Notório Saber UFBA: mestra Japira traz conhecimento ancestral sobre o poder curativo das plantas das terras Pataxó

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Pajé Japira Pataxó. Foto: Arquivo pessoal.

 

Mestra Japira, também conhecida como Dona Japira, Dona Antônia e também por Tônia – a denominação vai mudando a partir do território de andança – além de pajé, tomou para si posição de destaque na educação de jovens e adultos e no tratamento da saúde física e espiritual do povo Pataxó. Além de colaborar, com assiduidade, na educação escolar indígena, no seu território e, além dele, nas universidades brasileiras, dando aulas sobre rituais, cantos, histórias, cuidados e resistência dos povos originários. Toda essa rica trajetória a moldou como importante defensora e reprodutora dos saberes e conhecimentos dos povos indígenas no estado da Bahia. E mais: Antônia Braz sempre esteve à frente, e há muito tempo, nas lutas pelos direitos do seu povo tiranizado e das suas cobiçadas terras.

“A sua contribuição para a integralização da extensão universitária será de suma importância, promovendo interação entre academia e as comunidades indígenas, assim como consolidará sua posição como uma influente líder feminina de um povo indígena detentor de expressiva relevância para a formação da nação brasileira”, destaca o dossiê de candidatura à condição de professora visitante por Notório Saber 2023 da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA.

A candidatura a professora visitante Notório Saber, por meio do edital de 2023, na UFBA, se constitui, segundo o memorial apresentado, uma distinção a que faz jus e a qual conquistou pela sua experiência e sabedoria. Conforme informações que constam em seu currículo vitae, o diálogo mantido por Japira com outros centros acadêmicos, a tornou conhecida fora de Porto Seguro e da Bahia. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que lhe concedeu o título de Mestra por Notório Saber, em 2022, é um exemplo disso, bem como a Universidade de Campinas, (UNICAMP/São Paulo) e a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), assegurando a expansão dos saberes tradicionais, o reconhecimento e a valorização dos conhecimentos indígenas, principalmente os ligados à cura do corpo e do espírito.

A presença, agora como docente, da Mestra Pajé Japira Pataxó na UFBA tem um especial sentido que remonta ao ano de 1971, quando o professor Pedro Agostinho ingressa na UFBA e dá início a um trabalho sistemático de investigação antropológica e visibilização sociocultural dos povos indígenas no estado da Bahia, e que se ampliará, a partir dos anos 1980, para os povos indígenas da região nordeste do Brasil.

Por seu turno, já em 1976, ainda como estudante, desenvolvendo o seu primeiro trabalho de campo antropológico, a professora Maria Rosário de Carvalho fortalece os vínculos de confiança com os Pataxó, estreitando laços de relacionamento com suas famílias, entre as quais a família Braz, uma das mais tradicionais de Barra Velha, a chamada Aldeia-Mãe. Dessa família fazem parte Anari e Arissana Braz, as duas primeiras indígenas pós-graduadas na UFBA, no Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos (POSAFRO).

Agora, em 2023, ao apresentar o dossiê de candidatura da pajé e Mestra Japira, o docente colaborador Felipe Bruno Martins Fernandes, representando o Departamento de Antropologia e Etnologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA, reconhece e avalia, positivamente, a trajetória de Japira em defesa dos direitos do povo Pataxó, estabelecido no extremo sul da Bahia, defesa esta que transcende o seu povo para o conjunto dos povos indígenas distribuídos pelo território brasileiro.

Foto: Ezequiel Santos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Mestra Japira foi reconhecida como professora visitante por Notório Saber da UFBA 2023, juntamente com outras cinco candidaturas aprovadas pelo Edital do Programa de Apoio à Extensão de Servidores Docentes e Técnico-Administrativos (PROEXT/UFBA), que visa incentivar e fortalecer projetos de Ação Curricular em Comunidade e em Sociedade (ACCS), a curricularização da extensão e as relações da UFBA com comunidades, territórios e demais setores da sociedade. O Edgardigital (doravante ED) vem conversando com esses novos docentes para a série “Notório Saber UFBA”. A Mestra Japira Pataxó (doravante JP) é a entrevistada de hoje. As fotos que ilustram esta matéria foram cedidas e são do arquivo pessoal de Mestra Japira.

ED Bom dia! Mestra, o que significa Japira?

