Apresentar conceitos como estética negra, racismo religioso, diversidade, ancestralidade e representatividade para crianças, na primeira infância (0 a 6 anos de idade) é um desafio satisfatoriamente superado, com criatividade e ludicidade, pelo livro “Nossa Querida Bia – enfrentamento ao racismo desde a infância” – obra fruto de uma parceria entre a UFBA e a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA), vencedora na categoria Publicação Especial, do Prêmio do Fórum Nacional de Comunicação de Justiça, da edição de 2021. O livro também foi contemplado com o 3º lugar no Grande Prêmio, concorrendo com todos os finalistas.
“O prêmio nos causa muita alegria. Mostra o quanto a parceria entre instituições públicas, tais como a UFBA e a DPE/BA, são importantes. Podemos ter esferas de atuação diferentes, mas o compromisso com os direitos humanos, com a combate às desigualdades e a todo tipo de preconceitos, nos une pelo viés da Educação”, afirma a professora da Faculdade de Educação da UFBA Karina Menezes, uma das coautoras do livro vencedor. A professora Nanci Franco, também da Faced e participante do projeto, enfatiza que “‘Nossa querida Bia’ é um exemplo da necessidade de Educar para as Relações Étnico-Raciais (ERER), desde a mais tenra infância, a fim de construirmos uma sociedade em que as diferentes presenças sejam respeitadas em suas especificidades”.
A Pró-reitoria de Ensino de Graduação (Prograd) da UFBA foi procurada pela DPE-BA para contribuir com a iniciativa e recorreu à Faculdade de Educação. Atendendo ao convite das defensoras públicas do Estado da Bahia Laissa Rocha e Gisele Aguiar, as professoras Nanci Franco e Karina Menezes – ambas integrantes do Núcleo Integrado de Estudos e Pesquisas sobre Infância e Educação Infantil (Nepessi) da Faced – colaboraram com o projeto com a criação das ilustrações, além de ajustes na discussão sobre relações raciais na educação infantil.
“O livro ‘Nossa Querida Bia’ trata do enfrentamento ao racismo desde a infância e também fomenta a educação para as relações raciais já na primeira infância”, informou a defensora pública Laissa Rocha, que também é uma das autoras da obra. Segundo ela, “o objetivo é atingir o público infantil, mas também tem como diferencial trazer informações para os adultos, ao final de cada conto”.
“Nos preocupamos em construir uma obra que comunicasse diretamente às crianças, mas também com as pessoas adultos. Uma literatura infantil de verdade, que desperta sentimentos, que aguça o desejo pela leitura e aborda de forma séria e ao mesmo tempo sensível, esse tema tão importante”, conta Karina.
Larissa Rocha destaca que “o livro é um dos produtos de um projeto maior, de uma ação institucional da DPE-BA, denominada ‘Infância sem Racismo: por uma educação antirracista’. Isso, porque a Defensoria Pública não queria mais atuar apenas quando as práticas racistas já haviam acontecido. Queríamos chegar antes, promovendo a educação em direitos, para transformar a realidade”. A defensora enfatiza que o livro foi concebido pois “tínhamos um desejo muito grande de romper com o silenciamento em torno desse tema já na infância, de modo a se pensar na educação para as relações raciais já na primeira infância, com foco na promoção da igualdade racial. Resultando, pois, na ação infância sem racismo, e em consequência, no livro Nossa Querida Bia”.
O prêmio foi concedido numa cerimônia virtual da 19ª Edição do Prêmio Nacional de Comunicação e Justiça, transmitida ao vivo no dia 22 de outubro pelo canal do FNCJ – Fórum Nacional de Comunicação e Justiça no YouTube. O troféu recebido foi colocado na sala da Assessoria de Comunicação da Defensoria Pública da Bahia.
A obra
Como uma obra de ficção, o texto apresenta uma menina chamada Bia, que foi inspirada numa criança da vida real – a filha da defensora Laissa. “Uma menininha com sua autoestima elevada e que vem construindo positivamente sua negritude”, conta Karina.
O livro de 20 páginas está dividido em quatro microcontos. O primeiro trata da estética negra; o segundo fala sobre racismo religioso; o terceiro é sobre diversidade e ancestralidade; e o último, sobre representatividade. É importante reforçar que Bia, a protagonista do livro, é uma menina com a autoestima elevada, consciente da sua identidade racial, pois foi moldada de maneira positiva.
Voltado para a primeira infância, o livro é composto por diálogos curtos com letras em caixa alta, gravuras grandes e folhas um pouco mais espessas, explica a defensora Laissa Rocha. “O projeto gráfico incentiva o manuseio pelas crianças e também por pessoas adultas. Por isso, o impresso é um pouco maior que um livro tradicional, para que uma professora da educação Infantil, por exemplo, possa ler os minicontos para as crianças e mostrar as imagens na medida em que lê, mesmo que ela tenha apenas um livro e 25 crianças em sala de aula”, informa a professora Karina. “Uma expressão da ludicidade esteve em fazer uma obra que pudesse ser manuseada sem receios”, ela observa, acrescentando que “as páginas são um pouco mais espessas, para que as crianças possam virá-las com menos risco de rasgá-las”.
Com cores marcantes e leves e ilustrações que se aproximam da representação de pessoas reais, o volume traz imagens da Bia real, que inspirou a elaboração da ilustração. “Essa personagem representa meninas negras com os cabelos crespos ou cacheados, as brincadeiras de princesa ou de guerreiras, as amizades e sonhos de futuro. Quando uma criança se olha e se reconhece em uma capa de livro, isso é muito lúdico!”, pontua Karina.
Todo processo criativo durou cerca de seis meses. Os textos foram escritos a várias mãos. A elaboração das ilustrações pelas professoras da Faced/UFBA, Karina Menezes e Nanci Franco, foi relativamente rápida e “o resultado final ficou muito bom”, concluiu Karina.
Ficha técnica
– Título: Nossa Querida Bia – enfrentamento ao racismo desde a infância
– Autoras: Eva dos Santos Rodrigues, Gisele Aguiar Ribeiro Pereira Argolo e Laissa Souza de Araújo Rocha – DPE/BA; Karina Moreira Menezes e Nanci Helena Rebouças Franco – NEPESSI/FACED/UFBA.
– Editora: ESDEP Editorial
– Data de publicação: março/2020
– Tiragem: 20 mil exemplares
– Quantidade de páginas: 20
– Download: http://www.defensoria.ba.def.br/wp-content/uploads/2021/03/sanitize_250321-072005.pdf

