Rosário e Moraes: novos eméritos da UFBA são exemplos de uma “unanimidade feliz”

Download PDF
20220805-LiaSfoggia-MariaRosarioEmerito-WEB-2(1)Lia Sfoggia / Ascom UFBA

Como parte de uma agenda de atividades que marcaram o encerramento da gestão do professor e filósofo João Carlos Salles como reitor da Universidade Federal da Bahia (2014-2022), foram outorgados títulos de Professor Emérito da UFBA à antropóloga e etnóloga Maria Rosário Gonçalves de Carvalho, professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) e ao engenheiro sanitarista Luiz Roberto Santos Moraes, professor da Escola Politécnica.

Nas cerimônias, realizadas no dia 05 de agosto no auditório da Politécnica, o reitor João Carlos Salles declarou que, ao se escolher dois nomes que são aprovados por todos os integrantes do Conselho Universitário, “nós exercitamos na academia uma espécie de unanimidade feliz, inteligente, em que a academia se olha em algumas pessoas e reconhece nessas pessoas o que ela pode ter de melhor.”

20220508-LiaSfoggia-MoraesEmerito-WEB-19Para a entrega do título à professora Rosário, a mesa foi composta pelo reitor e pela vice-diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Iole Macedo Vanin, que agradeceu pelo trabalho realizado pela antropóloga e por “sua dedicação e compromisso” com a FFCH. “É exemplo inspirador para todos nós”, disse a vice-diretora.

Também compondo a mesa, o antropólogo Mário Tromboni saudou Rosário, representando os colegas que outorgaram o título. Tromboni, em fala emocionada na condição de ex-aluno e discípulo, destacou sua admiração pela professora homenageada, ao tempo que ressaltou os momentos que marcaram a vida acadêmica da mestra, declarando ser justo e apropriado “que nossa universidade reconheça seus métodos acadêmicos e toda projeção que sua carreira proporcionou a esta instituição, com cuja imagem sempre foi inteiramente comprometida.”

Lembrando Pedro Agostinho

No seu discurso de posse, Maria Rosário se referiu à criação, pelo professor Pedro Agostinho, do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (Pineb), no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, onde transcorreu grande parte da sua formação acadêmica e atividade docente. Referiu-se também aos povos indígenas “que têm enfrentado um grande cerco, que recrudesceu nos últimos quatro anos”, sem deixar de lembrar a relevância dos quilombolas e de outras comunidades tradicionais.

A professora relembra: “Transcorria o já longínquo ano de 1971, quando Pedro Agostinho ingressou na UFBA, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, e ofereceu um curso de etnologia. Ele introduziu, assim, a etnologia indígena no departamento e passou a orientar um número expressivo de alunos, gerações de estudantes. Ao longo da sua rica trajetória acadêmica, ele criou o que viria a se tornar o Pineb e serviu à UFBA e à antropologia produzida no Brasil com rara dedicação, competência, criatividade acadêmica e ética.”

20220805-LiaSfoggia-MariaRosarioEmerito-WEB-18(1)Lia Sfoggia / Ascom UFBA

Por esse motivo, Rosário acrescenta que o título de Professor Emérito “é com ele (Pedro Agostinho) compartilhado, e com todos aqueles que nas sucessivas gerações, colaboraram, e ainda colaboram, com o Pineb”. Entre esses colaboradores, destacou a importância dos povos indígenas do Brasil na Bahia, Nordeste e Amazônia, entre os quais os Kanamari, “cujas terras estão localizadas no mesmo Vale do Javari onde foram brutalmente assassinados o grande indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista Dom Phillips, cujas memórias ora reverencio.”

“O nosso trabalho, meu e dos colegas do Pineb, desenvolveu-se graças à sua generosidade [dos povos indígenas] em nos confiar as suas histórias e as suas percepções e concepções de vida”, ressalta Rosário, lembrando também do importante trabalho realizado pelas  organizações políticas indígenas no  estabelecimento de relações com o estado e o governo brasileiro, “muito embora sejam essas relações muito assimétricas”, como, por exemplo, quando das “omissões no combate à epidemia do coronavírus entre os povos indígenas brasileiros”.

A professora ressaltou ainda a importância do ingresso de indígenas no sistema universitário brasileiro, como acontece na UFBA, e de cobrar a realização de uma “justiça de transição ampliada”, como sucedeu na Argentina e no Chile após os períodos de ditadura militar. “Aqui, nada foi feito”, enfatizou. “Não houve reparação para a violência a que os indígenas foram submetidos, tampouco para os camponeses”, lamentou a professora. “De fato, não houve a devida reparação para os torturados e mortos brasileiros de uma maneira geral (…) Não houve no Brasil a chamada justiça de transição, isto é, a responsabilização penal dos agentes de Estado que violaram direitos humanos no Estado durante a ditadura”, concluiu Rosário.

20220805-LiaSfoggia-MariaRosarioEmerito-WEB-7(1)Lia Sfoggia / Ascom UFBA

Na saudação após a entrega do título de Professor Emérito a Maria Rosário, o reitor João Carlos Salles afirmou que aquele era “um momento especial, (…) em que a universidade se reconhece e que considera seus melhores exemplos”.

“Eu acho que Rosário é o exemplo de uma instituição que tem consciência de que não pode e não deve crescer em inteligência, e diminuir em sabedoria, que não pode crescer, aumentar sua força em competitividade e perder a sua capacidade de colaboração (…) que não pode portanto perder medidas coletivas em favor de carreiras individuais”. Salles disse ainda que a professora homenageada é também um exemplo de  militância, competência acadêmica, sofisticação, argumentação e dedicação a um caminho de universidade “que transforma nossas vidas e pode ajudar a transformar a sociedade”.

