Debates sobre acesso à cultura e cultura da acessibilidade marcaram o Encontro de Cultura e Arte

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As professoras Georgina Santos (UFRB) e Evani Lima (UFBA) participaram dos debates no segundo dia do evento, 04/07.

As professoras  Evani Lima (UFBA) e Georgina Santos (UFRB) participaram dos debates no segundo dia do evento, 04/07. (Foto: Aristides Alves)

O segundo dia de atividades do I Encontro Nacional de Cultura e Arte nas Universidades Federais Brasileiras, na terça-feira, dia 4 de julho, teve início na Reitoria da UFBA com a mesa que reuniu Custódio Almeida, reitor eleito da Universidade Federal do Ceará (UFC), Georgina Gonçalves dos Santos, reitora eleita da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Evani Tavares Lima, professora da Escola de Teatro da UFBA, e Paulo Guinho, diretor da Escola de Belas Artes da UFBA.

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Evani Lima falou da Escola de Teatro da UFBA como um tradicional centro difusor e mobilizador da produção teatral na cidade, com uma formação profissional que é referendada nacionalmente. Destacou a importância do trabalho permanente da Companhia de Teatro da universidade e de projetos como o Ato de 4, voltado para estimular o exercício de jovens atores e atrizes nos palcos.

Entre as ações desenvolvidas pela Escola para fomentar a cultura arte, ressaltou também o Festival Internacional de Teatro Latino-Americano e o Fórum Negro de Arte e Cultura, iniciativa que, na sua avaliação, tem permitido refletir sobre paradigmas epistemológicos e estéticos para a formação em artes, superando a limitação de referenciais que se distanciam da cultura local.

Ela ressaltou a necessidade de a universidade inserir em seus currículos outros referenciais teóricos, e apontou caminhos como a valorização de mestres e mestras populares e o diálogo com as comunidades e as diversas culturas. Nesse sentido, apontou como uma iniciativa que pode contribuir na aproximação entre universidade e comunidade o recente edital da UFBA para contratação de professores com notório saber, título que é concedido para reconhecer membros da comunidade que não possuem trajetória acadêmica, geralmente detentores de saberes tradicionais e artistas.

Georgina Gonçalves dos Santos, que é professora do Programa de Pós- Graduação de Políticas Sociais e Território da UFRB e do Programa de Pós-Graduação de Estudos Interdisciplinares sobre Universidade da UFBA, falou sobre as possibilidades de formação em artes e estudos sobre a cultura em uma universidade situada no recôncavo baiano, que oferece cursos de graduação em cinema, artes visuais, música e um novo campo para formação tecnológica em artes.

A professora refletiu sobre o papel da cultura na constituição das universidades federais e apontou a tarefa dessas instituições de ensino de contribuírem para o acesso da população a espaços culturais e para a democratização das artes, inclusive aquelas consideradas “eruditas”. Ela também defendeu a necessidade de aproximação da universidade com a comunidade e valorização de seus saberes, especialmente em uma região tão rica de cultura e arte como o Recôncavo Baiano.

Na sua fala, lembrou a concessão dos títulos de doutor(a) honoris causa da UFRB à sambadeira e mestra ceramista Dona Cadu e ao cantor e compositor Mateus Aleluia, do lendário grupo os Tincoãs, representantes da região que ganharam o mundo com a sua arte e manifestações culturais.

As políticas públicas no setor cultural precisam ter em sua agenda a valorização dos territórios e suas populações, conforme argumentou Georgina, que apontou o papel fundamental da curricularização das atividade de extensão nas universidades federais para estimular o diálogo com a comunidade e favorecer o aprendizado mútuo com a troca de saberes.

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Professor do Programa de Pós-graduação em Filosofia, do Instituto de Cultura e Arte da UFC, Custódio Almeida falou da curricularização da extensão como uma forma de estimular atravessamentos por meio de experiências diversas em áreas como direitos humanos, educação ambiental e relações étnico-raciais. Também defendeu que a cultura precisa ocupar espaço como atividades complementares na Universidade. “Currículo é o lugar onde a aprendizagem na universidade acontece”, afirmou.

Almeida ressaltou a importância da abertura dos prédios e equipamentos públicos de arte e cultura para a população e fomentar o encontro de estudantes e professores de diversas áreas e o estabelecimento de pontes entre arte, cultura e ciência. “A gente precisa criar situações para que o encontro aconteça”, concluiu.

