Geopolítica internacional e mercado do petróleo pautaram debates no Congresso UFBA 75 Anos

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Questões relacionadas à geopolítica internacional e às dinâmicas do mercado do petróleo pautaram debates no Congresso UFBA 75 Anos. Na mesa “O governo Biden e a geopolítica das grandes potencias”, o eixo foi sobre as relações políticas entre os Estados Unidos e países da América Latina, Europa e Ásia, principalmente a China. Já em “Geopolítica do gás natural”, o eixo das intervenções se deslocou para os aspectos econômicos da produção e distribuição do combustível, envolvendo também os Estados Unidos, a Europa e a China, e mais ainda o Brasil e a Bahia.

A primeira mesa foi conduzida pelo professor Jorge Luiz Bezerra Nóvoa, doutor em Sociologia e professor da UFBA, para quem as questões geopolíticas entre os países devem ter sempre em vista a defesa da paz mundial, com a adoção de políticas alternativas que empurrem os países em direção contrária a uma definitiva terceira guerra mundial. Ele acredita também que os partidos políticos devem voltar o olhar para os movimentos sociais.

O professor em Genebra e membro do Centro de Estudos da Paz Mundial Alfred de Zayas afirma que democratas e republicanos praticam a mesma política intervencionista e favorável às guerras: “ambos defensores de Wall Street e do neoliberalismo absoluto”, afirma. Para Zayas, é como se estivéssemos entre “a peste e a cólera”. “Biden se considera líder da democracia mundial, mas não tolera outro governo”, acrescenta adiante, “como acontece com Cuba”, arremata. O professor cita a Carta da Organização das Nações Unidas como documento que aponta para uma política contrária àquela que hoje é praticada pelo governo Biden, mas que já foram praticadas também por outros governos democratas ou republicanos.

Já o professor de teoria política da Universidade de São Paulo (USP) Cícero Araújo preferiu pontuar  sobre as crises enfrentadas pela democracia e começou pelo que definiu como o “esgotamento da ordem neoliberal”, em 2008, com o colapso da Bolsa de Valores de Nova Iorque. “A ordem neoliberal é também um arranjo político e social e não somente econômico”, declarou. E hoje, para o pesquisador, com novo avanço do neoliberalismo – sem ligação íntima com o crescimento do estado, como na fase inicial da globalização -, esse movimento [o da globalização] se fraciona e desloca o centro dinâmico do capitalismo dos Estados Unidos e da Europa Ocidental para a China, “(país) que mais se beneficiou com a ordem neoliberal”.

O professor Valdemar Araújo, do Departamento de Ciência Política da FFCH/UFBA orientou a sua argumentação para as questões dos limites do neoliberalismo como estratégia de resgate do poderio americano no mundo, declarando que, embora os Estados Unidos tenham recuperado o patamar de 20% na participação do PIB mundial, o modelo neoliberal de desregulamentação financeira não conseguiu resgatar a hegemonia econômica americana e não evitou a bipolaridade com o mundo asiático, em especial com a China. O professor lembrou ainda as questões climáticas, como o degelo do Ártico, que vem obrigando a abertura de novas rotas de transporte, entre a Rússia e a Ásia e vice-versa,como pontos desfavoráveis à manutenção hegemônica do poderio americano.

Gás natural

Na mesa “Geopolítica do gás natural: Europa, China, Estados Unidos, Brasil e Bahia”, os trabalhos foram conduzidos pelo economista e ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli de Azevedo, professor aposentado da UFBA, para quem estamos vivendo uma crise de energia no mundo, o que pode ser comprovado, ele afirma, pelo preço da eletricidade subindo em vários países da Europa e, na China, com a contenção do uso de gás natural e de eletricidade, mas também com os altos preços dos combustíveis e da energia elétricos praticados também no Brasil. Por outro lado, Gabrielli informa que estamos vivendo um processo de intensificação da regulação para a transição energética, com redução de uso de combustíveis fósseis e consequente ampliação do uso de fontes primárias de energia.

No entender da professora Magda Chambriard, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estamos em franco processo de desverticalização do setor de gás natural e na direção da desregulamentação, inclusive com a rediscussão do papel da Petrobrás no fornecimento do combustível – que, segundo ela, por se entender como monopolista, precisa liberar espaço para que outros agentes participem da distribuição do gás natural no país. A pesquisadora informa que o fornecimento de gás do pré-sal fez o mercado brasileiro mudar de patamar, aumentando o fornecimento. A professora aponta, entretanto, que problemas de infraestrutura formam gargalos na cadeia produtiva, dificultando a chegada do combustível ao consumidor final.

Quem também participou da mesa foi o geólogo Antonio Rivas que construiu uma linha do tempo desde a descoberta do petróleo na Bahia, no município de Candeias, em 1941, e do gás natural, em 1953, até os dias de hoje, fornecendo dados sobre o histórico de produção das bacias do Recôncavo, de Tucano, Camamú e do Jacuípe. O geólogo informou que com o crescimento da produção, nove operadoras privadas estão produzindo gás natural na Bahia e que a expectativa é de aumento de demanda dos mercados industrial e do gás de cozinha. Para ele é preciso aumentar a reserva para que se possa manter o fornecimento, investindo na exploração e negociando a preços competitivos.