JP Olá, bom dia! Meu nome é Japira Pataxó. Sou pajé da aldeia Novos Guerreiros. O que significa Japira? É um pássaro. Todo mundo conhece ele, porque ele é um pássaro que é da beira do rio. O pássaro que carrega o ninho. É assim que chamamos: de Japira. Porque o ninho é usado para curar diversas doenças. Então meu nome significa isso, “Japira”. Porque meu nome de nascimento é Antônia. Porque temos que ter uma identidade com nome. E esse nome foi dado pelos meus pais.

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Antônia Braz (Mestra Japira) é uma pajé indígena, mestra da cura e da espiritualidade do povo Pataxó da Aldeia Novos Guerreiros, no Extremo-Sul da Bahia. Nasceu na aldeia Barra Velha, em 1962. Filha de Alfredo Braz Salvador e Sebastiana Francisca Santana, Japira viveu em Barra Velha com seus pais até meados do ano de 1976, quando conheceu seu companheiro de vida, Jonga – João da Conceição – e se mudou com ele para uma casa na ponta do Corumbau, nos arredores. É reconhecida como educadora de seu povo, principalmente nos saberes tradicionais de cura e na transmissão oral da sua história de luta e resistência como integrante do povo Pataxó. A aldeia Novos Guerreiros, localizada na Terra Indígena Ponta Grande, em Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, teve sua reintegração de posse suspensa pelo Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), em 2020, após intensa mobilização das 24 famílias que seriam afetadas pela decisão. O ato que determinava o despejo, e depois contestado, foi impetrado em plena pandemia do coronavírus.

ED Pajé Japira, então fale um pouco do seu pai, da sua mãe… conte pra gente um pouco sobre eles…

JP Meu pai… eles são da aldeia mãe Barra Velha. Eu sou de lá também. Mas estou morando aqui em Coroa Vermelha, na vila Novos Guerreiros. Meu pai, naquela época, a gente era jovem, tinha 5 ou 4 anos, ele protegia muito pelos nossos direitos. Porque na época teve uma guerra na aldeia de Barra Velha, em 1951. Com a polícia, né? Foi a polícia que foi lá. Aí a polícia pegou os indígenas e levou para um lugar lá fora, fora daqui. E então as pessoas viviam assim. Longe um do outro […] E aí quando passou o tempo os indígenas se juntaram de novo, né? Aí colocaram meu pai no comando. Na época, ele não tinha mais de 51 anos. Meu pai é esse. Então meu pai reuniu as pessoas. Naquela época eu nem existia, em 1962. Aí meu pai se casou com minha mãe.

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Meu pai, Alfredo Salvador, filho de Dona Luzia, foi uma liderança muito importante do povo pataxó. Ele foi vice- cacique de Tururim, juntos foram responsáveis pelos primeiros reconhecimentos da ampliação da nossa terra. Os dois e outras lideranças iam a pé para Brasília, ficavam meses para ir e voltar. Assumiu como liderança da aldeia junto com Tururim na década de 70 e foi muito importante para o fortalecimento do nosso povo, eles que conquistaram o reconhecimento da terra que virou a Aldeia Boca da Mata. (Mestra Japira. Saberes das terras pataxó da beira-mar à mata atlântica)

 

ED Mestra, quem foram os seus mestres?

JP Então, minha avó também era parteira. Aí minha avó pegava muito filho, porque na época não tinha médico, não tinha nada, né? Só gente que tinha esse conhecimento, que pegava as crianças. E aí minha avó pegou muito, mais de mil filhos, sabe? Aí ela falou assim, olha aquela mata ali, é para eu dar banho na mulher que está com dor, para ter um filho. Eu ia lá, pegava as matas que ela mandava e levava para ela, para o banho.

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Maria Rosa, avó de Japira por parte de mãe, foi uma importante parteira da região. Foi ela quem fez a maioria dos  partos em Barra Velha e arredores. Maria Rosa “pegou” (fez o parto) mais de mil crianças e tinha um grande conhecimento fitoterápico e dos cuidados pré e pós- parto. Esses saberes eram transmitidos principalmente no momento do nascimento, quando sua avó ensinava a Antônia sobre as plantas que deveriam ser utilizadas antes e depois do nascimento, assim como as massagens, as formas de posicionar o corpo da grávida e as enunciações poéticas que ajudavam em todo o processo.