Paulo Guinho, diretor da Escola de Belas Artes (EBA) da UFBA, apresentou a experiência da gestão universitária voltada para arte e cultura. Destacou a Galeria Cañizares como equipamento cultural onde os estudantes de graduação e pós-graduação podem expor os resultados de seus experimentos e pesquisas em arte, e por onde já passaram grandes artistas formados pela unidade de ensino.

Ele também citou o trabalho de construção do Memorial da EBA e o trabalho do setor de conservação e restauro, que é fundamental para manter o acervo “vivo”, em boas condições, e contribuir para a difusão do conhecimento contido nesse acervo. Em sua fala, o professor lamentou o esvaziamento de espaços culturais e falta de espaços expositivos na cidade.

O diretor da EBA anunciou a criação de uma nova galeria de arte na Biblioteca Central, no campus de Ondina, que terá como nome Edgard Santos, em homenagem ao fundador e primeiro reitor da UFBA. Por fim, destacou a realização de projetos e oficinas desenvolvidas pela Escola em parceria com o Museu de Arte Moderna da Bahia, Academia de Letras da Bahia e Museu de Arte Sacra.

Pós-graduação

A professora da UFBA Janja Araújo foi uma das convidadas para falar sobre cultura e arte na pesquisa e pós-graduação nas universidades federais brasileiras

A professora da UFBA Janja Araújo foi uma das convidadas para falar sobre cultura e arte na pesquisa e pós-graduação nas universidades federais brasileiras. (Foto: Aristides Alves)

“Cultura e arte na pesquisa e pós-graduação nas universidades federais brasileiras” foi o tema de outra mesa-redonda realizada no dia 4 de julho, no Salão Nobre da Reitoria da UFBA, com a presenças dos (as) professoras (as) Daniele Canedo (OBEC/UFRB), Felipe Tuxá (UFBA), Maria Eduarda Rocha (UFPE), Janja Araújo (UFBA).

A professora Daniele Canedo, do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e que coordena do Observatório da Economia Criativa na Bahia (Obec-BA), abordou o trabalho desenvolvido pelo projeto que conta com pesquisadores de instituições de ensino superior da Bahia e está sediado no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Atualmente o grupo conta com a contribuição de 22 bolsistas que atuam nas pesquisas que abordam questões relacionadas a políticas públicas na área artística e cultural.

Canedo apontou a repercussão dos relatórios produzidos pela Obec sobre os impactos da covid-19 na economia criativa, que foram utilizados como referência nas discussões para aprovação da Lei Aldir Blanc (Lei n. 14.017/2020). Entre os desafios atuais, sinalizou dificuldades para cadastrar atividades culturais e aquelas ligadas à economia criativa no formato da plataforma lattes. Argumentou em favor da valorização das pesquisas em artes e do reconhecimento dos pesquisadores desse campo do conhecimento por parte das instituições de apoio e financiamento à pesquisa.

O professor Felipe Tuxá, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA, discutiu o conceito de cultura a partir das contribuições de diversos pensadores ao longo dos tempos. De acordo com a sua avaliação, pensar o que é cultura assume grande relevância no momento em que se vai decidir o que merece ser fomentado por meio de políticas públicas.

Tuxá destacou a necessidade das ações afirmativas para a assegurar a presença das diferentes culturas nas universidades, com currículos, processos seletivos e editais que valorizem os saberes indígenas, quilombolas, de culturas diversas.

Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Maria Eduarda Rocha trouxe os resultados das pesquisas que resultaram no livro “Bourdieu à brasileira”, organizado por ela, a partir de pesquisa documental e correspondências que Pierre Bourdieu trocou com pesquisadores brasileiros. A professora destacou questões próprias da sociologia da cultura e as discussões sobre a construção da identidade nacional.

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Para Janja Araújo, professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, os estudos culturais ainda estão restritos a determinados espaços na universidade, sendo necessária a sua inclusão nos diferentes programas de pós-graduação. Também apontou a necessidade da universidade de “transpor muros” na sua relação com comunidade e se dar conta de que a comunidade faz parte da instituição.

