Congresso UFBA 75 Anos trouxe debates sobre conjuntura política e eleições em 2022

Download PDF

A crise estrutural, a conjuntura nacional, a cena política brasileira e as eleições do ano que vem foram temas discutidos no Congresso UFBA 75 Anos. As diversas mesas que debateram o assunto tiveram como ponto em comum as críticas ao atual governo e as dificuldades que um novo governo, de perfil democrático, deverá enfrentar para recompor o “desmonte” estrutural e conjuntural que o bolsonarismo tem imposto ao país, nesses quase quatro anos no poder.

As eleições de 2022

“Será que basta um candidato democrata ganhar as eleições?” A pergunta é do professor Luis Felipe Miguel, da UNB, um dos participantes da mesa “A Conjuntura Política Brasileira e as Eleições”, mediada pela professora de ciências sociais da UFBA Victoria Espinheira. Para Miguel, a tarefa, a partir do ano que vem, é reconstruir um espaço onde “alguns” interesses populares possam ser respeitados. Mas o professor “aprofunda”, ele mesmo, a pergunta: “Vencer para fazer o que, para implementar que tipo de projeto para o Brasil?”

Miguel entende que atualmente “o espaço” brasileiro é outro, tem outras características e que, “apesar das conquistas importantes, como o combate à fome e à insegurança alimentar, um governo democrático, se eleito, vai precisar também reverter retrocessos que hoje se constitui, segundo ele, em um “projeto de regressão nacional”, citando como exemplo a reforma da Legislação Trabalhista. O pesquisador afirma ainda que “não é somente retomar, mas encontrar uma nova forma de ação, com maior mobilização no mundo social. Ou um  programa de mudança, ou pouco muda e sofreremos um novo retrocesso”.

Em relação às eleições do ano que vem, o economista e professor da UFBA Luiz Filgueiras acredita que “a extrema direita se apresenta como centro e, à exceção de Ciro Gomes, todos foram apoiadores do governo Bolsonaro. Desses, o que mais se destaca é o Moro, figura que enquadra na “extrema-direita, um neoliberal, uma alternativa a Bolsonaro, que se tornou antifuncional”.

Sobre a possibilidade de o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, compor a chapa com o ex-presidente Lula, na condição de vice, o economista levanta três hipóteses: a primeira, classifica como sendo “uma tática eleitoral”, através da qual Lula deixa o caminho livre para a candidatura petista ao governo do estado de São Paulo; a segunda, “uma dissimulação de Lula”, uma hipótese na qual ele próprio não acredita, mas que faz o jogo para se mostrar um candidato “aberto”; e finalmente, uma terceira hipótese, que seria um aceno para o mercado, prometendo um governo moderado. De qualquer sorte, “Lula não terá como reproduzir os seus dois governos anteriores” acredita Filgueiras.

O professor de ciência política da Unicamp Armando Boito preferiu discorrer sobre aspectos conceituais e não conceituais do fascismo (e do neofascismo), do populismo e do tradicionalismo, no contexto atual de opiniões sobre o governo Bolsonaro, em contraponto à sua própria concepção sobre o assunto. Mas, na rodada de debate, abordou a situação do Brasil, a partir das eleições do ano que vem, afirmando que, em uma eventual vitória, Lula deverá enfrentar, além das dificuldades já postas, uma outra: a base parlamentar.

Boito entende que as esquerdas precisam ter consciência dessa dificuldade e refletir urgentemente sobre esse problema. Ele acredita que Lula está pensando na base do seu novo governo quando aceita Alckmin como candidato a seu vice, “porque o PT não lhe dá essa base governamental. E depender dos mesmos partidos que apoiaram Temer e Bolsonaro é uma situação muito delicada”…. “[Quando] você está na presidência, você tem que ter uma base parlamentar e não depender de composição com partidos fisiológicos”, acrescenta o professor. Para Boito, o Partido dos Trabalhadores também precisa vencer “um déficit de organização enorme” e voltar a ser um partido de massa que, junto a eventuais outros partidos de trabalhadores que venham a ser criados futuramente, “eduquem e organizem as massas”.

Crise estrutural e conjuntura nacional

Para o professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), Eleutério Fernando da Silva Prado, a crise estrutural a que se refere o tema da mesa “Crise Estrutural e Conjuntura Nacional” é, na verdade, a crise do próprio sistema capitalista, que “enfrenta atualmente o seu ocaso e não mais o seu colapso, e que não logrará superação sem a intervenção do Estado”.

Citando Marx, Prado lembra que “as crises são sempre apenas soluções momentâneas  das contradições existentes no sistema” – sistema este que sempre tende à “desmedida acumulação”. O pesquisador afirma que o capitalismo não está conseguindo superar as barreiras que estão surgindo no caminho, como, por exemplo: a necessidade constante de fazer crescer  os bens públicos em um sistema voltado para atender às necessidades privadas e à geração do lucro; a organização internacional da economia, embora com instâncias administrativas locais, gerando conflitos de interesses entre o global e o nacional; a crescente apropriação da natureza sem que o capitalismo consiga responder “à capacidade de carregamento do planeta terra”; e finalmente uma gigantesca crise de superprodução, sem que o sistema consiga “destruir capital”, acumulado de uma maneira “extraordinária”.

Já a professora de economia da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) Rosa Maria Marques afirma que “é um equívoco” associar a crise do capital ao avanço do desemprego, à pobreza, à redução dos salários médios e a queda da participação desses salários na renda dos países. “O capital, segundo ela, vai muito bem obrigado!” Para a professora o capital financeiro nunca se expandiu tanto e nunca obteve tal nível de lucro. E continua: “Hoje a separação entre o capital industrial, o capital comercial e o portador de juros é, na verdade, uma separação teórica, eles estão imbricados, “perde-se por um lado, se ganha de outro”.

A professora afirmou ainda que quando a crise da Covid-19 chegou, a desaceleração da economia já vinha apresentando problemas em nível mundial (desde 2007/2008), o que foi sentido de maneira ainda mais recessiva em países como o nosso, provocando aumento do desemprego e um crescimento inédito do nível da pobreza – que, ela recorda, havia caído com o programa Bolsa Família. Rosa Marques acredita que as perspectivas “são as piores do mundo” com a precarização do trabalho, com o aumento da inflação e a interrupção da cadeia produtiva, mas tem esperanças de que as próximas eleições sejam vencidas por um candidato que tenha um “programa para alterar esse quadro”.

O deputado estadual Hilton Coelho, que também participou da mesa, entende que a crise estrutural não se resolve pelo fato de o capitalismo se reproduzir e aprofundar as desigualdades sociais. Por exemplo, é o que acontece quando uma parcela muito expressiva da população “desce abaixo da linha da pobreza, uma ínfima categoria consegue crescer, fenômeno que foi aprofundado pela pandemia”, exemplifica. Sobre as futuras eleições, o deputado acha que a “alternativa como a de Jair Bolsonaro vem se enfraquecendo, mas nada está definido, tudo ainda está em aberto, vamos ter ainda muita luta e muito debate.”, garante..

A mesa foi mediada por Caroline de Araujo Lima, egressa do curso de Ciências Sociais da UFBA, hoje professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que aproveitou para propor “mobilização e a organização para o enfrentamento, resistir e avançar”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website