Da família de seu pai, seu tio Karuncha Dendê, pajé da aldeia Barra Velha, é outra importante pessoa na sua trajetória de vida. Importante sabedor pataxó, era o mestre nos saberes das plantas e da cura, das formas de cuidado, produção de medicamentos, rezas, histórias e também na intermediação da cura com o mundo dos espíritos. Essa última habilidade de intermediar encontros cósmicos é aquela que mais propriamente qualifica o fazer do pajé, segundo estudiosos no assunto. Japira se refere também ao pai, Alfredo Salvador, nessas incursões à caminho de um notório saber sobre as matas e seus ensinamentos.

JP E ele (Alfredo Salvador) colocou armadilhas para pegar as caçadas, né? E então nos o seguimos. Lá naquela floresta ele colocou uma brecha, que hoje em dia não sabe se você tem esse conhecimento, para fazer uma armadilha para pegar a caça {. ..} E aí a gente ia com ele, chegava lá e ele falava, olha essa mata aqui, é uma mata que faz remédio, essa aqui é outra. E então ele estava ensinando. E a gente também ia acompanhando ele na floresta que ele levava a gente, era eu, as duas irmãs, e aí a gente, naquela época, acho que eu tinha uns 5 ou 6 anos. {…} Eu tenho sangue de índio e sangue de negro. A minha avó, parte de mãe, era negra e da parte de pai era índio. Aí eu tenho essa força…

ED Mas a senhora acha que existe algum “encantado”, pelo meio do caminho, que orienta a senhora a fazer o que a senhora faz?

JP A dona da mata, né? A Catubaia, que agente tem ela como Catubaia, Caipora, mas é uma só, só que muda o nome, o mais conhecido é Caipora, Eu trabalho muito com ela, porque ela é meu guia.

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Japira e Jonga (o marido, João da Conceição) sempre foram referência de grandes contadores de história. Em sua casa e em seus jardins e hortas, verdadeiras escolas vivas de cura através das ervas e plantas, sempre receberam visitas que buscavam escutar suas histórias. Quando a noite caía, Japira e Jonga, sentados em volta da fogueira, narravam as histórias de seus antepassados, contos sobre seres míticos que povoam o universo espiritual Pataxó e entoavam os cantos da aldeia. Com essa prática, a casa e o jardim (e eram diversos esses lugares cultivados para a transmissão do saber), se tornavam um rico espaço de aprendizado e troca de conhecimentos ancestrais. Depois de um período de cerca de 9 anos na aldeia Boca da Mata, tendo tido a maior parte de seus filhos lá, que ao todo foram dez, o casal se mudou novamente para Barra Velha, buscando melhores condições de estudo para seus filhos, e depois para o comércio, em Porto Seguro. Mas a morte de Jonga abala profundamente Japira. Entretanto ele ainda viveria para dar apoiar e fortalecer um momento muito importante na vida de Antônia Braz. Ela conta como foi que aconteceu:

JP Foi quando um professor foi na minha casa, falou com meu marido e disse que precisava de alguém para fazer uma entrevista, assim como você está fazendo comigo, lá na escola dele.. Aí fomos, eu e meu marido. Aí a gente foi trabalhar com eles lá, ligamos, fomos. Aí a gente foi fazer o nosso trabalho lá com eles. Eles estavam confiando em mim e eu também neles porque não tinha esse costume de estar com brancos. Depois me levaram para Belo Horizonte, aí eu levei eles daqui para dar palestra na Universidade Foi quando meu marido faleceu e eu disse que não participava de nada, porque apanhei bastante. Fiquei dois anos sem fazer nada. Ele me acompanhou o tempo todo, então fiquei dois anos sem fazer nada. Aí um menino que me disse, vamos fazer um livro sobre a sua história, sobre as ervas medicinais. Então nós fomos. Isso tudo está no meu livro. E depois o que aconteceu? A história do Notório Saber, em Minas Gerais. Aí a gente foi, a gente recebeu o diploma lá em Minas Gerais. Aqui na Bahia é um reconhecimento (pela Universidade Federal da Bahia). Sim, foi um reconhecimento, que veio daí. Isso veio daí. Por essa capacidade de ser representante, então eles me indicaram.

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O livro a que Pajé Japira Tapajó se refere é Saberes das terras pataxós da beira mar à mata atlântica (Belo Horizonte: Teia dos Povos/ Piseagrama, 2022), cuja primeira edição está esgotada. Referência quando se trata dos conhecimentos e saberes ancestrais dos povos Pataxó do sul da Bahia, principalmente nos campos da cura física e espiritual, uma segunda edição será brevemente lançada.