Emérito lutador

20220508-LiaSfoggia-MoraesEmerito-WEB-12Lia Sfoggia / Ascom UFBA

O professor Luiz Roberto Santos Moraes recebeu o título de Professor Emérito da UFBA das mãos do reitor João Carlos Salles, que presidiu a sessão solene, em mesa com a presença da professora Tatiana Bittencourt Dumet, diretora da Escola Politécnica que deu as boas vindas aos presentes afirmando que quem conhece Moraes sabe da sua constante luta pelo direito de vida melhor e mais justa para todos, “uma luta aguerrida ética e apaixonada, como o próprio Moraes”.

A saudação ao professor homenageado foi feita pelo professor Severino Soares Agra Filho, representando, na mesa, o colegiado do mestrado em Meio Ambiente, Águas e Saneamento, que propôs a outorga do título juntamente com a Congregação da Escola Politécnica. Agra Filho fez uma detalhada retrospectiva dos 43 anos da vida acadêmica e profissional do colega homenageado, destacando o espírito empreendedor do professor Moraes, “determinante na  construção do mestrado em engenharia ambiental urbana na Escola Politécnica”, lembrou.

Discursando após receber o título, o professor Moraes declarou: “Certamente, quem me acompanhou nesses longos 43 anos pôde constatar que vivi de corpo e alma o exercício da docência, da pesquisa, da extensão e atividades administrativas, sempre guiado por um desejo profundo de poder contribuir para avanços da nossa sociedade.”

Moraes disse ainda que, para ele, a Universidade sempre foi espaço privilegiado de construção da utopia de uma sociedade mais justa, igualitária e solidária. E que, então, olhando para trás, confessa também a alegria e honra de estar neste espaço celebrando “meu caminhar nesta instituição que me permitiu dar sentido a minha vida e existência. Gratidão, esperando que, de fato, eu seja merecedor de tal honraria”.

“Outro mundo é possível”

Adiante, o professor afirmou que a Universidade lhe deu a régua e o compasso para estar no mundo, não apenas como profissional, mas também como sujeito social vinculado ao desejo coletivo de contribuir para um mundo melhor. “Sim, outro mundo é possível e necessário. Busquei fazer o melhor, a despeito das minhas limitações, que a cada dia foi reconhecida, enfrentada e superada quando assim foi possível. E foi nesse movimento que estabeleci o diálogo com meus alunos e alunas, alguns deles aqui presentes. Em muitos momentos, vivi a utopia solitária; e em outros tantos, compartilhei a alegria da utopia coletiva. Entre recuos e avanços, a vida se fez e assim continuará, sempre em direção à utopia de ver um mundo melhor”, acrescentou.

20220508-LiaSfoggia-MoraesEmerito-WEB-19

Moraes revisitou sua trajetória na UFBA, iniciada em 1970, quando começou a graduação em engenharia civil da Escola Politécnica até aquele momento em que, 43 anos passados,  recebia o título de Professor Emérito. Foi nesse caminhar que, na Universidade, procurou ser, além de professor, pesquisador e extensionista, um ser humano sensível aos dilemas e desafios de cada um. “Foi nesse ambiente que procurei desenvolver as condições para que a instituição, a nossa UFBA, evoluísse”, disse Moraes.

Finalizou lendo e conclamando as pessoas a subscreverem  a “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, iniciativa da Faculdade de Direito da USP, lida por brasileiras e brasileiros no dia 11 de agosto de 2022.

Voz de trovão em defesa da UFBA

Referindo à voz “tonitruante, essa voz de trovão de Moraes”, o reitor João Carlos Salles saudou o professor e amigo, comentando que, “enquanto ele [Moraes] se emocionou aqui, eu fiquei assim pensado: será que alguma vez ele brigou aqui [na Escola Politécnica]? Será que lutou aqui? Alguma vez elevou a voz, exasperou-se? E prosseguiu acrescentando que certamente não só brigou, como também, protegeu, cuidou, defendeu. “Essa  é a imagem forte que vem de Moraes”.

E adiante, faz perguntas: “Se precisarmos defender a universidade, contaremos com essa voz? [“Sim, a plateia responde.] Se precisarmos denunciar a desigualdade, a exclusão, a miséria, a exploração? Contaremos com essa voz? [A plateia responde “Sim”]. Se precisarmos de uma voz independente que combate o neoliberalismo e suas mazelas, com a voz que não é servil a nenhum governante, a nenhum partido, que não abaixa a cabeça a quem esteja em qualquer posição de mando, contaremos com essa voz?” [“Sim”, novamente é a resposta ouvida].“É uma honra pra nós meu amigo, tê-lo como professor emérito, o que significa que nos reconhecemos em você”, encerrou o reitor.

20220508-LiaSfoggia-MoraesEmerito-WEB-17

As sessões solenes de outorga foram realizadas no auditório do Espaço Cultural Arlindo Fragoso, na Politécnica. Os atos contaram com a participação do violonista Felipe Rebouças e do Madrigal da UFBA.

Na mesma reunião do Conselho Universitário que aprovou os nomes da professora Rosário e do professor Moraes, também aprovou-se a outorga do título de Professor Emérito  à professora Cleise Furtado Mendes, da Escola de Teatro, e de Doutor Honoris Causa, ao teatrólogo e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, criador do Teatro Oficina/São Paulo. Os dois homenageados receberão seus títulos em data a ser anunciada oportunamente.