaca pilosa L, respectivamente.

Os resultados estão publicados no artigo intitulado “Natural Products-Based Drug Design against SARS-CoV-2 Mpro 3CLpro”, publicado no International Journal of Molecular Sciences, periódico com factor de impacto 5.923 e classificação WebQualis A. Também assinam o trabalho pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Universidade Federal do Pará (PPGQM3/UFPA) e Universidade de São Paulo (campus Ribeirão Preto), além de colaboradores estrangeiros da Espanha (Universidade de Granada) e do Quênia (Universidade de Embu).

O estudo com a participação de professores da Faculdade de Farmácia da UFBA identificou compostos com potencial de atuar como inibidores da protease principal (Mpro) do Sars-Cov-2

O estudo com a participação de professores da Faculdade de Farmácia da UFBA identificou compostos com potencial de atuar como inibidores da protease principal (Mpro) do Sars-Cov-2. (Figura 6 do artigo publicado no International Journal of Molecular Sciences)

O professor Samuel Silva Pita, da Faculdade de Farmácia da UFBA, explica que a protease (enzima) do vírus funciona como uma espécie de “tesoura molecular”, permitindo a maturação e replicação viral dentro das células humanas. Por isso, os cientistas buscam compostos com capacidade de atuar como inibidores dessa protease. Através da pesquisa, foi possível identificar, através de métodos computacionais, os compostos provenientes de espécies da região do semiárido da Bahia com maior potencial, conforme destaca o professor, dispensando a necessidade de testar todas as mais de 500 moléculas, evitando o gasto com reagentes e a produção de resíduos. Os métodos computacionais utilizados consideram uma série de parâmetros, entre os quais a toxicidade das substâncias e o seu modo de ligação dentro da protease viral (Mpro).

“A parte computacional teve esse viés de economizar custos e tempo de trabalho e priorizar as alternativas mais promissoras”, afirma Pita, que acredita que as duas substâncias destacadas no artigo  podem embasar estudos de bancada e até mesmo resultar em uma nova patente para a UFBA. “A gente espera que o avanço nos testes in vitro possa trazer resultados promissores”, diz, otimista em relação a criação de um fármaco que possa ajudar a tratar a Covid-19 e combater a pandemia.

Também coautor do artigo, o professor Humberto Freitas, do Programa de Pós-graduação em Farmácia, destaca a importância do trabalho. “A identificação de compostos bioativos é a fase inicial para qualquer pesquisa científica em planejamento de fármacos. Sem essa etapa primordial, as chances de se chegar a um novo fármaco são baixas. O emprego de estratégias de seleção de possíveis inibidores de Mpro a partir de produtos naturais presentes em plantas do semiárido baiano valoriza as pesquisas regionais e fortalece o compromisso conjunto com a busca de soluções para a Covid-19”.

“Este projeto é o passo inicial para que novos estudos sejam conduzidos com o intuito de comprovar a hipótese sugerida nos estudos computacionais. Após todas as etapas computacionais realizadas, temos boas expectativas sobre a ação desses compostos sobre a protease do Sars-Cov-2. A próxima etapa é contatar os pesquisadores que isolaram e caracterizaram os compostos para verificar a disponibilidade das substâncias e estabelecer parcerias com grupos de pesquisa para realizar ensaios capazes de medir a atividade desses compostos sobre a Mpro ou o próprio vírus. É possível também que compostos similares aos identificados neste estudo e disponíveis para teste possam ser avaliados”, complementa.

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