JP Hoje trabalho aqui, lá em São Lázaro, na Faculdade de Filosofia e também na região lá de Porto Seguro, em vários territórios indígenas, em várias aldeias. Eu estou fazendo uma horta. É tanto que agora de tarde eu vou lá. Aí eu tenho que ir lá hoje para mim ver, porque a gente também plantou umas mudas, mas não pegou. Eu fiz uma horta para os alunos, eu estava passando para os alunos como é que planta, como é que cuida. Ela é miúda. Por enquanto, eu nem botei nome, nem pensei ainda de botar nome. Aí nós estamos lá, mas agora acho que vai começra (as aulas estavam prestes a recomeçar, com o fim da greve). Ah! eu ensino assim, sabe. Eu estou ensinando os meninos a trabalhar com as hortas de medicina e também eu faço outro trabalho para eles de estar pegando. Também como a gente trabalha, o conhecimento meu na floresta, aí eu estou passando isso para eles, outros casos que aconteceu com a gente, aí eu estou passando para eles também, certo?

ED Certíssimo! Beleza Pajé Japira. Quer dizer mais alguma coisa? Está tudo bem? Para mim está bem.

JP  Está bem para nós.

Abaixo: Mestra Japira diz para o que serve determinadas plantas e ervas e a crista da galinha d`angola

Essa menina aí (Japira para uma das filhas), ela estava aqui estudando aqui em Salvador, né? Foi na época que teve esse Covid aí. Aí eles foram para as aldeias. E ela, quando chegou lá, ela já tinha levado. Aí eu fazia banho de aroeira e dava chás. A maioria dos meus meninos pegou. Só que eu não deixei eles para ir para o hospital. Eu não deixei, não. Aí eles levam a pessoa, deixam a pessoa isolada lá. E aí eu disse, eu não vou deixar, vou cuidar de vocês aqui. Todos os meus meninos, eu cuidei deles em casa. Nenhum morreu.

A aroeira é pra tudo. Com ela você faz um banho com capim-santo pra tirar os maus olhados. E ela também serve pra inflamatório. Faz sabonete, faz pomada. Eu não sei se estão fazendo o xampu, mas a aroeira é pra tudo. E a aroeira, ela encaixa em várias outras ervas. Você pega uma aroeira, aí bota com preto velho, bota com esse pó, ela sempre é poderosa. A folha da aroeira é muito forte. A casca dela e a folha da aroeira, pra tratar a garganta que tá inflamada, você pode fazer o chá, pode bater no liquidificador, coar ela e gargarejar. Quando a mulher ganha neném, minha avó fazia o banho pra mulher. Antigamente, o médico era o chá, era banho. Era o mastruz, o algodão. Fazia o chá e o banho. Quando a mulher ganha o neném, tem que fazer o banho pra tirar aquelas coisas que estão na mulher e para ela beber. 

 Esse aqui é o jatobá. Que a gente faz garrafada para o sangue, para a pneumonia, para fortalecer a pessoa. Ele é muito forte, ele é tipo um biotônico.

 E esse aqui é a argila. Serve também para passar reumatismo.

 Esse aqui todo mundo conhece, que é o alecrim. Serve para várias coisas também. Ele serve para a gente não ficar velha. (risos) Você tomar o chá todo dia de manhã, a gente fica forte. 

 Essa aqui é a malva-branca Quando às vezes meu pai tomava um corte, ele pegava a malva-branca e botava com a folha da aroeira para lavar aquele corte. 

Esse aqui é a imburana, também. Ela serve também para vários tipos de dor no estômago e também para até para gastrite ele serve. A garrafada né? Dela. 

 Aí você pega ela, a cabecinha dela, da galinha d’angola. Você quer só a crista, você deixa secar e aí depois você vai pegar para torrar. Como a gente lá na minha aldeia usa fogo de lenha. Aqui que eu estou usando o fogão a gás.

Aí você pega a torrada e faz um pozinho e dá para a pessoa beber. A gente dá para aquela pessoa que fica caindo. Com epilepsia, se batendo. E remédio para asma, essas coisas assim, também é bom.

 Muito bom também a gordura do teiú para tirar asma

 Com o chifre do boi raspado, defumador, incenso.