Formada por técnicas da UFBA, Rede Conservação e Restauro protege patrimônio e realiza pesquisas

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Senhor dos Passos, da Igreja de N. Sra. da Ajuda, foi uma das peças restauradas no Museu de Arte Sacra

Senhor dos Passos, da Igreja de N. Sra. da Ajuda, foi uma das peças restauradas no Museu de Arte Sacra

A Rede de Profissionais de Conservação e Restauro da UFBA (Recore), criada em agosto de 2020, reúne profissionais que atuam em unidades que salvaguardam parte do patrimônio cultural abrigado pela universidade. São conservadoras-restauradoras e técnicas em conservação e restauração que desempenham as suas atividades na Escola de Belas Artes (EBA), no Museu de Arte Sacra (MAS) e no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE).

A Recore busca o diálogo entre os profissionais, além de possibilitar pesquisas e debates sobre temas pertinentes à área. Umas das ações nesse sentido foi a criação do grupo de pesquisa junto ao CNPq, denominado Recore Lab, que conta com duas linhas de investigação: Conservação e restauro de coleções universitárias e Gestão de coleções arqueológicas e etnológicas. A iniciativa tem gerado muitos frutos, com a publicação de artigos científicos e participação em eventos internacionais, como a IV edição do Congresso Ibero-Americano Investigações em Conservação e Restauro (ICP 2022), que será realizada em Lisboa, Portugal, em outubro.

De acordo a coordenadora do grupo de pesquisa da Recore, a conservadora-restauradora Mara Vasconcelos – que atuou no MAE por 9 anos antes de ser cedida ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) – , a participação em eventos como o Simpósio Luso-Brasileiro de Conservação e Restauro e o Fórum de Museus e Acervos Universitários, ambos realizados em 2021, tem permitido estabelecer contato com outros profissionais que trabalham com coleções dentro das instituições de ensino superior, favorecendo o desenvolvimento do grupo, que é composto por técnicas em formação contínua, com doutorado e mestrado realizados ou em andamento.

Entre os objetivos específicos da Recore estão o desenvolvimento de pesquisas, o compartilhamento de informações, o fomento à capacitação, a realização de eventos e o estabelecimento de vínculos com profissionais de outras Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes). A criação da Rede, segundo Vasconcelos, foi também motivada por conta da ameaça de extinção de cargo desta área nas Ifes, em razão de decretos federais que impedem a realização de novos concursos, e do número reduzido de servidores nessa função diante do grande patrimônio identificado na universidade. “Existe uma coleção em quase toda unidade da UFBA”, estima.

“Embora nosso cargo, de acordo com o PCCTAE – Plano de Carreira dos Cargos Técnicos-Administrativos em Educação, seja nomeado como ‘Restaurador’ ou ‘Técnico em Restauração’, essa terminologia da área para a denominação dos cargos está desatualizada”, explica Elis Mota, conservadora-restauradora no MAS desde 2018. Este fato foi destacado no artigo “Seleção e atuação dos profissionais de Conservação e Restauro de bens culturais móveis e integrados nas universidades federais: uma análise a partir da Universidade Federal da Bahia”, que o grupo apresentou no ano passado no VI Encontro Luso-Brasileiro de Conservação e Restauração, e que já está publicado nos anais do evento.

A atuação dos profissionais de Conservação e Restauro na UFBA é realizada em unidades específicas, que abrigam diferentes acervos. Na Escola de Belas Artes, o Núcleo de Conservação de Obras de Arte vem desenvolvendo uma série de ações, entre as quais a restauração das pinturas de cavaletes da pinacoteca da EBA e da coleção de gessos da gipsoteca, que abrange esculturas, bustos, torsos dentre outras peças que vieram da Europa, muitas delas do século XIX.

Rosana Baltieri, conservadora-restauradora que atua no inventário do acervo da EBA, chama atenção para a coleção de mais de 600 peças em gesso que começaram a chegar à Academia de Belas Artes da Bahia um ano após a sua fundação, em 1877, como a réplica da Vênus de Milo de Alexandre de Antioquia, moldada a partir da obra original que está no Museu do Louvre, em Paris. Cópias de importantes peças do artista italiano Michelangelo também vieram do velho continente, sob encomenda para servir de modelos para os exercícios dos estudantes da Escola. “Esse era o modelo (de ensino) que existia até o meado da década de 1960, até o surgimento do modernismo”, conta Baltieri, que é autora do livro “História e Técnicas de Conservação e Restauração das Obras Clássicas em Gesso”, lançado pela Edufba em 2019.

A Camponesa _Antes do restauro

Antes e após o restauro da tela A Camponesa, de Miguel Navarro Cañizares (1862) (Foto: Acervo Pessoal)

A restauração da tela “A camponesa”, pintada por um dos fundadores da Escola de Belas Artes, Miguel Navarro Cañizares, no ano de 1862, é outro trabalho que muito orgulha a profissional. Trata-se de uma tela de grandes dimensões, com 2,54 m de altura. “Foi um trabalho que durou quase 9 meses e que começou em sala de aula, com o professor José Dirson Argolo”, recorda. A coleção de telas fica no andar superior da Galeria Canizares, enquanto as peças de gesso estão abrigadas no prédio Mendonça Filho, onde podem ser visitadas por estudantes ou pelo público em geral mediante agendamento prévio. Uma exposição em homenagem aos 145 anos da EBA está sendo planejada para o final de 2022, antecipa Rosana.

