Trabalho do Programa de Residência Pedagógica da UFBA sobre arte-educação antirracista leva prêmio

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Romário Silva Olivieira Costa

O estudante residente Romário Silva Oliveira da Costa foi o autor do trabalho contemplado pelo Prêmio Paulo Freire.

O panorama de escassez da aplicação de conteúdos relacionados a teorias e práticas arte-educativas e a falta de perspectivas para as relações étnico-raciais, na educação fundamental, são temáticas do trabalho “Triangulando Saberes: os Estágios, a Residência Pedagógica em Artes Visuais e o compromisso com uma Arte-Educação decolonial e antirracista”, realizado no Programa Residência Pedagógica UFBA, que foi contemplado pelo Prêmio Paulo Freire Enalic 2023.

O texto  – cujo autor principal é o estudante residente Romário Silva de Oliveira Costa, sob orientação da docente Samira da Costa Sten – concentra-se nos estágios em artes visuais, viabilizados pelo Programa Residência Pedagógica, na educação fundamental básica da rede pública do Estado da Bahia. No artigo, são apontados “resultados que constatam a presença do componente curricular de artes visuais, como potencial propulsor do preenchimento de currículos e experiências escolares, alicerçadas em práticas educativas antirracistas”, disse Romário.

Foram destacadas teorias e práticas arte-educativas que respeitem as diretrizes presentes na lei 11.645/2008 e apresentem perspectivas emancipadoras para as relações étnico-raciais no âmbito da educação fundamental. “O texto revela a relevância e a importância do planejamento pedagógico, a construção do currículo e a didática, conduzidos pela junção das diretrizes estipuladas pelo programa Escola Antirracista do Ministério Público de Salvador, em consonância com os ‘Referenciais curriculares de arte para o ensino fundamental da rede municipal de educação’”, informou Romário, que é estudante da licenciatura em desenho e plástica pela Escola de Belas Artes.

“O prêmio marca quatro anos de trabalho na UFBA com a teoria crítica da sociedade e na perspectiva decolonial. Ele é um marco e um símbolo do trabalho que fazemos na perspectiva da educação sensível, emancipatória e transformadora da sociedade”, ressaltou a professora Samira da Costa Sten, orientadora na área de artes visuais para o período 2022 a 2024, na Residência Pedagógica. Para Romário, “o prêmio indica um reconhecimento pelo trabalho exercido de maneira cooperativa, respeitosa e fundamental que triangula saberes entre eu, enquanto estudante residente em formação, a supervisão da professora Karla Cupertino na escola e sob a coordenação criteriosa da professora Samira Sten”.

Samira Costa Sten

A professora Samira Sten orientou o trabalho vencedor do Programa de Residência Pedagógica UFBA.

“Foi uma honra receber o prêmio, sobretudo por ser a sua primeira edição e num momento histórico brasileiro de retomadas, fatídicas e simbólicas, dentre todas as licenciaturas, [de] um curso de artes visuais, que enfrenta uma série de dificuldades para se estabelecer no ambiente escolar”, afirma  o residente premiado.

“Também recebo o prêmio com a certeza de que o ensino de arte visual nas escolas com o trabalho com imagens e a construção do imaginário social revelam a importância da arte como fundante e estruturante da sociedade”, pontou a professora Samira, considerando sua “contribuição didático-metodológica e teórica em perspectiva de ensino crítico-reflexivo”.

Desde 2020, a professora Samira Sten é coordenadora com turmas de estágio em artes visuais, desenvolvendo projetos de pesquisa de observação e participação nas escolas de Salvador com ênfase na lei 11.645/2008, que assume o resgate histórico dos povos originários e afrodiaspóricos na formação do povo brasileiro. “Buscamos uma perspectiva decolonial, anticapitalista e antimarginalização do currículo da escola básica”, afirma Sten.

A premiação, segundo Romário, foi “um grande reconhecimento para o campo do ensino das artes visuais, tanto do ponto de vista de possibilidades de regência, frente à escassez de profissionais habilitados para exercer as funções de maneira adequada e saudável, tanto quanto pelos desafios do ponto de vista de políticas públicas que vetam o componente em níveis de ensino – como na última reforma do ensino médio, ou nas modificações legislativas, nas devidas instâncias educativas”.

Neste momento, o licenciando afirma estar formando seu “repertório acadêmico para ingressar num futuro mestrado, para construir uma pós-graduação com foco nas relações entre as artes visuais e uma educação para relações étnico-raciais e suas intersecções”. A orientadora acredita que, com a premiação, “seguiremos com a certeza do nosso comprometimento com educação sensível e crítico-reflexiva no ensino das artes visuais e esperançosos com novos projetos e com o desejo de fazer muitas pesquisas. [Estamos] ansiosos por novos prêmios”, afirma.

Metodologia do trabalho

Apresentação do saberes com os trabalho da Residência Pedagógica

Apresentação do saberes desenvolvidos nos estágios do Programa de Residência Pedagógica em Artes Visuais

A elaboração das sequências didáticas e dos projetos desenvolvidos apontaram para a construção de métodos arte-educativos que introduzem conteúdos antes negligenciados, tornando as aulas de artes um espaço de compromisso com uma transformação social e a favor de uma educação para as relações étnico-raciais, configurando-se assim num espaço efetivo de implementação de políticas públicas, presentes em inúmeras legislações, mas ainda pouco explorada na realidade do “chão da escola”. A proposta foi conduzida mediante a articulação de pedagogias propostas por Paulo Freire, Lib Neo, Dermeval Saviani e Bell Hooks, além de pesquisadores da Arte-Educação como Mae Barbosa, Donis Dondis e Antoni Zabala.