Araújo lembrou o papel dos espaços culturais da universidade para o ativismo estudantil no contexto de resistência ao regime militar (1964-1985). Citou cineclubes, grandes festas nas escolas de artes e comunicações e o próprio restaurante universitário, que reuniam estudantes de uma geração que acreditava na cultura como instrumento de luta contra a ditadura militar e pela redemocratização do país.

Cultura da Acessibilidade

O debate sobre cultura def reuniu nomes como Estela Lapponi e Moira Braga, que destacaram a importância da cultura do acesso

O debate sobre cultura def reuniu nomes como Moira Braga e Estela Lapponi, que destacaram a importância da cultura do acesso. (Foto: Aristides Alves)

A última mesa do dia 4 de julho abordou como tema “Arte e cultura def nas universidades brasileiras”. Participaram a pesquisadora Anahí Guedes de Mello (UFSC), a performer Estela Lapponi (Casa de Zuleika), a estudante do Programa de Pós-Graduação em Dança na UFBA, Moira Braga, e a coordenadora do Núcleo de Apoio à inclusão da Pessoa com Necessidades Especiais da UFBA, Elizabeth Teixeira.

Anahí Guedes de Mello, pesquisadora vinculada ao Núcleo de Estudos sobre Deficiência, do Departamento de Psicologia da UFSC, ressaltou a importância de inserir as pautas das pessoas com deficiências nas universidades, assim como são contempladas as discussões de classe, raça, gênero e sexualidade. Lembrou da luta dos movimentos sociais pela adoção da linguagem neutra e contra termos racistas, que devem ser evitados, assim como palavras que revelam visões machistas, sexistas e também capacitistas. “É preciso prestar atenção com o uso dessas palavras”, orientou.

A pesquisadora defendeu uma abordagem do conceito de deficiência a partir de uma perspectiva social e não biomédica e patológica. Conforme explicou, a deficiência está além do corpo, pois é resultado da relação desse corpo e um contexto que é incapaz de atender às suas demandas de acessibilidade.

“O problema da deficiência não está no nosso corpo, mas na incapacidade da sociedade de promover acessibilidade. Os problemas não estão no corpo, mas nas barreiras da sociedade”, disse Anahí, ressaltando que as pessoas com deficiência também compõem o público que deve usufruir da cultura. Na sua avaliação, fomentar a cultura é também fomentar a cultura do acesso nas universidades.

A artista e performer Estela Lapponi, do estúdio/residência Casa de Zuleika, acredita em um futuro com o estabelecimento da “cultutra def”, em que todos devem ter o direito de ir e vir, cada um a sua maneira. Ela condenou a falta de acessibilidade nos espaços públicos e a necessidade de um letramento permanente das pessoas que não têm deficiência, para que tomem consciência das demandas de acessibilidade.

Alguns trechos de Manifesto Anti-Inclusão, de Lapponi, foram declamados pela estudante do Mestrado em Dança, Moira Braga. O texto critica o conceito de inclusão, que, no entendimento da autora, propõem hierarquia de capacidades, passividade, causa pena, exclui e isola. Moira também falou de sua atividade de pesquisa sobre a audiodescrição na dança como uma das possibilidades para as pessoas com deficiência visual usufruírem espetáculos culturais.

Elizabeth Reis Teixeira (UFBA), coordenadora do Núcleo de Apoio à inclusão da Pessoa com Necessidades Especiais (NAPE), ligado a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (PROAE), compartilhou a experiência do trabalho do núcleo, que foi criado em 2008, com a missão de prestar apoio pedagógico a estudantes com alguma deficiência. Atualmente, 216 estudantes estão cadastrados no NAPE.

A coordenadora falou sobre o esforço para garantir o acesso, participação e permanência dos estudantes com deficiência e as dificuldades para realizar isso de forma plena nas universidades. Apontou a contribuição das tecnologias e meios de comunicação para garantir as condições de acessibilidade e permanência. A transcrição de vídeos, recursos de tecnologias assistidas e formação de recursos humanos estão entre os serviços desenvolvidos pelo NAPE.

Por fim, Elizabeth Teixeira ressaltou a necessidade de continuar perseguindo a democratização do acesso aos espaços públicos e bens culturais por parte de todas as pessoas. Lembrou da aprovação do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que determina que a pessoa com deficiência tem direito à cultura em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido o acesso a bens culturais em formato acessível (Art. 42).