(Foto: Acervo Pessoal)

Obras Sacras

O Museu de Arte Sacra, criado através do Convênio entre Arquidiocese de Salvador e Universidade Federal da Bahia na gestão do Reitor Edgard Santos, possui, entre outros serviços, o Setor de Conservação e Restauro, que, além dos cuidados com os bens móveis e integrados do Museu, presta serviços para instituições como Catedral Basílica, Igreja de Nossa Senhora do Pilar, Igreja de N. Sra. da Ajuda e Convento de Santa Clara do Desterro.

Através do regime de comodato, as obras restauradas ficam expostas no Museu por um determinado tempo, explica Cláudia Guanais, conservadora-restauradora, lotada no MAS. “Desta forma, todos são beneficiários: a Universidade, as instituições parceiras, o patrimônio cultural e a sociedade”, diz.

Atuando há 13 anos na função de conservadora-restauradora na universidade, Guanais conta sobre o trabalho realizado em obras de grande valor simbólico, como é o caso do Senhor dos Passos, da Igreja de N. Sra. da Ajuda. “O trabalho promoveu além da restauração na escultura em madeira policromada a restauração do andor confeccionado em prata. É uma peça monumental, uma escultura de valor histórico e beleza ímpar”.

Coleções Arqueológicas e Etnológicas

As ações de conservação e restauro no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) lidam com uma diversidade de objetos e materiais, como plumária, sementes e madeira, dentre outros. O acervo do MAE está estimado em mais de 500 mil peças, entre as coleções arqueológicas e etnográficas indígenas. Destacam-se a coleção etnográfica formada pelo professor, antropólogo e pesquisador Pedro Agostinho da Silva, coletada no Parque Nacional do Alto Xingu na década de 1960, e a coleção arqueológica formada pelo arqueólogo Valentin Calderón, entre os anos 1960 e 1970.

Segundo Celina Rosa, técnica em conservação-restauração, o trabalho é baseado na conservação preventiva, buscando evitar os danos antes que eles ocorram. “Trabalhamos prevenindo os danos causados pelos agentes presentes no entorno da obra, como a umidade relativa, o tipo e intensidade de iluminação e a temperatura”, explica Mara Vasconcelos. A mínima intervenção e a sustentabilidade também são conceitos que orientam as práticas, inclusive com o investimento em alternativas de menor toxicidade em relação aos produtos químicos tradicionalmente usados na área para atividade de limpeza e imunização de peças, que podem inclusive causar danos à saúde.

"O trabalho promoveu além da restauração na escultura em madeira policromada a restauração do andor confeccionado em prata. É uma peça monumental, uma escultura de valor histórico e beleza ímpar", conta a conservadora-restauradora Cláudia Guanais sobre as intervenções na obra

“É uma peça monumental, uma escultura de valor histórico e beleza ímpar”, ressalta a conservadora-restauradora Cláudia Guanais sobre obra que passou por processo de restauração na escultura em madeira policromada e no andor confeccionado em prata (Foto: Acervo Pessoal)

O setor de Conservação sempre recebeu estudantes da UFBA e também de outras instituições para estágio na área da Conservação Preventiva. O mapeamento das coleções etnográficas indígenas, que resultou na organização da reserva técnica, e a pesquisa sobre a identificação de materiais e técnicas de manufatura destes objetos, por exemplo, somente pôde ser desenvolvido com o apoio de estudantes bolsistas através do Programa Permanecer.

Congresso Ibero-Americano Investigações em Conservação e Restauro

A Recore se prepara agora para a participação na IV edição do Congresso Ibero-Americano Investigações em Conservação e Restauro (ICP 2022), que ocorrerá entre 12 e 14 de outubro, no Museu da Farmácia e na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O grupo foi convidado para colaborar na organização do evento, que terá como tema “Práticas Sustentáveis no Património”.

Máscara etnográfica passa por restauração no Museu de Arqueologia e Etnologia

Máscara etnográfica passa por restauração no Museu de Arqueologia e Etnologia (Foto: Acervo Pessoal)

De acordo com Elis Mota, o convite surgiu a partir da participação da professora e conservadora-restauradora Ana Bailão, da Universidade de Lisboa, na série de encontros “Recore Convida”, que ocorreram no ano passado com a participação de nomes que são referência no âmbito nacional e internacional para discussão de temas diversos na área, dentre os quais a falta de regulamentação da profissão. Todas as palestras estão disponíveis no canal da YouTube da Rede.

Além da Recore, participam também como instituições parceiras o Instituto Federal do Piauí (IFPI), o Grupo Espanhol do International Institute for Conservation (GE-IIC), o Instituto Nacional de Antropología e Historia de México (INAH), a Facultad de Filosofía y Letras da Universidad Nacional Autónoma de México (FFyL-UNAM) e o Centro de Conservación y Restauración del Patrimonio da Universidad de Ingeniería y Tecnología (UTEC), do Peru.

A Recore irá realizar um evento vinculado ao ICP 2022 que vai falar sobre ações a serem tomadas diante de situações de riscos e emergências em museus, já que sinistros em museus têm sido cada vez mais frequentes, como os que acometeram o Museu da Língua Portuguesa, o Museu de História Natural e Jardim Botânico (UFMG), o Museu Nacional (UFRJ), entre outros. Temas como Conservação preventiva, gestão de risco e sustentabilidade serão abordados.

Para saber mais sobre a RECORE ou contatar os integrantes da Rede, acesse o site www.recore.ufba.br e o YouTube RECORE/UFBA ou escreva para o e-mail: recore@ufba.br.

 

Obra Lorenzo Di Medici - antes do restauro (Foto: Acervo Pessoal)

Obra Lorenzo Di Medici – antes do restauro (Foto: Acervo Pessoal)

Obra Lorenzo Di Medici -após restauro

Obra Lorenzo Di Medici – após restauro (Foto: Acervo Pessoal)