O trabalho partiu de experiências que mesclavam concepções históricas, teóricas e filosóficas em torno dos conteúdos e conceitos da produção tradicional afro-brasileira e indígena, explorando suas características técnicas e estilísticas de concepção e desenvolvimento das mesmas, suas tipificações a partir de materiais empregados, funcionalidade, dimensões, orientação estética, entre outros.

Como exemplo das práticas elaboradas, foram experimentados a produção de tintas a partir de aglutinantes, pigmentos e secantes naturais, a confecção de simulacros das máscaras africanas, através de técnicas construtivas de papel machê, e o trabalho de fundamentação do desenho e pintura interpretativos a partir de Itans – histórias na cultura iorubá.

As técnicas utilizadas levaram em consideração, principalmente, a escassez e precariedade de materiais disponibilizados pelas escolas, assim como pela própria situação socioeconômica dos educandos. “Portanto, papéis e cola para as técnicas de papel machê, pigmentos naturais que se fundem com temperos e de fácil acesso domiciliar como o urucum, o carvão e a cúrcuma, assim como o ovo, expressam tal diretriz”, afirmou o residente Romário.

Foram apresentados os fundamentos das máscaras africanas – o que são e quais as suas funções e os tipos de máscara de acordo com suas etnias, materiais e técnicas. Como suporte didático foram desenvolvidas análises a partir de fotografias e textos presentes no atlas da África da revista National Geographic (2008) e de um dos catálogos do Museu de Arte da África do Sul.

As aulas apresentaram como objetivo positivar a imaginação no que diz respeito a imagens e histórias vinculadas a África, através de exemplos culturais sublimes e genuínos de sua diversidade étnica a partir da análise fotográfica, enaltecendo os aspectos relevantes de trabalho técnico e estético da produção das máscaras. Também estimulando a elaboração de significados pessoais dos educandos para a representação das máscaras, combatendo a demonização da cultura afro-brasileira e exaltando as características, enquanto patrimônio da humanidade.

A sequência didática culminou com o processo expositivo que aconteceu nos pátios externos das escolas, contribuindo com a própria valorização do contexto arquitetônico dos complexos e proporcionando uma experiência estética distinta da sala de aula, outro ponto positivo para o processo de aprendizagem. A aprendizagem ao longo das aulas forma apresentadas de modo expositivo através de textos, das próprias atividades, evidenciando a participação do componente artes visuais dentro do projeto pedagógico escolar, e as pesquisas e desdobramentos das temáticas escolhidas.

Sobre o prêmio Paulo Freire

O Prêmio Paulo Freire Enalic 2023 reconhece a qualidade dos trabalhos acadêmicos de estudantes do Pibid e do Programa Residência Pedagógica que foram submetidos ao IX Encontro Nacional das Licenciaturas e VIII Seminário Nacional do Pibid e III Seminário Nacional do Programa Residência Pedagógica, informou a coordenadora geral do Programa de Residência Pedagógica na UFBA.

Nesta primeira edição, o Prêmio Paulo Freire foi promovido pela Coordenação Geral do IX Encontro Nacional das Licenciaturas, pelo VIII Seminário Nacional do Pibid e pelo III Seminário Nacional do Programa Residência Pedagógica e premiou dois projetos institucionais por região brasileira. A premiação contempla o autor principal com custeio da passagem e hospedagem para participação presencial, durante os dias 06 e 08 de dezembro de 2023, no IX Enalic – o VIII Seminário Nacional do PIBID e o III Seminário Nacional do Programa Residência Pedagógica, que têm o objetivo de promover um espaço de diálogo entre professores da educação básica, ensino superior e licenciandos, pesquisadores, pós-graduandos e demais profissionais da educação.

Guerra pontuou que “foram considerados como critérios para a premiação: o rigor metodológico e conceitual do trabalho; clareza e correção do texto; sua conformidade às normas brasileiras para a apresentação de textos acadêmicos; originalidade do trabalho; a relevância de sua contribuição para os conhecimentos da área em questão”. A seleção contemplou dois trabalhos completos, com participação presencial, de comunicação científica ou relato de experiência, por região.

Concorreram à premiação 169 artigos completos, submetidos até 31/08 e na região, Nordeste a tivemos o E é com muita alegria que evidenciamos o trabalho premiado “Triangulando Saberes: os Estágios, a Residência Pedagógica em Artes Visuais e o compromisso com uma Arte-Educação decolonial e antirracista” do estudante residente Romário Silva de Oliveira Costa, orientado pela docente Samira da Costa Sten no Programa Residência Pedagógica UFBA.

Sobre o Programa Residência de Pedagógica da UFBA

O Programa Residência Pedagógica (PRP) da Universidade Federal da Bahia – UFBA, teve seu início a partir de uma chamada pública da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes, através do Edital CAPES nº 06/2018, com o objetivo de selecionar, instituições de Ensino Superior para implementação de projetos inovadores que estimulassem a articulação entre teoria e prática nos cursos de licenciatura, conduzidos em parceria com as redes públicas de educação básica”.

A partir desta provocação, “iniciamos aqui na UFBA, estudos e debates que provocaram uma maior compreensão quanto a natureza deste Programa e a decisão para concorrermos no referido Edital nº 06-2018, foi deliberada pelo Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão – CONSEPE/UFBA”, informou Denise Guerra.

Com as unidades mobilizadas e seus respectivos docentes e discentes, iniciamos a construção do projeto institucional do PRP-UFBA, e posteriormente, os respectivos Editais para as inscrições para Bolsistas Residentes e Preceptores, respectivamente, dando início ás nossas atividades no início do mês de setembro de 2018, contemplando os subprojetos de História, Língua Portuguesa, Artes englobando os Cursos de Teatro, Dança e Desenho e Plástica (Artes Plásticas e Visuais), Filosofia, Sociologia, Biologia e Pedagogia.